Uma janela sobre o mundo bíblico

“Farei passar diante de ti toda a minha beleza!” (Ex 33,19a)



  • Estudo
  • 6810
  • 12/09/2009
Ildo Perondi

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1. Introdução

O objetivo deste estudo é refletir sobre uma frase importante no Livro do Êxodo, onde o Senhor decide manifestar a Moisés a sua beleza. Esta teofania revela também que a beleza é um traço importante do Rosto de Deus e que, muitas vezes, tanto a reflexão bíblica, como teológica e, mesmo a pastoral, têm deixado à margem.

O texto que vamos analisar surge depois da superação do conflito provocado pelo rompimento da aliança, quando o povo de Deus adorou o bezerro de ouro, substituindo o Senhor que havia libertado e caminhado com o povo (Ex 32,1-7). Moisés intercede pelo povo e o Senhor manifesta sua bondade e sua beleza.

Somos da opinião que muitos textos bíblicos surgiram diante de situações de conflitos, crises e dificuldades que o povo de Deus enfrentou em sua caminhada histórica. A Bíblia inicia com a superação do caos inicial: trevas, abismo, deserto, vazio... (Gn 1,2a). Foi através da Palavra de Deus que surgiu a Criação colocando vida e beleza diante deste quadro de catástrofe inicial.

O leitor fiel da Bíblia vai ver que depois do primeiro relato da Criação (Gn 1,1–2,4a), logo surgem novos conflitos, novos caos, novas situações de ruptura... É a solidão de Adão que faz com que o Criador encha o jardim de diversas criaturas e por fim da sua companheira. Um novo caos surge quando, instigado pela serpente, o primeiro casal desobedece a Palavra do Senhor e prefere ouvir a voz tentadora, que os levou à queda. Novamente o Senhor vem em socorro restaurando a harmonia que havia sido rompida. Em seguida, encontramos o assassinato cometido por Caim contra seu irmão Abel, é um novo caos. Depois vem o dilúvio provocando o enorme caos e com a sua superação temos a instituição da primeira Aliança. O caos da seca que obriga Abrão e Sarai a migrarem para uma nova terra desconhecida, onde recebem a Promessa e com eles Deus institui a Aliança. Anos mais tarde o povo de Deus se encontra diante da dura escravidão do Egito, o grande caos que provoca o conflito com o faraó e a grande libertação... Estes são apenas alguns exemplos de como alguns textos bíblicos vão surgindo com o aparecimento do caos e a sua superação através da intervenção da Palavra de Deus.

É também diante de uma situação de caos (idolatria) na caminhada entre o Egito e a Terra Prometida que vamos nos deparar com uma das frases mais belas do Antigo Testamento, quando o Senhor diz a Moisés: “Farei passar diante de ti toda a minha beleza” (Ex 33,19)1. O povo de Deus já havia abandonado a terra feia do Egito que lhe tornou a vida “amarga” (1,14) e está em busca da bela terra prometida. A nova terra será como mãe que nutre o filho (dará o leite) e, ao contrário da vida amarga do Egito, dará a “doçura” do mel (3,8).

2. O Contexto do texto

A frase de Ex 33,19a situa-se já entre as últimas etapas da longa caminhada entre a situação inicial de escravidão no Egito e a conclusão do livro do Êxodo. O caos inicial narrado pelo Livro do Êxodo é o da escravidão com duros e amargos trabalhos. A superação surge através da ação da Palavra do Senhor em confronto com o faraó. Moisés é o grande interlocutor entre Deus e o povo. Ele é também o representante (de Deus e do povo) nos confrontos com o faraó.

O povo é libertado e inicia a sua grande marcha rumo à Terra Prometida. Novos caos surgem na caminhada: o mar bravio teve que ser superado (14,15-31); a falta de água (15,22-27); a fome (16,1-36); a sede novamente (17,1-7); os inimigos amalecitas (17,8-16); a falta de lideranças (18,13-27)... O povo chega diante do Monte Sinai e ali acampa. Esta parada é momento de glória, com o recebimento da Lei e a instituição da Aliança no deserto (19,1ss).

Porém, um novo e grande caos surge na caminhada. O povo, na ausência de Moisés, troca o Senhor que os libertou das garras do faraó pelo bezerro de ouro (32,1-6). É este caos que precisa ser superado para a continuidade da caminhada.

