Uma janela sobre o mundo bíblico

O estudo da Bíblia e sua importância histórico-cultural, teológico-literária



  • Estudo
  • 18862
  • 18/09/2009
Celso Kallarrari

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A depender do período em que determinados textos sagrados foram escritos, determinada língua era prestigiada e, por isso, elevada a status de língua sagrada. A influência do contexto histórico, cujos acontecimentos epifânicos se evidenciaram na literatura bíblica, é sumamente importante para o momento da organização dos textos sagrados, a exemplo dos períodos de cativeiro e dominação pelos Assírios e Babilônicos. Esse dado traz, de maneira especial, certo resgate da cultura hebraica, tanto quanto a língua e seus costumes, uma vez que o povo de Israel, no primeiro Testamento, vivia em estado de opressão. No primeiro Testamento, por exemplo, temos a valorização do hebraico, enquanto língua do povo hebreu, do Antigo Israel, cujo Deus era denominado o Senhor ou o Deus de Israel. O hebraico é, de fato, de acordo com Comfort (2003) “uma língua em que a mensagem é mais sentida que meramente pensada”, isto é, “expressa-se mediante metáforas vividas e audaciosas, capazes de desafiar e dramatizar a narrativa dos acontecimentos”, além de ser “pessoal”, relativa “às emoções, e não apenas à mente e à razão” (p. 13). No segundo Testamento, por exemplo, observa-se que o aramaico, língua dos sírios, fora utilizada durante todo o seu período, tornando-se, dessa forma, a língua geral de todo o Oriente.

Desse modo, ao estudar a bíblia, não podemos prescindir do caráter científico da sua linguagem. Somente a partir dos métodos da crítica da forma e literária é que podemos entender os conteúdos que, muitas vezes, apresentam-se estranhos ao crente nos dias atuais, principalmente porque seus escritos são datados de tempos diferentes e muito distantes. Ao se aprofundar no estudo crítico dos textos bíblicos, o teólogo ou fiel apropriam-se das formas como os textos foram escritos e do sentido aos seus primeiros destinatários e, de maneira mais coerente, poderá aplicá-la a sua realidade. De acordo com o autor, é preciso “estudar o passado de tal maneira que liberte a mensagem que [a Bíblia] contém, a fim de que esta possa exercer a sua função hoje na nossa vida” (SCHREINER, 1978, p. 54). Em sendo assim, esta forma mais aprofundada de estudo da Bíblia não deve ser ignorada, uma vez que busca ajudar na análise da realidade atual, a partir do conhecimento do passado e das origens, isto é, torna mais compreensível e acessível à revelação do sentido e do alcance daquelas verdades de fé para o mundo de hoje.

No que diz respeito à cononicidade da bíblia, sabemos que alguns conceitos, tais como, as concepções de que a idade determina a cononicidade ou a de que o valor religioso determina a cononicidade, não são suficientes para determinar a legitimidade de um determinado livro descoberto. Porém, outros princípios de descoberta acerca da canonicidade devem ser levados em conta, quais sejam, se o livro é autorizado, isto é, afirma vir da parte de Deus; se ele é profético ou escrito por um servo de Deus; se este mesmo livro é digno de confiança ou fala a verdade acerca de Deus; e se ele é dinâmico ou possui o poder de Deus que transforma vidas; se ele é aceito pelo seu povo destinatário. Todavia, para a atualidade, a discussão sobre a inclusão ou não, no cânon bíblico, de um livro antigo (manuscrito) que, porventura possa ser encontrado, não se faz necessária, uma vez que o cânon bíblico das Igrejas Cristãs já fora resolvido, conforme mostra a tradição. Um exemplo disso é a discussão sobre inclusão e exclusão de livros do Antigo Testamento que terminou somente no final do século I, no conselho de Yamnia, permanecendo o cânon da bíblia hebraica fixo e preservado até os nossos dias.

A diferenciação quanto à classificação e formação do cânon bíblico deu-se, a princípio, no mundo judaico e, conseqüentemente, no mundo Católico, Ortodoxo e Protestante. Essa diferenciação dos livros do Antigo Testamento da Bíblia dos Católicos e Ortodoxos (46 livros do A. T.) e Protestantes (39 livros do A. T.), percebida, a partir da ausência de 7 livros considerados não-inspirados (Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruc, 1 e 2 Macabeus, e partes de Ester e Daniel) a menos nas Igrejas Evangélicas, deve-se a fatos históricos. Ou seja, no século I d. C., já havia, entre os judeus uma coletânea de livros que eles consideravam inspirados por Deus. Entre esses livros havia três coleções ou divisões (Lei, Profetas e Escritos), considerados e aceitos pelos fariseus enquanto os saduceus só consideravam o Pentateuco como canônico. Somente após a destruição de Jerusalém, um grupo de judeus, propensos a resguardar a verdade do passado, se reuniu em Jâmnia por volta de 90 d. C. e aceitaram o cânon dos fariseus. Essa posição foi tomada tendo em vista que os cristãos tinham adotado a Bíblia Grega (LXX) e, por essa razão, os livros deuterocanônicos foram rejeitados. No tempo da reforma, os protestantes, ao fazer suas traduções diretamente do hebraico, acabaram considerando o cânon judaico como cânon autêntico. Lutero foi o primeiro a chamar esses livros de apócrifos (séc XVI dC) e, mais tarde de “pseudoepígrafos”, considerados, por essa razão, de falsos. Os protestantes apresentam dificuldades teológicas quanto a autenticidade na aceitação desses livros porque apresentam algumas doutrinas refutadas por eles, como, por exemplo, o purgatório, a oração aos falecidos e a comunhão dos santos. Por outro lado, algumas citações dos três livros deuterocanônicos, tais como Eclo, 2Mc e Sb estão presentes no Novo Testamento dos protestantes, uma vez que a Igreja Cristã se desenvolveu no ambiente da Diáspora.

