Uma janela sobre o mundo bíblico

A Arte da narrativa bíblica - Resenha



  • Estudo
  • 4626
  • 01/03/2010
Altamir Andrade

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ALTER, Robert. A Arte da narrativa bíblica. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, 285 p.
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Alter leciona literatura hebraica na Universidade da Califórnia em Berkeley. Autor de vários livros sobre o romance moderno, dedica-se, também à literatura hebraica já tendo publicado diversas obras nesta direção. Dentre elas, destaca-se o Guia Literário da Bíblia (1987) organizado em parceria com Frank Kermode.

A obra é dividida em 9 partes com um prefácio e um índice remissivo. Revela-se, para o interior dos estudos bíblicos, com um grande farol que pode orientar uma leitura não diferente, mas mais atenta do texto. Alter sugere que seu objetivo é, exatamente, “iluminar as principais características da arte narrativa bíblica” (p.9). o que se verifica, ao longo da leitura é o cumprimento da promessa do autor com a sua perícia e sensibilidade na abordagem dos textos por ele selecionados. À medida em que se avança na leitura da obra, o leitor se depara com um mundo interessante que sempre esteve ao alcance dos olhos mas que talvez não tivesse tido a oportunidade de perceber com mais profundidade. É bom lembrar, também, o aviso do autor no prefácio: “na medida do possível, procurei tornar minha argumentação inteligível para os leitores em geral e ao mesmo tempo suficientemente exata para ser útil aos que já dispõem de um conhecimento mais especializado da Bíblia.” (p.10).

Uma abordagem literária da Bíblia: “Qual é o perfil da arte literária da conformação da narrativa bíblica?” Essa é a pergunta norteadora da primeira parte da obra. Aqui Alter examina a história de Judá e Tamar (Gn 38) que parece intercalar o episódio da venda de José ao Egito e sua ação no Egito. Toda a argumentação do autor visa demonstrar como a pesquisa tratou este episódio de forma separada sem prestar atenção aos “links” tão evidentes no conteúdo dos mesmo. Desta forma, toda a construção das três perícopes é mostrada, pelo autor, como intimamente ligada e textualmente afim. Disto decorre que “um exame meticuloso não pode se basear meramente numa impressão geral da narrativa mas deve ser compreendido por meio de uma minuciosa atenção crítica à maneira como o escritor bíblico articula a forma narrativa (p.28).

1. A história sagrada e as origens da prosa de ficção: aqui Alter investiga as relações entre história sagrada na Bíblia e os relatos ficcionais. Chega a pontuar, então, que se pode falar da Bíblia com prosa de ficção. Este é um tema que, não raro, provoca resistências naqueles que se aproximam da Bíblia sem perceber o seu caráter de literatura. Sendo assim, é legítimo que Alter sugira que os escritos bíblicos “buscavam revelar, mediante o processo narrativo, a realização dos propósitos divinos nos acontecimentos históricos” (p.59). parece haver, então, segundo o autor, um combate entre o que é a promessa divina e o que se passa na história. Assim, as histórias não são historiografia, mas “recriação imaginativa da história feita por um escritor talentoso” (p.62). Isso é profundamente interessante uma vez que o narrador fica livre dos grilhões corriqueiros interpretativos que ditam a ele o que, muitas vezes, nós é que queremos dizer.

2. As cenas-padrão e os usos de convenção na Bíblia: Alter investiga os elementos componentes de uma cena-padrão de matrimônio de modo mais evidente. Esta parte da obra é de uma riqueza impressionante onde o leitor se deixa levar pelas artimanhas e propostas do narrador bíblico no enredo de suas cenas. Os exemplos são tirados, basicamente, do livro do Gênesis com incursões pelo Êxodo e Rute.

3. Entre a narração e o diálogo: a noção de evento narrativo é tratada, aqui, pelo autor. Ele destaca a peculiaridade da maneira hebraica de narrar tomando exemplos dos Livros de Samuel. Chama atenção do leitor para a preferência bíblica pelo discurso direto onde o diálogo é altamente usado como forma expressa e fundamental.

4. As técnicas de repetição: como o próprio título sugere, Alter se propõe a analisar as repetições bem características da narrativa bíblica. Ele lembra que muito sugeriram ela pode advir de um “sentimento” oriental de gosto “pela repetição” (p.137). mesmo assim, para ele, podemos estar diante de da existência de um “padrão intencional” na repetição. É isso que ele aborda nesta parte da obra destacando as estruturas repetitivas com os termos desenvolvidos de: leitwort, motivo, tema, seqüência de ação e cena-padrão.

5. A caracterização de personagens e a arte da reticência: os processos psicológicos na Bíblia não são aprofundados. Não exibem análises minuciosas de causas ou razão. O autor desenvolve uma longa e fundamentada argumentação sobre o silêncio “seletivo e intencional” do narrador diante de figuras bíblicas onde o leitor esperava um pouco mais de informação.

6. Uma arte compósita: diversos seguimentos narrativos e independentes estão presentes num mesmo livro. Assim, se constitui um desafio delimitar um texto e perceber as fronteiras que se estendem ou se encurtam à medida que se lê. Para Alter, as glosas, costuras e fusões podem gerar, não raro, a sensação de confusão. Isso é o que levou a uma abordagem do Pentateuco sob a forma de documentos. Nas linhas dessa parte da obra, o autor analisa a possibilidade de uma confusão propositada pelo narrador bíblico.

7. Narração e conhecimento: começando já uma linha conclusiva para a obra, Alter pontua algumas idéias relevantes para se conhecer melhor o narrador bíblico. Dentre elas, ressalta o aspecto lúdico ao qual o mesmo se entrega preparando bem seu texto aos primeiros leitores que, por sua vez, se deleitavam com tais narrativas. Isso é de fundamental importância para se aproximar da Bíblia com um cuidado maior e perceber que o narrador não é ingênuo mas muito perspicaz ao tecer as suas linhas.

A última parte da obra é a conclusão do autor (seguida do índice remissivo) com elementos esclarecedores para o leitor que se aventura por essa nova maneira de ler o texto bíblico. O espaço de uma resenha deve, apenas, sugerir a leitura e não apresentar toda a obra. Assim, imaginamos que os leitores das presentes linhas possam se debruçar, também, sobre a obra e perceberem o modo leve e profundo com que o autor apresenta suas idéias.

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