No entanto, a superação deste conflito é difícil. O diálogo travado entre Moisés e o Senhor não é tranqüilo; ao contrário, é conflituoso. De uma parte o Senhor parece estar decidido a abandonar o projeto de ser parceiro do povo que libertou. O Senhor se dirige a Moisés dizendo que este é “teu” povo (32,7) ou “este povo” (32,9). Moisés devolve a questão dizendo que o povo é “teu” (32,11-12; 33,13.16). Não é uma disputa para ganhar o povo (como foi o conflito entre Deus e o Faraó), e sim para saber quem não quer ficar com o ônus de ser proprietário de um povo que foi infiel. A situação é semelhante àquela apresentada pelo Profeta Oséias, cujo filho (que representa o povo infiel) se chama “Lo-Ammi” (“não-meu-povo”) quando o Senhor diz: “porque não sois meu povo, e eu não existo para vós” (Os 1,9).

O conflito entre o Senhor e Moisés se acirra a tal ponto que Moisés utiliza um expediente nada recomendado. Ele joga nas mãos do Senhor a responsabilidade por tudo o que acontecer. Mais ainda: informa que se o projeto fracassar, o Senhor também perderá, pois os demais povos vão rir dele, vão acusá-lo de ser incapaz de cumprir o que prometeu... (32,12). Podemos até discordar da atitude de Moisés que age assim diante de Deus. Porém, Moisés não é um líder pacato e que obedece cegamente as ordens de Deus como fez Noé diante do dilúvio. Noé não se preocupou em salvar o seu povo, mas apenas a sua família (cf. Gn 6,5ss). Moisés procura salvar o povo (apesar do pecado cometido). Interessante que a ação de Moisés de buscar satisfação diante de Deus, não será punida e nem mesmo condenada pelo Senhor. Antes pelo contrário, é levada em conta. O Senhor escuta a súplica de Moisés, vê a obstinação do líder – que age qual uma mãe que defende a cria diante das ameaças –, tem compaixão e misericórdia, seja do líder que do próprio povo rebelde.
É através do diálogo entre o Senhor e Moisés que resulta novamente a superação do caos. O Senhor se dispõe não só a continuar caminhando com o povo, mas ser uma presença mais efetiva: “Eu mesmo irei convosco e te darei descanso” (Ex 33,14). É uma presença em grau maior do que aquela anunciada em 23,20.23; 32,34 e 33,2, onde era somente o Anjo que acompanhava o povo.

Moisés, por sua vez, reconhece a importância da presença do Senhor na caminhada: “Se não vieres tu mesmo, não nos faça sair daqui” (Ex 33,15).

É na conclusão do diálogo, quando o conflito já está superado, que Moisés pede algo a mais do seu Senhor: “Rogo-te que me mostres a tua glória” (33,18). E o Senhor, em sua infinita bondade, lhe faz duas promessas: “Farei passar diante de ti toda a minha beleza, e diante de ti pronunciarei o meu nome ‘Senhor’” (33,19).

3. Análise do texto

Depois da superação do caos (que foi a traição do povo ao optar pela idolatria ao bezerro de ouro), o diálogo entre o Senhor e Moisés se torna sereno. A resposta à súplica de Moisés é realizada pelo Senhor com duas promessas: mostrar a sua beleza e pronunciar o Nome Divino.

Optamos pela tradução feita pela Bíblia de Jerusalém (BJ)2, porém reconhecemos que não há unanimidade na tradução do termo hebraico “kol tobi”, pois o mesmo pode significar “toda minha beleza”, mas encontramos outras opções de traduções: “todo o Meu bem” (Bíblia Hebraica); “toda minha bondade” (Almeida, Vozes e CNBB); “todo o meu esplendor” (Edição Pastoral); “toda a minha riqueza” (Bíblia do Peregrino). A TEB prefere “todos os meus benefícios”.

