Uma janela sobre o mundo bíblico

Jesus e a Lei



  • Estudo
  • 9209
  • 09/07/2010
Odalberto Domingos Casonatto

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O presente texto “Jesus e a Lei” nos desafiam a pensar em nosso contexto de Leis, fazendo um contraponto com o hoje e o tempo de Jesus. O texto inicia com uma leitura das atitudes de Jesus frente à legislação da Lei de seu tempo e analisa aos seguintes episódios: quem é o próximo e o não próximo; o sistema do culto e do Templo; a observância do Sábado; a lei do puro e do impuro. Isto tudo representava a fundamentação legalista do sistema judaico. No final confirma-se que Jesus rompeu com as velhas normas e propõe a observância da Lei do amor que geram vida.

Podemos nos perguntar: como se portou Jesus frente à Lei e a legislação de seu tempo? Como o cristão deve portar-se frente às leis aprovadas e estabelecidas?

Nos temos a fama de desrespeitar a ordem e a Lei estabelecida. Mas onde está o erro? Não estaria na própria lei que desrespeita o homem, tornando-se instrumento de exploração, joguete de interesses de grupos avaros de riqueza? Como exemplo disto, temos todos os Decretos-Leis, no setor econômico brasileiro. Nas Leis que fixam os coeficientes de inflação, nas que estabelecem os juros bancários etc... Nas leis e normas que orientam a aposentadoria do trabalhador brasileiro. Quantas alterações, emendas, suspensões, criações de novas leis! Sem falar dos nossos políticos que se envolvem em escândalos de corrupção e que durante meses e anos são feitos julgamentos e que no final não se chega à conclusão nenhuma.

Podemos crer que a maneira irônica que Cristo viveu com as Leis de sua época e as reinterpretou é luz no emaranhado de nossa vida. Nós que buscamos um mundo conforme o Plano de Deus.

As Leis geradoras de morte, nas estruturas do tempo de Jesus e a Nova Lei

Jesus viveu na Palestina, dentro do quadro do Império Romano e do Judaísmo. Encontrou estruturas sociais geradoras de morte, tais como o sistema da Lei no Judaísmo e também as Leis econômicas do Império Romano. Para podermos compreender em profundidade as atitudes de Jesus e seus gestos, temos que entender também a situação do homem de seu tempo. Só assim vamos ter a compreensão do posicionamento de Jesus perante a Lei, e o porquê de sua interpretação irônica (muitas vezes) da mesma.

Jesus, em sua época, conseguiu distinguir, de modo claro, as estruturas do seu tempo que sustentavam Leis de morte, daquelas Leis que geravam vida. Perpassando as páginas do Evangelho, encontramos Jesus em constante conflito com os Fariseus, pois eram os guardiões da mais terrível estrutura de morte de sua época.

Entretanto, alguns podem pensar que a dominação do Império Romano pudesse oferecer o maior peso de sofrimento ao povo judeu. Olhando dentro da globalidade da situação, a dominação romana representou apenas uma parcela e nos Evangelhos pouca referência a ela encontramos.

As atitudes de Jesus frente às Leis estabelecidas

Se conferirmos os textos que falam de Jesus perante a lei estabelecida, vamos ver que Jesus a desrespeitou muitas vezes. Esta maneira nova de pensar acerca da Lei criou para Jesus um repúdio dos Fariseus, Saduceus, Sacerdotes, que culminou com a morte na Cruz. Os Fariseus, mestres do Judaísmo, criticavam asperamente as atitudes de Jesus, pois eram um desrespeito a ordem estabelecida.

Poderíamos nos perguntar por que Jesus não atacou diretamente a estrutura geradora de morte do Império Romano, em vez do Judaísmo. De fato, o Império Romano representava a opressão do dominador estrangeiro, mas não era a espinha dorsal do sistema de morte na Palestina. O Judaísmo, fortemente firmado pela ideologia da Lei e do sistema do Puro e do Impuro (interpretada de modo diverso pelos partidos políticos), decretava, de fato, a morte do povo todo que vivia na Palestina.

Cristo percebeu isto, viu onde de fato deveria iniciar o seu trabalho libertador, e tomou as mais variadas atitudes frente a situações diversas, que deixaram os Fariseus atônitos.

A. Quem é o próximo e o não-próximo?

O que tem de verdade nesta Lei?

