Uma janela sobre o mundo bíblico

"Marcos como relato" - Resenha



  • Estudo
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  • 26/02/2010
Altamir Andrade

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VV.AA. Marcos como relato: introducción a la narrativa de un Evangelio, Ediciones Sígueme: Salamanca, 2002, 222 p.
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Originalmente publicado em inglês (já na segunda edição), esta leitura foi feita sobre o texto espanhol traduzido por Rosa Ana Martín Vegas. Marcos como relato é uma obra séria no cenário dos estudos sobre o segundo evangelho. De envergadura considerável e fácil leitura, o livro demonstra, no seu conjunto, o esmero e a competência de seus autores.

David Rhoads é professor de Novo Testamento na Lutheran School of Theology de Chicago. Joanna Dewey é professora, na mesma área, na Episcopal Divinity School de Cambridge (Massachusetts). Quanto a Donald Michie, é professor de língua e literatura inglesas no Carthage College de Kenosha (Wisconsin).

Como o próprio título sugere, o olhar sobre o evangelho se faz na perspectiva de sua narrativa. Uma narrativa que, como pontua os autores, revela “um mundo de conflitos e suspense, surpreendentes alterações e estranhas ironias, de comparações e significados ocultos, ações subversivas e intrigas políticas” (introdução). Estas indicações já apontam para o(a) leitor(a) a riqueza deste segundo livro do Novo Testamento.

Antes de passar, propriamente, ao conteúdo da obra, faz-se necessário observar alguns detalhes. A própria forma do texto já salta aos olhos dos(as) leitores(as) com seu caráter distinto: não há uma única citação numérica – no corpo do texto – de capítulos ou versículos. Isso se deve à razão de que os autores ressaltam (de fato) a obra como relato, como narração. Merece destaque, também, a riqueza bibliográfica que fica à disposição de quem toma este livro nas mãos. Nada menos que 128 notas de obras vultosas e periódicos importantes, seja para a teologia do texto ou para o seu caráter literário.

Já nas primeiras páginas, é possível se deparar com uma fácil leitura da obra. A organização é simples e clara em 8 partes com 1 epílogo e dois apêndices de exercícios práticos.

O Evangelho de Marcos: após a introdução, o autor é rapidamente colocado em contato com a tradução usada pelos autores bem como suas opções. Esta tradução se baseia em uma reconstrução do texto grego “original” feita pelos autores mas há, também, uma longa nota explicativa para a tradução espanhola que está sendo usada (p.23). Da p.27 até a p.58 está o texto linear de Marcos sem indicações (no seu interior) de capítulos e versículos como mencionado acima. É digno de nota que o texto termina em Mc 16,8. Sobre algumas expressões muito usadas, vale ressaltar “soberania de Deus” (em lugar do conhecido Reino de Deus) e o nome de Pedro como “Rocha”.

O narrador: nesta parte, o(a) leitor(a) é convidado a prestar atenção ao narrador do relato. Este é figura essencial da obra com “onisciência ilimitada”. Significa dizer que não é restringido pelo tempo e espaço, mas move-se com extrema liberdade e conduz o leitor por caminhos deliberadamente preparados. Ele guia a leitura, faz sugestões e “abre” os olhos de quem lê para elementos ou detalhes que, eventualmente, não tenha percebido. Estas observações dos autores são fundamentais para os que lêem os relatos bíblicos. Implica na noção de que o texto não é inerte, neutro ou inocente, mas “vivo e eficaz”. Ignorar esta realidade literária é meio caminho para uma leitura deturpada ou carregada de pressupostos.

Os cenários: na narrativa não se pode deixar de prestar atenção aos cenários. Eles se configuram como a tela onde passa o filme do narrador. Contudo, a obra chama a atenção para o fato de que estes cenários não são inertes panos de fundo, mas representam planos primeiros e destacados nas funções dos personagens, seus conflitos e seu ambiente. Eles podem ser cósmicos, políticos ou de viagens, mas em cada um deles as atuações de Jesus e de seus interlocutores são iluminadas e podem ser mais bem compreendidas.

A trama: este elemento é, literalmente, o texto, isto é, o tecido dos acontecimentos. Aqui o leitor pode observar as conexões, os “links”, o desenrolar e as digressões do que está sendo contado pelo narrador. Disso decorre a compreensão e o sentido da narrativa. Não é um ponto isolado, mas importante engrenagem no mecanismo que envolve o narrador, os cenários e os personagens. O narrador de Marcos se mostra surpreendente na trama, com perícia inegável e agudeza de inteligência.

Os personagens: aqui os autores dedicam um maior número de páginas já que tratam de Jesus, das autoridades judaicas, dos discípulos e da multidão. Os perfis são assinalados detalhadamente e cada grupo é colocado no seu lugar dentro do relato. Cada elemento que foi tratado antes, na obra, recebe aqui uma ampliação de significado uma vez que se toca os “atores” da trama. O leitor tem, então, a oportunidade de olhar mais de perto o universo de cada personagem, posicionar-se, criticar, desconfiar, simpatizar-se ou não. Também nesta parte, Marcos como relato se mostra claro e não perde o seu foco inicial de apresentar a narrativa do segundo evangelho.

O leitor: esta é a conclusão. Tudo o que os autores pontuaram aparece nesta parte como o impacto sobre o leitor de Marcos. É dizer que a narrativa tem uma função, que ela não é neutra e que incide diretamente sobre aquele(a) que lê. De todas as peças do mosaico do relato a junção de sentido passa, também, pela observação do leitor. Este é convidado a responder ao texto. Entra aí a noção de leitor ideal que os autores trabalham. O mundo do narrador é “forjado” todo em vista do leitor. Este (o leitor) é o reflexo do narrador (p.190).

No epílogo da obra, os autores fazem algumas considerações sobre suas intenções neste livro. Trabalham a leitura como diálogo e a ética nesta leitura. Os avisos são importantes para que, ao se aproximar do texto - e neste caso o de Marcos -, se tenha cuidado para não impor as próprias idéias mas, antes, atentar-se para o fato de que há um diálogo entre relato e leitor. Assim:

“Las personas de cada situación social tendrán aciertos así como limitaciones al leer un relato, porque cada una verá las cosas desde un lugar de la sociedad distinto de otros. Al leer juntos en torno a una mesa redonda en la que ni se privilegie ni si margine ninguna perspectiva, somos capaces de ver con más claridad cómo podemos distorsionar un reato o no ser capaces de entenderlo en sus propios términos y qué partes podemos estar ignorando.” (p.205-206).

Há muito mais no livro. Não quero que os(as) leitores(as) desta resenha se dêem por satisfeitos. Isso seria o fracasso destas anotações. Marcos como relato é leitura importante, dentre outras coisas, porque pode ser ampliada a outros corpora tanto do Novo quanto do Antigo Testamento.

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