Vamos analisar as duas promessas feitas pelo Senhor a Moisés:

a) Ver a beleza de Deus
O texto quase se contradiz, pois um pouco antes disse que “O Senhor falava com Moisés face a face como um homem fala com seu amigo” (33,11) e mais adiante afirma que Moisés “não poderá ver a sua face” (33,20). Seguramente Moisés não viu o rosto de Deus, pois para o AT existe uma distância entre a santidade de Deus e a situação do ser humano, de tal sorte que todo homem que visse a face de Deus deveria morrer (Ex 19,21; 33,20; Lv 16,2; Nm 4,20).

O Senhor passará diante de Moisés, mas Ele próprio colocará sua mão protetora de modo que Moisés não veja a sua face. O Senhor acrescenta que “me verás pelas costas. Minha face, porém, não se pode ver” (33,23).

A tradição judaica nos ensina que Deus só pode ser visto “pelas costas”, isto é, somente podemos vê-lo olhando para trás, para aquilo que Ele já fez. Não podemos projetar Deus à nossa frente, fazê-lo à nossa imagem e semelhança. Segundo a TEB: “É possível ver Deus de costas, quer dizer, depois que ele passa, podem-se constatar os efeitos de sua glória na história e na criação. Mas não é possível vê-lo na face, isto é, de frente: seria prever a sua ação, fixar-lhe um programa, ao passo que ele é soberanamente livre (vv.21-23)”3.

No NT “ver a Deus” é uma bem-aventurança destinada aos puros de coração (Mt 5,8) e somente depois da ressurreição é que podemos vê-lo “face a face” (1Jo 3,2; 1Cor 13,12).

b) A pronúncia do Nome divino
Moisés já havia escutado o Nome Sagrado de Deus (YHWH), foi a ele que o Senhor o revelou (3,13-15; 6,2). É o nome mais importante de Deus e ocorre mais de 6.700 vezes na Bíblia Hebraica. Em sua raiz, provavelmente, está o verbo “ser”, daí se procura explicá-lo como “Eu sou aquele que é” (Ex 3,14). Um Nome solidário, ligado à dor e angústias do seu povo.4

Entre os judeus havia restrições à pronúncia do tetragrama com o Nome de Deus, devido ao abuso (juramentos falsos, maldições...), mas, sobretudo, pelo grande respeito pelo Sagrado Nome de Deus. Mais tarde a pronúncia foi reservada unicamente ao Sumo Sacerdote nas celebrações no Templo, posteriormente somente uma vez por ano no final da festa do Yom Kippur, o Dia da Expiação (cf. Lv 16; Eclo 50,20), até ser totalmente proibida a sua pronúncia. Quando se lia o texto bíblico, lia-se Adonai, ao invés de Adoní para referi-lo unicamente a Deus e não aos senhores humanos.
Portanto, foi um privilégio grande concedido a Moisés de poder ouvir a pronúncia do Sagrado Nome de Deus. Mais ainda: Moisés poderá ouvir o Santo Nome sendo proclamado pelo próprio Deus.

4. As promessas se realizam

O Deus que se revelou aos Pais e que faz caminhada com o povo é o Deus que promete e cumpre; é fiel quando empenha sua palavra. A Promessa é assim um dos fios condutores de toda a Bíblia. Foi acreditando nas Promessas que Abraão e Sara partiram ao ouvirem o chamado de Deus. Moisés também partiu conduzindo o povo acreditando e tendo como horizonte a Terra Prometida por Deus. No Monte Nebo o Senhor mostra a Moisés a terra que lhe prometeu (Dt 34,1-4). Moisés morrerá como o justo que acreditou e viu a promessa se realizando (Dt 34,5). Mais tarde o povo de Deus aprenderá a “olhar para trás” e constatar que “de todas as promessas que o Senhor fez à casa de Israel, nenhuma falhou: tudo se cumpriu” (Js 21,45; 23,14; 1Rs 8,56).

