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A oração judaica nos documentos da Igreja



  • Estudo
  • 3834
  • 21/09/2009
Reuberson Rodrigues Ferreira

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1 - INTRODUÇÃO

Desde a oração pelos Judicam perdidam (pérfidos Judeus) até o pensamento expresso pela declaração Conciliar Nostra Aetate acerca da relação positiva entre judeus e Cristãos, muitos acontecimento se sucederam. De fato, perseguições eclodiram; conflitos despontaram; inimizades foram semeadas; preconceitos, gestados; oposições, eternizadas. Enfim, situações controversas e delicadas que, nos últimos anos, foram(e ainda estão sendo) superadas e harmonizadas positivamente.

Nesse sentido, diante dessa imensa história comum de mais de dois mil anos, podemos atualmente ariscar refletir sobre o povo judeu a partir do ponto de vista dos documentos Pontifícios. De modo particular, podemos refletir sobre a oração judaica no universo dos documentos do Magistério Romano.

Sobre o judaísmo e os judeus temos vários documentos da Igreja e diversas averbações positivas de alguns papas( destacamos particularmente João XXIII, Paulo VI, João Paulo II). Dentre os documentos que versam sobre esse povo, essa fé e essa cultura destacamos alguns, a saber: Nostra Aetate; As Orientações e sugestões para a aplicação da declaração Conciliar Nostra Aetate; As notas para uma correta apresentação dos judeus e do judaísmo na pregação e catequese da Igreja católica, o Povo judeu e as suas sagradas escrituras na Bíblia cristã, Por fim, o Nós recordamos, uma reflexão sobre a Shoah, para mencionar somente os universais. Poderíamos, também, mencionar as referências que as Conferências Episcopais, sobretudo as Latino Americanas, fizeram sobre o judaísmo, particularmente Puebla(cf. 1103. 110; 1116 e 1123) Santo Domingo(cf. 133;134;136 e 138) e mais recente Aparecida( 235 e 238) Temos ainda, as Orientações para os católicos no relacionamento com os judeus da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil.

Para o escopo deste trabalho, por questões metodológicas, restringiremos nossa pesquisa apenas a três desses documentos, a saber: Nostra Aetate; Orientações e sugestões para a aplicação da declaração Conciliar Nostra Aetate e As notas para uma correta apresentação dos judeus e do judaísmo na pregação e catequese da Igreja católica. Iniciemos,pois, pela Declaração Nostra Aetate.

2 - DECLARAÇÃO CONCILIAR NOSTRA AETATE E A ORAÇÃO JUDAICA

Somente a partir do Concílio Ecumênico Vaticano II é que despontará no seio da Igreja um documento positivo em relação ao Judaísmo, a Declaração Nostra Aetate. Ao lermos os Anais do Concílio, percebemos, contudo, que esse texto de apenas cinco parágrafos, dos quais apenas um é destinado à religião Judaica, teve um laborioso percurso até ser admitido no seio das promulgações conciliares de Paulo VI.

Inicialmente contado para ser uma parte do documento sobre o Ecumenismo( De Ocumenismo, capítulo IV) e mais tarde configurado como uma declaração, o Texto da Nostra Aetate, foi elaborado pelo Secretariado para Unidade dos Cristãos, presidido pelo Cardeal Bea a pedido “expresso” de Sua Santidade o Papa João XXIII1(deve-se mencionar a capital importância de Jules Isaac e seu colóquio com João XXIII para o surgimento desta declaração) .
A declaração sobre as Religiões não-Cristãs(Nostra Aetate), freqüentemente chamada de documento sobre os Judeus, percorreu um laborioso caminho até ser aprovada. Por motivos religiosos e políticos, ela foi, em muitos aspectos, contestada. Dentre os argumentos, alguns bispos, particularmente os de Países Árabes, acreditavam que ela seria um tomada de posição em favor do Estado de Israel. No entanto, após controvérsias e discussões, sugestões e interpolações, adendos e recensões o texto foi aprovado durante a sétima sessão conciliar, em 28 de outubro de 1964.

