Uma janela sobre o mundo bíblico

Reflexões a partir da Bíblia



  • Estudo
  • 2608
  • 17/07/2009
Gilvander Moreira

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Abaixo, eis, seis pequeníssimos textos a partir de homilias em missas nos meses de junho e julho de 2009: 1) Quem é Deus?; 2) Viver a vida a partir do outro/pequeno; 3) Navegar em tempestades; 4) Palavra profética ...; 5) Profecia ao nosso alcance; e 6) Líderes somos todos.

1) Quem é Deus?

A resposta a esta pergunta exige resposta à outra, existencial: Quem somos nós? Não podemos reduzir Deus a uma projeção humana. O grande filósofo Feuerbach já denunciou os riscos de confundirmos Deus com projeções humanas. No passado e no presente, muitas imagens de Deus serviram e servem para meter medo nas pessoas, paralisá-las, mantê-las na infantilidade. Precisamos desconstruir imagens de Deus e reconstruir outras imagens mais libertadoras. O Deus verdadeiro abomina toda e qualquer idolatria, seja ela do mercado, do capital, da tecnologia ou do devocionismo. Nosso Deus nunca foi vingativo, não pune, não mete medo, não é “onipotente” (ou todo- poderoso). Nosso Deus é Amor, 1000% amor, só misericórdia (1Jo 4,8).

Estamos vivendo uma revolução profunda: a da era da cibernética, da robótica, da internet. Na história da humanidade já atravessamos diversas revoluções profundas, tais como a revolução da agricultura, na época do neolítico e a revolução industrial, na época moderna. As revoluções profundas trazem mudanças substanciais na forma de encarar o mundo, nas relações e na estruturação da vida social, política, econômica, cultural e religiosa.

O Deus trinitário clama por comunhão holística (total) - material e de participação na mesma mesa da vida. A santíssima Trindade não quer somente fraternidade espiritual ou de amizade, mas também fraternidade econômica, política e cultural. Não agradam à Trindade pessoas que se encontram para a eucaristia aos domingos, mas que durante a semana são umas opressoras das outras.

A Trindade, a melhor Comunidade de Vida, convida-nos para a superação do antropocentrismo. Não dá para continuarmos pensando que existe o meio ambiente, a ecologia e nós os humanos, como se fôssemos superiores ao resto da criação. É hora de percebermos que fazemos parte de uma grande Comunidade de Vida, composta por todos os seres minerais, animais, vegetais e humanos. Somos todos filhos e filhas do mesmo forno. Viva a Trindade em nós!

2) Viver a vida a partir do outro/pequeno

A semente na terra úmida germina e produz frutos pela sua força intrínseca. A luz e a força do pequeno salgam e iluminam o mundo. Reconhecer isso implica viver a vida a partir do outro/pequeno. Isso é ser solidário. Eis um caso eloqüente. Dona Rita vive na periferia. A pobreza é grande. Muitas vezes, os filhos não têm o que comer. Cada manhã sai de casa para trabalhar. É empregada em um bairro rico da cidade. Há dias que também passa fome. Mesmo assim, trabalha com afinco. Certa feita, ao meio-dia, lhe trazem um prato feito e abundante. Dona Rita não come. Apenas chora. Momentos depois, lhe trazem um copo de suco. Perguntam: " - Dona Rita, por que a senhora não come? Por que deixou o prato de lado?" Dona Rita diz: " - Meus filhos em casa estão passando fome. Como posso comer se eles não comem?" " - Que é isso, Dona Rita?" atalha outra pessoa. "A senhora não está com fome?" "- Sim, estou", respondeu ela. " - Então, coma!. O que tem a ver isso com os seus filhos? Mate a fome, para poder ainda ajudar em casa e ter força para trabalhar." " - Não, hoje não como", respondeu determinada Dona Rita. "Se eu comer, esta comida me fará mal. Prefiro sentir o que meus filhos sentem, a fome, em vez de comer esta comida. Se não que mãe sou eu? Não quero deixar de ser mãe, por causa de um prato de comida." Dona Rita certamente não sabia definir o que é solidariedade, mas a viveu plenamente. No seu sentido mais profundo e radical. Lá, naquele nível em que as pessoas se identificam com o destino das outras, no sofrimento e na alegria, na dor, na fome, na prostração, aí está a solidariedade. Ser solidário é viver a vida a partir do outro/pequeno e não a partir de si mesmo/a.