Assim também as promessas feitas em 33,19 vão se realizar em 34,5-7. O Senhor passa diante do justo Moisés, proclama o seu Nome e manifesta toda a sua beleza e bondade: “O Senhor desceu em uma nuvem e ali esteve junto dele. Ele invocou o nome do Senhor. O Senhor passou diante dele e ele proclamou: ‘Senhor! Senhor... Deus de amor e de piedade, lento para cólera, rico em graça e em fidelidade; que guarda a sua graça a milhares, tolera a falta, a transgressão e o pecado, mas a ninguém deixa impune e castiga a falta dos pais nos filhos e nos filhos dos seus filhos, até a terceira geração’”. É certo que há dúvidas sobre quem é o sujeito “ele”, isto é, se é Moisés ou o Senhor, porém como este texto é uma confirmação daquilo que Ele prometeu anteriormente, o “ele” só pode ser o Senhor.5

Depois da manifestação do Senhor, Moisés cai de joelhos por terra e adora o Senhor, exclamando: “Senhor, se agora encontrei graça aos teus olhos, continua mesmo que este povo seja de cerviz dura. Perdoa as nossas faltas e os nossos pecados, e toma-nos por tua herança” (34,9). Em seguida a Aliança é renovada (34,10ss) e o povo coloca-se a serviço do Senhor (35-39) e pode continuar a marcha rumo à Terra da Promessa.

5. A beleza de nosso Deus!

Que bom que nosso Deus é belo e bom! Já na superação do caos inicial percebemos esta marca. Depois do caos, surge a criação. Por sete vezes o texto do Gn 1,1–2,4a nos informa que Deus viu que era bom o que havia criado (Gn 1,4.10.12.18.21.25.31). Mas a expressão ki tôv pode ser traduzida tanto por “que era bom”, como por “que era belo”. Bondade e beleza são sinônimos podem ser na Bíblia. O hebraico muitas vezes emprega tôv quando, em português, usamos uma palavra mais específica, tal como “belo” ou “caro”, “dispendioso”.6 O vocábulo serve também para descrever a beleza estética das pessoas: das “filhas dos homens” (Gn 6,2); a beleza de Rebeca (Gn 24,16); de Saul (1Sm 16,12); de Betsabéia (3Sm 11,2), etc.

É em 34,6-7 que o Senhor manifesta traços desta sua beleza, quando Ele revela algumas características do seu modo de agir. Na tradição judaica são conhecidos como os 13 atributos de Deus e que são classificados assim:
1-2) Adonai, Adonai: A repetição do nome do Eterno aqui significa que Ele é misericordioso com qualquer pessoa, no que diz respeito aos seus pecados e como pecador arrependido.
3) El: Deus Todo Poderoso que age de acordo com Seus sábios ditados.
4) Misericordioso como um pai para com seus filhos, prevenindo-os para não cair.
5) Benevolente e que ajuda aos caídos que não podem regenerar-se por si mesmos.
6) Paciente, espera que o pecador se arrependa.
7) Cheio de misericórdia com a pessoa correta e também com a incorreta.
8) Verdadeiro e direito em suas promessas.
9) Bondoso e misericordioso: considera os méritos dos pais nos filhos, ao menos por duas mil gerações.
10) Perdoa os pecados: cometidos premeditadamente.
11) Perdoa as ofensas e pecados cometidos com espírito de rebeldia.
12) Esquece os pecados cometidos involuntariamente.
13) Absolve o penitente.7
Estes traços da beleza de Deus devem ser observados naquilo que Ele fez por nós, isto é, fazendo memória, olhando para a história passada, isto é, para aquilo que o Senhor já fez pelo seu povo, para a maravilha de toda a sua Criação.

Foi este olhar de “de costas” para Deus, isto é, para a beleza da obra por Ele criada, pela beleza que há em todas as Suas criaturas e também por tudo de bom e belo, que o Senhor fez na história da salvação, que levou Santo Agostinho a exclamar: “Tarde te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei! Estavas dentro de mim e eu estava fora, e aí te procurava... Estavas comigo e eu não estava contigo... Mas Tu me chamaste, clamaste e rompeste a minha surdez. Brilhaste, resplandeceste e curaste a minha cegueira" (Confissões, Livro Décimo XXVII. 38). Para Agostinho, a Beleza não é qualquer coisa, mas é Alguém, é o Único que se deve amar acima de tudo, porque é a fonte e o fim mesmo do amor.8