Nos cinco parágrafos em que trata das religiões não-cristãs e particularmente no que diz respeito a o Judaísmo, sobre oração Judaica não percebemos nenhuma menção explicita na Nostra Aetate. Há, apenas, ricas alusões ao patrimônio espiritual comum entre judeus e Cristãos e um estimulo à mutua colaboração no que diz respeito ao Estudo da Sagrada Escritura, produção teológica e ao diálogo fraterno.

Não obstante essa constatação, percebemos que esse documento abre o víeis pelo qual entrarão todas as outras proposições posteriores sobre o relacionamento entre judeus e cristãos, particularmente relativas a oração judaica.

Em síntese, diríamos que o documento é o proto-motor da reflexão sobre o judaísmo. Ele não menciona a oração judaica no pequeno parágrafo que se refere a esse credo religioso, mas dá margem para elaborações posteriores como acontecerá em as Orientações e Sugestões para aplicação da Declaração Conciliar Nostra Aetate

3- A ORAÇÃO JUDAICA NOS DOCUMENTOS PONTIFÍCIOS PÓS NOSTRA AETATE : Orientações e Sugestões para aplicação da declaração conciliar Nostra Aetate e Notas para uma correta apresentação dos judeus e do judaísmo na pregação e catequese da Igreja católica.

No movimento, pós concílio as relações entre judeus e Cristãos se estreitaram sobremaneira. O Texto da Nostra Aetate, como veiculamos, foi o viés que desencadeou esse movimento de aproximação, já iniciado antes da declaração e intensificado a partir dela com documentos e ações que irão dirimir ou, ao menos, mitigar sensivelmente preconceitos e anti-semitismos posteriores.

Nesse sentido, visando dar a conhecer o que a Igreja assume como posição em relação a oração Judaica abordemos a Orientações e Sugestões da Comissão para Relações religiosas com judaísmo, datada de 1974.

3.1 - Orientações e Sugestões para aplicação da declaração conciliar Nostra Aetate

Em 1974, sob a auspiciosa orientação do Cardeal João Widelbrands e Pedro Maria Contenson, respectivamente presidente e secretário da Comissão para relações religiosas com judaísmo, vinculada ao Secretariado para Unidade dos Cristãos, foi elaborado o texto que visava nortear a aplicação correta do que fora estabelecido pelo Concílio no documento que trata das religiões não-cristas, particularmente sobre o judaísmo. Essa comissão elaborou, dez anos após o fim do Concílio, um documento esclarecedor e norteador daquilo que foi estabelecido pela Nostra Aetate.

Trata-se de um documento breve. Dividido em quatro partes, ele aborda quatro núcleos, a saber: “a questão do Diálogo Fraterno”, “a Liturgia”, “O ensino e a Educação” e “Ação social em comum”. Nesses quatro pontos já percebe-se uma alusão maior à questão da oração Judaica.

No primeiro ponto abordado pelo Documento, a questão do Diálogo Fraterno, mesmo que indiretamente percebemos uma alusão a questão da oração comum, não da oração judaica em si,mas à promoção de encontros que favoreçam a oração comum entre Judeus e Cristãos. Nas palavras do próprio texto:

Naquelas circunstâncias em que isso seja possível e desejável de parte a parte, pode favorecer-se um encontro comum diante de Deus, na oração e na meditação silenciosa, tão eficaz para fazer brotar aquela humildade e aquela abertura de espírito e do coração necessárias para o conhecimento profundo de si próprio e dos outros. Poder-se-á fazer isso em referência a grandes causas, como as da justiça e da paz2.

Em contigüidade ao que fora dito sobre a promoção de encontros de oração entre Judeus e Cristãos, adentramos no ponto nevrálgico e mais profícuo da apresentação da oração judaica nos documentos Pontifícios. Trata-se do quesito liturgia. Neste ponto reconhece-se a os laços que existem entre a liturgia Judaica e Cristã. Por esse motivo, a bem do relacionamento entre Judeus e Cristãos é importante tomar “conhecimento dos elementos comuns da vida litúrgica(formulas, festas, ritos, etc) onde a bíblia ocupa lugar central”. Leiamos as palavras do próprio documento:

Ter-se-ão presentes os laços que existem entre a liturgia cristã e a liturgia judaica. A comunidade de vida no serviço de Deus e da humanidade por amor do mesmo Deus, tal como ela se realiza na liturgia, caracteriza tanto a liturgia judaica corno a cristã. Assim, para as relações judaico-cristãs, importa tomar conhecimento dos elementos comuns da vida litúrgica (formulas, festas, ritos, etc.) onde a Bíblia ' tem um lugar essencial 3.