Ouvir o inaudível é imprescindível para quem quer guiar o povo. Apenas quando se aprende a ouvir o coração (e estômago, pés, mãos e.. ) das pessoas, seus sentimentos mudos, os medos não confessados e as queixas silenciosas, um líder pode inspirar confiança em um povo, entender o que está errado e atender às reais necessidades dos cidadãos. A morte de um país começa quando os líderes ouvem apenas as palavras pronunciadas pela boca, sem mergulhar a fundo na lama das pessoas para ouvir seus sentimentos, desejos e opiniões reais.

3) Navegar em tempestades

Todos nós estamos “em alto mar, em meio a um furacão”. A travessia é difícil e perigosa. O mar sintetiza as forças geradoras do mal e hostis ao projeto de Deus. Somos herdeiros do céu e da terra. A fé no Deus solidário e libertador, na força escondida nos pequenos e a esperança de que construir um outro mundo é possível, necessário e urgente, nos dá força para caminhar. É Deus quem nos anima: "Segure os soluços e enxugue as lágrimas, porque há uma esperança para a sua dor... existe uma esperança de futuro" (Jer 31,16-17).

Vivemos inundados por Deus. Ele nos envolve, permeia toda a nossa existência, perpassa-nos. Poderíamos dizer que "nós somos os peixes e Deus é o mar": uma imensidão de gratuidade e de presença amorosa libertadora. "Em Deus vivemos, nos movemos e existimos" (At 17,28). Deus é sempre mais e sempre maior.

O Artista maior das nossas vidas não é "onipotente", porque não age como ditador impondo a sua vontade. Deus não é padrasto; não é paternalista; não é assistencialista. Deus não atropela as nossas liberdades. Por isso não impõe nada, mas se limita a propor ternamente. Podemos dizer sim ou não ao seu projeto libertador e humanizador e temos que assumir as consequências. Por ser amor, Deus é eminentemente "frágil", pois nos deixa livres, respeita o nosso direito de ser diferente, muitas vezes tem "uma paciência danada" conosco, e sabe que mais cedo ou mais tarde daremos a nossa adesão ao seu projeto de amor e de libertação que se realiza em tempos de exclusão. A ação de Deus em nós e conosco é como fogo no capim seco ou como água morro abaixo: ninguém segura.

Deus respeita o princípio de subsidiariedade, ou seja, o maior não faça o que o menor pode e deve fazer. Deus não intervém no que pode e deve ser feito pela humanidade. Deus é santo, ou seja, é o totalmente Outro. Nós somos criaturas cocriadoras. Incomoda a muita gente o fato de Deus parecer estar de braços cruzados na arquibancada da vida, enquanto 2/3 da humanidade é crucificada. Uma pessoa incomodada com o sofrimento dos inocentes questionou um sábio indiano: “Deus não faz nada para salvar os inocentes da cruz?” O sábio respondeu: “Fez você!”

4) Palavra profética ...

pode ser desprezada. “Ouvem as tuas palavras, mas não as praticam ...” (Ez 33,30-33).

pode vir com atraso. Logo após a queda de Jerusalém (587 a.C.), o povo amedrontado, temendo mais represálias do rei babilônico, vai a Belém consultar Jeremias. Este leva dez dias para dizer uma palavra profética. Este fato revela que a profecia não cai pronta do céu, mas precisa tempo para ser discernida frente aos acontecimentos.

é dura e exigente. Às vezes, a Palavra de Deus “é doce como mel”, mas freqüentemente provoca pânico, como um rugido de leão (Am 1,2); transforma-se num fogo ardente e indomável contido nos ossos, mas é preciso continuar a proclamá-la (Jr 20,9). Não dá para fugir da Palavra. O profeta Jonas é perseguido pela palavra profética até às profundezas do oceano.

gera julgamento: salva ou condena. Se a palavra profética é aceita, torna-se caminho de libertação, mas se é rejeitada, então causa endurecimento no pecador e aí resulta em “condenação”.

é eficaz (cf. Is 55,1-11). Pode tardar, mas não fica sem efeito.

possui poder para edificar. A Palavra de Deus, presente na Bíblia e essencialmente na Vida, é ao mesmo tempo a realidade mais frágil e mais forte do mundo; é frágil, porque propõe, mas não se impõe; convence, mas não vence; convida, mas não intima; cativa, mas não seduz; tem a força do amor, mas não tem a força do poder e nem a força do dinheiro; Enfim, é frágil, porque é Palavra de quem nos ama apaixonadamente. Por isso nos deixa 100% livres; não atropela a nossa liberdade. Também não é paternalista e nem assistencialista. Não é uma palavra de ditador, nem de um padrasto, mas é palavra de quem nos ama infinitamente; é palavra de um Deus, que é pai e mãe.