O Livro da Sabedoria, provavelmente o último escrito do Antigo Testamento, julga aqueles que não foram capazes de descobrir Deus vendo as obras que Ele fez (Sb 13,1). Fascinados pela beleza de algumas criaturas, as tomam como deuses, quando deviam adorar o Senhor, pois “foi a própria fonte da beleza que as criou” (Sb 13,3). E o autor ainda afirma: “Calculem quanto mais poderoso é Aquele que as formou, pois a grandeza e a beleza das criaturas fazem, por analogia, contemplar seu Autor” (Sb 13,4-5). Se tanto é belo o que se vê, como não descobrir nisso o Senhor? (Sb 13,7-9).
O Salmo 45 canta a beleza do “mais belo dos filhos dos homens” (45,3). “A tradição judaica e a cristã o interpretam com referência às núpcias do Rei Messias com Israel”.9 Portanto, tanto a exegese como a teologia cristã aplicaram-no a Cristo. Também Ele é o “belo pastor” (Jo 10,11).10
Há beleza e bondade em Deus e naquilo que Ele faz. E isso é também conseqüência daquilo que é o nosso Deus: Ele é Bom! (Sl 100,5; 106,1; 145,9; Jr 33,11; etc.) Portanto, “boa” ou “bela” é também a terra que o Senhor promete dar ao seu povo (Dt 1,25.35; 3,25; 4,21-22; 6,18, etc.). Boas e belas são também as promessas do Senhor (Js 21,45; 23,14-15; 1Rs 8,56, Sb 12,21, etc.). Também foi boa a mão do Senhor que protegeu o seu povo (Esd 7,6.9.28; 8,18.22.31; Ne 2,8.18). O Senhor mesmo tem beleza, glória e esplendor na sua santidade (1Cr 16,19; Sl 29,2; 39,11, 96,9; etc.), ainda que o termo usado nestas últimas passagens não seja “tôv”, mas “hadarah”.11 A Palavra do Senhor também é boa e bela (Is 39,8; 50,4; 29,10; 33,14, etc.). E o NT vai felicitar aqueles que saborearam o dom celeste e “experimentaram a beleza da palavra de Deus” (Hb 6,5 – cf. tradução da Bíblia de Jerusalém).

6. Precisamos ver hoje a beleza de Deus

A beleza de nosso Deus continua se manifestando hoje, apesar das situações de caos em que nos encontramos. Por vezes, a realidade de um mundo marcado pelas fantásticas invenções tecnológicas realizadas pelo ser humano pode obscurecer a beleza das obras criadas por Deus. Faz-se necessário, para tanto, uma mentalidade da contemplação, da mística, da pureza do olhar. Sugerimos alguns pontos para uma reflexão atual:

6.1. Diante da crise ecológica. Se o mundo moderno é capaz de grandiosas invenções, é verdade também que é um mundo destruidor da criação de Deus. Nunca tantas espécies de vida foram perdidas como nas últimas décadas. Nunca o planeta esteve tanto ameaçado por uma crise ecológica como agora. Portanto, por trás da aparente “beleza” das invenções humanas está o preço terrível da destruição do nosso próprio habitat e que coloca em risco a nossa própria existência sobre a face da Terra. A superação da crise e do caos só virá com uma tomada de consciência, com a adoção de práticas, com um novo modelo de desenvolvimento, mas também com uma espiritualidade ecológica, com o olhar contemplativo para a criação, admirando a sua beleza e bondade.

6.2. A idolatria moderna. Vimos que aquilo que ocasionou o caos, isto é, a ruptura entre Deus e o seu povo foi a prática da idolatria. Os “bezerros de ouro” estão mais vivos do que nunca. Basta olhar para o deus mercado que se sacia das vítimas dos pobres sobre suas mesas. Por trás da “beleza” dos prédios dos bancos, se escondem os caos que eles provocam na economia, cujas contas são pagas pelos pobres e pelos trabalhadores. Mas também o mercado e o comércio em nome de Deus, onde alguns enriquecem tanto utilizando o nome de Deus e explorando as misérias humanas. Ou então se olharmos para a indústria de cosméticos e da moda que impõe modelos próprios de uma beleza do luxo, do lucro e da hipocrisia de uma classe dominante...

6.3. A fome e a injustiça social. A morte continua ceifando vidas. O modelo capitalista de desenvolvimento produz massas humanas de pobres e famintos, em cujo rosto desaparece a beleza. Da mesma forma as guerras e a violência que ceifam vidas inocentes, são sinais de um mundo feio, horrível, destruidor da vida, que desrespeita a dignidade da pessoa, desfigura a imagem de Deus presente no ser humano. Um mundo belo deverá ser sempre baseado na utopia de Jesus onde “todos tenham vida e vida e abundância” (Jo 10,10). Ou seja: o mundo da justiça, da partilha, da fraternidade e da paz.