O documento prossegue afirmando que é particularmente interessante para o correta apresentação do povo judeu,insistir na liturgia Cristã numa interpretação exata dos textos evitando considerações que desfavoreçam a cultura, a vida, a fé e, por que não, visto que está associado à esta última, a oração.

Em síntese, neste documento da Comissão para relações religiosas com judaísmo já percebemos algumas alusões a oração Judaica. Esta a apresenta-se em íntima ligação com a liturgia Cristã, tanto em matéria(Leituras, bênçãos) como em forma (horários, disposição dos textos etc.). Pondero, contudo, que o ideal do documento não é dizer o que a Igreja pensa sobre este ou aquele rito judaico,mas afirmar a afinidade entre judeus e cristãos, também pelo viés da celebração, da liturgia.

Apresentado esse documento e uma aproximação entre ele e a oração judaica podemos adentrar no terceiro documento do Magistério Universal sobre que em muitos aspectos aborda a oração Judaica, Isto é, as Notas para uma correta apresentação dos judeus e do judaísmo na pregação e catequese da Igreja católica.

3.2 - Notas para uma correta apresentação dos judeus e do judaísmo na pregação e catequese da Igreja católica.

Decorridos dez anos da publicação das Orientações e Sugestões para aplicação da declaração Conciliar Nostra Aetate, foi publicadoas Notas para uma correta apresentação dos judeus e do judaísmo na pregação e catequese da Igreja Católica. Note-se que nesse ínterim na América Latina, particularmente com o Documento da Conferência de Puebla4 percebe-se pontuações positivas sobre o judaísmo. Evidentemente que não na linha de uma apologia à oração judaica, mas fazendo alusão às Orientações e Sugestões para aplicação da NE o que é , conseqüentemente, sugerir a reconhecimento da estreita relação entre Liturgia Cristã e Judaica, conforme já mencionamos.

As Notas para uma correta apresentação dos judeus e do judaísmo na pregação e catequese da Igreja Católica visa, segundo o proêmio do documento, apresentar de maneira “honesta”, “objetiva” sem “preconceito” ou “ofensas”, nos “diferentes níveis de formação religiosa”, uma visão sobre os judeus e o Judaísmo. A partir deste principio é que o documento é redigido.

O Documento está divido em seis pontos, a saber: “O Ensino Religioso e O judaísmo”; “As relações entre Antigo e Novo Testamento”; “As raízes judaicas do Cristianismo”; “Os judeus e o Novo Testamento”; “A liturgia”, por fim, “o Judaísmo e o Cristianismo na História”. Sobre o penúltimo item recai, sobremaneira, nossa reflexão.
A posição desse documento com relação a oração judaica, assemelha-se ao de 1975. Ele aponta a oração(entenda-se liturgia)judaica como viés de aproximação entre judeus e Cristãos.

Inicialmente, o texto assegura que Judeus e Cristãos fazem um uso comum da bíblia para proclamação de suas liturgias bem como respondem de maneira similar à essa Palavra por “orações de louvor e intercessão pelos vivos e mortos e o apelo à misericórdia divina”5. Mais ainda, a liturgia da palavra cristã tem sua origem na tradição judaica.

Ainda nessa mesma linha, o documento afirma que a Liturgia das Horas, em sua estrutura bem elaborada e cadenciada pelas horas do dia, tem paralelos no Judaísmo(orações do Sha’rit; Minrá e Maariv). As próprias orações Eucarísticas são inspirada na tradição judaica. Para citar o texto:
A Liturgia das Horas e outros textos do formulários litúrgicos tem seus paralelos no judaísmo, inclusive as formúlas de nossas orações mais veneráveis, como o pai nosso. As orações Eucarísticas igualmente se inspiram em modelos da tradição judaica6.

Por fim, o texto reconhece a correlação entre as grande festa litúrgica comum aos judeus e cristãos, isto é , a páscoa. Salvaguardando, é claro, as diferenças de entendimento e compreensão entre ambas.