Desta forma, a Bíblia é de suma importância para a fé cristã porque, além de ser um documento histórico, preservado durante milênios, e registrar fatos e acontecimentos da caminhada do povo judeu e cristão, ela é considerada Palavra Sagrada, isto é, Palavra de Deus dirigida, por meios humanos (oral ou escrita) capaz de alimentar a fé dos crentes através da história dos seus antepassados. É esta história que, por sua vez, serve como dinamys para a continuidade presente e futura dos seguidores de Cristo e das primeiras comunidades cristãs. A cada vez que se recorda ou rememora o passado, a fim de fazer Deus presente, o povo cristão escreve sua nova história, a história de Igreja Peregrina em marcha constante rumo à Igreja Celeste. Nesse sentido, tanto o Antigo como o Novo Testamento tratam, em seus textos, sobre a “aliança ou pacto que Deus fez com seu povo” (Israel ou os judeu-cristãos). Em se tratando do Novo Testamento, a aliança é renovada como nova aliança ou novo pacto para os judeus-cristãos que se prolonga através da história até o final do primeiro século da era cristã. Para os cristãos, esses acontecimentos (Antigo e Novo Testamento) é, pois, constantemente revivido, rememorado por meio da leitura bíblica, trazendo, dessa forma, as promessas sagradas para a experiência atual da presença de Deus às comunidades cristãs atuais.

A história da bíblia é, sobretudo, a história do desenvolvimento da história de Israel que se deu, especificamente, no Oriente Médio, chamado de berço de grandes civilizações e impérios, habitado hoje por alguns países históricos relatados na história bíblica (Egito, Israel, Jordânia, Líbano, Síria, Turquia, Iraque, Irã, Arábia Saudita). Certamente, foi, nesses lugares que se desenvolveu a história do povo de Deus. De acordo com o texto, a história de Israel começa, precisamente, com o desenvolvimento da agricultura, numa localização chamada de Crescente Fértil, isto é, uma faixa não muito grande de terra fértil, que forma uma meia-lua, desde o Golfo Pérsico, passando pelos rios Tigre e Eufrates (Mesopotâmia), até o rio Nilo, no Egito. É nesse lugar, de modo especial, que se desenvolve a agricultura e suas técnicas de cultivo, consideradas, à época, avançadas. É também chamado de terra de Canaã, o lugar onde o povo de Israel se fixa e desenvolve a linguagem escrita. Esses acontecimentos, dentre outros, contribuíram para o desenvolvimento de muitos outros povos. Todavia, não se pode esquecer, que a história de Israel, no período do Antigo Testamento, foi bastante marcada pelas dominações estrangeiras, fato esse que contribuiu enormemente para o intercâmbio cultural entre diversos povos, a exemplo dos egípcios (1550-1200 a.C.), assírios (722-612 a.C.), (babilônicos (630-539 a. C.) e os gregos (332-167 a. C.). Esses eventos não foram capazes de coibir o culto monoteísta do povo de Israel à Javé, mas, pelo contrário, corroborou para o fortalecimento da fé, do culto e do estabelecimento das três maiores religiões do mundo (Judaísmo, Cristianismo e Islamismo).

Além do estudo literário, a geografia e a arqueologia bíblica fornecem ao teólogo elementos importantes para determinar ou afirmar, ou até mesmo dizer que não ocorreram ou jamais ocorreram, em determinada época, alguns acontecimentos da história bíblica. Desse modo, as explorações arqueológicas são realizadas tendo em vista a verificação exata do modo de vida, da cultura e da religiosidade que os povos da Bíblia, conforme a história relata, vivenciaram. De acordo com o texto, a partir da localização de dezenas de cidades mencionadas na Bíblia, é possível datar e analisar com precisão, através dos “métodos modernos de escavação e os testes de laboratório” algumas civilizações antigas e confrontar os resultados das pesquisas com os textos bíblicos.

Embora seus conceitos estejam inter-relacionados, os termos Revelação, Inspiração e Iluminação são diferentes quanto as suas definições. A Revelação divina está relacionada aos atos de Deus direcionados a uma pessoa e, de acordo com o texto, “prende-se à origem da verdade e a sua transmissão, enquanto que a inspiração relaciona-se com a recepção e o registro da verdade”. Já a iluminação está relacionada à apreensão e compreensão da verdade revelada. Em síntese, “a revelação é o fato da comunicação; a inspiração é o meio; a iluminação é o dom de compreender essa comunicação”. Em relação à inerrância e a infalibilidade da Bíblia, acreditamos que o fato da palavra de Deus, ou seja, os livros sagrados não conterem erros, uma vez que Deus respirou para fora a Escritura, não significa dizer, por outro lado, que aconteceu como um ditado verbal, sem a atividade e estilo do escritor, uma vez que Deus não interferiu, de maneira alguma, na personalidade do escritor do texto. Contudo, a liberdade do escritor não permitiu que a verdade fosse distorcida ou a verdade transmitida, uma vez que este pôde transmitir, com exatidão, com base na pesquisa histórica, teológica e estilística, a mensagem revelada.

Referências bibliográficas:

COMFORT, Phillip Wesley. A Origem da Bíblia. Rio de Janeiro. 2003, p. 13.
SCHREINER, Josef. O Estudo Científico do Antigo Testamento In: SCHREINER. Josef. Palavra e Mensagem, São Paulo: Paulinas, 1978, p.54-55.

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