6.4. “A beleza salvará o mundo!”. Em seu romance “O Idiota” Dostoievski nos deixou esta bela frase. Mas é o mesmo autor que também questiona: “Qual beleza salvará o mundo?”. Diante de um quadro de Jesus crucificado, o autor nos diz que ele pode nos fazer perder a fé, sobretudo quando não vemos nele o grande sinal do amor de Deus por nós. É certo que nosso Deus se manifestou com os traços mais belos e maternos nos momentos de dor e sofrimentos do povo, restabelecendo a vida ameaçada (na escravidão do Egito, no exílio da Babilônia, na morte do Filho na cruz). A superação dos tantos “caos” indica que o Senhor quer a vida, quer a beleza que salva. Precisamos de um mundo de beleza, mas não a beleza do luxo comercial. O belo não tem preço e nem se pode comprar com dinheiro. Não devemos cair nas tentações da beleza fugaz e falsa, pois como nos ensina Gogol (o poeta russo) “o diabo também se traveste de beleza”.

6.5. A arte como expressão da beleza. A arte em suas diversas expressões deveria traduzir a beleza. Os meios de comunicação, em geral preocupados com audiência e lucros, não são produtores de programas que transmitem beleza. Nossos cantos ultimamente nem sempre expressam a beleza e a realidade da vida, também a liturgia em nossas Igrejas muitas vezes se perde em ritualismos que nem sempre levam ao grande mistério de Deus.

6.6. A diversidade e a multiformidade. A contemplação da criação e da ação de Deus na história deve nos levar a ver a beleza de Deus. Esta se manifesta em sua infinita diversidade e pluralidade das formas. O diferente não é ameaça, mas manifestação da generosidade do Criador. O exemplo de Francisco de Assis, que via em toda a Criação a beleza e a bondade de Deus, o levou a compor seu belo canto das Criaturas, que começa assim “Onipotente e bom Senhor...

6.7. A esperança e a utopia necessárias. Foi a esperança de chegar à Terra Prometida que ajudou Moisés a manter a fidelidade e ir até o fim. A esperança é bela porque nos aponta para o mistério, para o “ainda não”, para a grande utopia. Apesar dos caos que vivemos hoje, é possível e é preciso sonhar que podemos construir um mundo que seja de acordo com o projeto de Deus. Como Abraão, nós devemos “esperar contra toda esperança” (Rm 4,18). A todos devemos mostrar “as razões da nossa esperança” (1Pd 3,15). “Quem sonha grande, põe os pés na estrada” ensina um canto popular. E um antigo provérbio pode alimentar a nossa caminhada: “Nenhuma caravana jamais alcançou a utopia, mas é a utopia que faz andar as caravanas!”.

7. Conclusão

Deus é belo e é fonte de beleza! Podemos observar isso na beleza das suas obras e no belo e bom coração, cheio de amor e compaixão que Ele possui e que se revela em seu modo de agir. Ele é o Belo por excelência, porque fez belas todas as coisas e porque faz a vida ser bela.

É importante superar a idéia, que pode nos dar uma leitura superficial de alguns textos do AT, de que nosso Deus é justiceiro ou até violento... O texto de Ex 33,19 nos fala da bondade, da beleza, da compaixão e da misericórdia de nosso Deus. A manifestação (Shekiná) experimentada e testemunhada por Moisés nos revela este traço necessário. Olhando “de costas” para a grande história da salvação seremos nós também testemunhas das maravilhas que Ele realizou em nosso favor.