Sinteticamente, poderíamos dizer que este documento aprofunda diversos pontos do relacionamento Judaico-Cristão. Pontua, de maneira concreta, elementos do processo catequético acerca do judaísmo. Relativo à oração judaica o texto acena para pontos convergentes entre os dois processos celebrativos.

4 - À GUISA DE CONCLUSÃO

Ao longo desta pesquisa, tentamos apresentar como a Igreja se manifesta com relação à oração Judaica. Trata-se de uma posição clara e coesa que perpassa todos os documentos(sobretudo os estudados.). Embora de modo seminal, essa posição transparece desde a Nostra Aetate e resplandece fortemente nas Notas para uma correta apresentação dos judeus e do judaísmo na pregação e catequese da Igreja Católica.

A idéia é simples: Todas as vezes que se fala de oração(entenda-se liturgia)judaica é para acentuar a contigüidade, embora não contínua, entre aquilo que é celebrado no Cristianismo e aquilo que é celebrado na Liturgia Judaica. Como um “sub-ganho” acentua-se as proximidades entre ambos os credos e favorece uma profícua relação entre eles.
Grosso modo, a oração judaica no universo dos documentos magisteriais, aqui estudados, é ponto de mútuo conhecimento e aproximação entre Judeus e Cristãos.

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REFERÊNCIAS

CELAM. Conclusões da III Conferência Geral do Episicopado Latino -Americano: Evangelização no presente e no Futuro da America Latina. 4 ed.São Paulo: Paulinas. 1979.
SOBEL, Henry. Um homem, um Rabino. São Paulo: Ediouro. 2008.
SOBEL, Henry. Os porquês do Judaismo: 333 perguntas e respostas sobre o Judaismo. São Paulo: Congregação Israelita Paulista. 1983.
KLOPPENBURG, Boaventura. A III sessão do Vaticano II. REB. v.24, Fasc.4. Dez. 1964
MEYER, Judite. Oração judaica. São Paulo: Centro Cristão de Estudos Judaicos. 2009.(texto mimeografado)
VATICANO II. Nostra Aetate.2 e.d São Paulo: Paulus. 2002
WILLEBRANDS, Johannes. Notas para uma correta apresentação dos judeus e do Judaísmo na Pregação e na Catequese Católica. In.:CONGREGAÇÃO DAS RELIGIOSAS DE N. SION – CEDRA. Diálogo da Igreja Católica com o Judaísmo. s/d. São Paulo.
___________ Orientações e Sugestões para a aplicação da Declaração conciliar “ sobre as relações da Igreja com as Religiões não Cristas”. In.:CONGREGAÇÃO DAS RELIGIOSAS DE N. SION – CEDRA. Diálogo da Igreja Católica com o Judaísmo. s/d. São Paulo.

SITES
www.sidic.org/en/docOnLineUse.asp
www.vatican.va/roman_curia/pontifical_councils/chrstuni/index_po.htm
www.jcrelations.net/pt/


Notas

1 - Cf. KLOPPENBURG, Boaventura. A III sessão do Vaticano II. REB. v.24, Fasc.4. Dez. 1964 p. 879ss

2 - Cf WILLEBRANDS, Johannes. Orientações e Sugestões para a aplicação da Declaração conciliar “ sobre as relações da Igreja com as Religiões não Cristas”. In.:CONGREGAÇÃO DAS RELIGIOSAS DE N.SION – CEDRA. Diálogo da Igreja Católica com o Judaísmo. s/d. São Paulo. p16

3 - Ibid.idem.p. 17.

4 - Cf. CELAM. Conclusões da III Conferência Geral do Episicopado Latino-Americano:Evangelização no presente e no Futuro da America Latina. São Paulo: Paulinas.p. 345 -.(nº 1103; 1110;1116;1123)

5 - Cf WILLEBRANDS, Johannes. Notas para uma correta apresentação dos judeus e do Judaísmo na Pregação e na Catequese Católica. In.:CONGREGAÇÃO DAS RELIGIOSAS DE N.SION – CEDRA. Diálogo da Igreja Católica com o Judaísmo. s/d. São Paulo. p.37(nº 23)

6 - ibid.idem. p. 37. (nº 23)

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