5) PROFECIA AO NOSSO ALCANCE

Os profetas da Bíblia não tinham um canal de comunicação direta com Deus, não eram pessoas privilegiadas. Deus não ditava-lhes as profecias. Não precisamos ficar lamentando: “Ah, se eu fosse Jeremias, se eu fosse Elias, ou Ezequiel, ou Amós, ou Oséias!”. Os profetas da Bíblia eram pessoas do povo. Conseguiam desenvolver toda a beleza, a grandeza e a dignidade humana existente neles. Isto é possível a qualquer pessoa que se coloque em sintonia com a realidade do povo, na perspectiva da fé libertadora. Paulo Freire, com sabedoria refinada, dizia: “Os profetas não são homens ou mulheres desarrumados, desengonçados, barbudos, cabeludos, sujos, metidos em roupas andrajosas e pegando cajados. Os profetas são aqueles ou aquelas que se molham de tal forma nas águas da sua cultura e da sua história, da cultura e da história do seu povo, dos dominados do seu povo, que conhecem o seu aqui e o seu agora e, por isso, podem prever o amanhã que eles mais do que adivinham, realizam.”

Os profetas e as profetisas são pessoas com corações sonhadores, pés cravados no chão, mãos sujas na labuta e cabeça erguida. Dizem para nós: “Ai daqueles e daquelas que pararem com a sua capacidade de sonhar, de inventar a sua coragem de denunciar e de anunciar. Ai daqueles que, em lugar de visitar de vez em quando o amanhã, o futuro, pelo profundo engajamento no hoje, no aqui e no agora, se atrelam a um passado de exploração e de rotina.” Acordemos a profecia em nós!

6) Líderes somos todos

Inspirado, o profeta Jeremias alerta: “Ai dos pastores que espalham e extraviam as ovelhas do meu rebanho.” Na Bíblia, a palavra “pastores” não se refere apenas a líderes religiosos, mas às lideranças em todos os setores da vida humana: lideranças religiosas, políticas, econômicas, culturais, educacionais, etc. Jeremias revela a vontade de Deus: as lideranças ajudem o povo na conquista de seus direitos. Povo ferido e humilhado, vida indigna.

Observemos o rosto de pessoas que sobrevivem em condições subumanas. Trazem no próprio corpo as cicatrizes dos golpes sofridos na dureza da sobrevivência. Como se justificam líderes religiosos e políticos quando mancham sua missão com atitudes de exclusão, desrespeito e corrupção? Há sempre uma esperança, até mesmo na noite escura surgirão pastores/líderes autênticos que conduzirão o povo por caminhos de justiça e liberdade.

Ainda bem que, mesmo hoje, haja tantos jovens que alegram seus pais e abraçam a causa dos oprimidos. Arriscam a péle e vão, passo a passo, ajudando o povo a se organizar na busca de seus legítimos direitos humanos: casa, terra, saúde, educação, dignidade. Enquanto falsas lideranças dispersam o povo, do testemunho de Jesus de Nazaré emana uma luz a suscitar criatividade a fim de atrair as pessoas pelo compromisso na luta por convivência fraterna.

Assim como Jesus, urge promovermos relações humanas de respeito, diálogo e compaixão, combinando ternura e firmeza quando se faz necessário. “Vamos para um lugar deserto”, convida Jesus. Carecemos de reflexão para termos uma visão de conjunto e não nos perdermos em um ativismo vazio. É também a partir de onde a vida parece não poder mais fluir que se torna possível criar projetos de inclusão social e evangelização libertadora.

Sob a inspiração de nossa padroeira, a Senhora do Carmo, nossa comunidade vive, há tempo, em clima de permanente conversão. Clamores dos pobres são ouvidos, voluntários se apresentam, projetos se multiplicam e novos serviços se tornam possíveis em benefício dos que mais precisam. Perseveremos nesse caminho, estimulando-nos uns aos outros. Sigamos no caminho da real confraternização mediante a partilha do que somos e temos, do que cremos e fazemos. Estamos bem acompanhados.


Frei Gilvander Luís Moreira – e-mail: [email protected]
www.gilvander.org.br
Belo Horizonte, 16 de julho de 2009, festa de N. Sra. do Carmo.

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