Se Deus não pode ser definido na totalidade do seu mistério, porque Ele é sempre mais e maior que qualquer das suas obras criadas, podemos ao menos definir vários traços do que pode ser o Seu rosto. A própria Bíblia nos oferece alguns destes rostos: Deus é o Criador (Gn 1); é o Libertador (Êxodo); é Shalom (Jz 6,24); é Maravilhoso (Jz 13,18); é Santo (Lv 19,1; Is 6,3): é o Consolador (Is 40-55); é Amor (1Jo 4,8.16), etc. Enfim, a estes e tantos outros rostos não poderia faltar aquele da beleza e que o texto de Ex 33,19 nos revelou.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BÍBLIA DE JERUSALÉM (São Paulo: Paulus, 2002).
BIBLIA TRADUÇÃO ECUMÊNICA – TEB (São Paulo: Loyola, 1994).
COENEN, L. – BROWN, C. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento (São Paulo: Vida Nova, 2000).
FORTE, B. La porta della Bellezza. Per uma estetica teologica, (Brescia: Morcelliana, 2000).
HARRIS, L. (org.) Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento. Tradução Márcio Loureiro Redondo, Luiz Alberto T. Sayão, Carlos Osvaldo C. Pinto. (São Paulo: Vida Nova, 1998).
MCKENZIE, J. L. Dicionário Bíblico. Tradução Álvaro Cunha (São Paulo: Paulus, 1983).
MURA, G. (a cura di). La via della belezza. Cammino di evangelizzazione e dialogo (Vaticano: Urbaniana University Press, 2006).
PIXLEY, G. V. Êxodo. Grande comentário bíblico (São Paulo: Paulinas, 1987).
SCHARDERT, J. Esodo (Brescia: Morcelliana, 1989).
SCHOKEL, L. A. Dicionário Bíblico Hebraico-Português (São Paulo: Paulus, 1997). SCHWANTES, M. História de Israel. Vol. 1: Local e origens (São Leopoldo: Oikos, 2008).
SILVA, V. Deus ouve o clamor do povo. Teologia do Êxodo (São Paulo: Paulinas, 2004).
TORÁ, A LEI DE MOISÉS. Tradução Ohel Yaacov (São Paulo: Sefer, 2001).

 

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Este artigo foi publicado na Revista “Estudos Bíblicos” n° 101, da Editora Vozes, pg. 26-35

 

1 As citações dos textos bíblicos são da Bíblia de Jerusalém, porém o tetragrama divino será traduzido sempre por Senhor. Todas as citações bíblicas seguintes que não tiverem o nome do livro são do Êxodo.

2 Também J. SCHARDERT Esodo (Brescia: Morcelliana, 1989, p. 154), opta por traduzir por “beleza”.

3 TEB, nota de rodapé a Ex 33,19.

4 Cf. V. DA SILVA. Deus ouve o clamor do povo. Teologia do Êxodo (São Paulo: Paulinas, 2004), p. 77-79.

5 Cf. Bíblia de Jerusalém em nota de rodapé a Ex 34,6. J. SCHARDERT Esodo (Brescia: Morcelliana, 1989), p. 155-157.

6 R. L. HARRIS – G. L. ARCHER – B. K. WALKE, Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento (São Paulo: Vida Nova, 1998), p. 565. L. A. SCHOKEL, Dicionário Bíblico Hebraico-Português (São Paulo: Paulus, 1997), p. 255-258.

7 Cf. Torá, a Lei de Moisés, nas notas de rodapé ao texto de Ex 34,6-7 (São Paulo: Sêfer, 2001), pg. 266-267.

8 B. FORTE, La via pulchritudinis, il fondamento teológico di uma pastorale della bellezza, in La via della bellezza (Vaticano: Urbaniana University Press, 2006), p. 82.

9 Bíblia de Jerusalém, em nota de rodapé ao Sl 45.

10 Assim como a expressão hebraica “ki tov” pode ser traduzida também com “que era belo” e não somente “que era bom” da mesma forma a expressão grega “ó Poimén ó kalós ” pode ser traduzida como o “belo pastor” e não somente como o “bom pastor” como comumente é traduzida. Cf. B. FORTE, La porta della Bellezza. Per uma estetica teologica, (Brescia: Morcelliana, 2000). L. COENEN – C. BROWN. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento (São Paulo: Vida Nova, 2000), p. 343-344.

11 A Bíblia Almeida traduz “hadarah-qodesh” por “beleza de sua santidade”. Outras traduções preferem “esplendor” ou “glória” da sua santidade, ou “santa aparição”, etc. A TEB em nota de rodapé a Sl 29,2, informa que a expressão é de tradução incerta.

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