Sério problema causador de morte a Lei que distinguia as pessoas e as classificavam em próximo e não próximo. Os Judeus, apoiados na Lei, desprezavam os Samaritanos por serem impuros, não passavam em seu território para não se tornarem impuros, desprezavam os Galileus pois seus habitantes casavam-se com mulheres estrangeiras. Natanael diz a Felipe: “De Nazaré, pode sair algo de bom?” (Jo 1,46). Da mesma forma, no Templo, os estrangeiros podiam apenas entrar no átrio dos Gentios e antes da entrada do Templo propriamente dito, dos sacrifícios, existia uma placa condenando à morte os não-judeus que por ali passassem.

Cristo trouxe uma nova interpretação a esta Lei: não existia mais o ‘não-próximo’ e ilustrou a nova doutrina com a parábola do Bom Samaritano, dando uma resposta ao legista que lhe pergunta: “E quem é o meu próximo” (Lc 10,29): 0 próximo é, para todo o homem, aquele de que nos aproximamos, quer necessite de ajuda quer não.

B. Qual é a verdadeira Lei do Culto e do Templo

Mesmo independentemente dos Evangelhos, podemos concluir que Jesus, como Judeu, durante a sua vida, esteve muitas vezes no Templo de Jerusalém, por ocasião das Festas Judaicas. As Leis Judaicas prescrevem três Festas de peregrinação obrigatórias, enumeradas no Código da Aliança (Ex 23,14-20), segundo o calendário agrícola: na primavera, a Festa dos Ázimos (Páscoa); no verão, a Festa da colheita ou Semanas (Dt 16,9); e outra celebrada no outono, a Festa das Tendas ou Colheita dos Frutos. “Três vezes ao ano, toda a população masculina comparecerá diante do Senhor” (Dt 16,16).

Os Evangelhos Sinóticos nos falam que Jesus participou apenas de uma Festa da Páscoa em Jerusalém. Mas o Evangelho de João, mais fiel à cronologia, cita a participação de Jesus em cinco festas na cidade de Jerusalém, durante os três anos de vida pública, sendo três delas da Páscoa (Jo 2,13: 1ª Páscoa; Jo 5,1: Festa de Pentecostes ou das 7 Semanas; Jo 6,4a: 2ª Páscoa; Jo 7,2: Festa dos Tabernáculos; Jo 10,22: Festa da Dedicação; Jo 13,1: 3ª Páscoa). Tudo isto atesta que Jesus era fiel cumpridor das prescrições acerca das peregrinações a Jerusalém.

Mas Jesus toma também certas atitudes que geraram conflitos imediatos com os Sacerdotes, Saduceus e Fariseus. O Evangelho de João nos apresenta, logo no início, a questão dos vendilhões do Templo (Jo 2,13). Era a Festa da Páscoa, Jesus estava em Jerusalém, sentia o sistema de morte que representava o Templo; pois era o centro religioso, econômico e político. Todo o povo pelo menos três vezes ao ano, deveria ir lá para as purificações. 0 Templo centralizava o poder econômico: ali se encontrava o dinheiro recolhido do dízimo, ali estava o tesouro público, ali era o lugar mais seguro da Palestina. Era justamente neste Templo que a discriminação entre as pessoas se fazia sentir. Existiam as classes sociais, os que ditavam e faziam as Leis para o povo. Também no Templo se exercia o poder político: ali funcionava o Sinédrio que, aliado ao Império Romano, governava a povo judaico.

Cristo, no episódio da expulsão dos vendilhões do templo (Jo 2,13-25; Mt 21,12-13; Mc 11,11.15-17; Lc 19,45-46) quer estabelecer uma nova ordem, pretende terminar com uma estrutura que ditava leis de morte ao povo. O fato ocorre na Páscoa para dar sentido de passagem. Lembra assim a saída do Egito, da terra da escravidão, para a terra da promessa. Cristo, destruindo o Templo, estava destruindo de vez o sistema diabólico de manipulação da Lei. Ele mesmo passaria a ser o ‘Templo’ e, daí por diante, não haveria mais necessidade de um lugar material para o culto (Ap 21, 22): é no seu Corpo ressuscitado que Deus manifesta a sua Glória. A identidade do ser cristão se encontra na fé no Senhor Jesus, morto e ressuscitado, e na união da Comunidade dos que tem fé.

C. A Lei da observância do Sábado: Como entender?

A relativização da Lei farisaica chega a um ponto crucial. Jesus realiza trabalhos que não eram permitidos no Sábado. Os Judeus o condenam violentamente. Ele realiza curas no Sábado, trabalho este condenado segundo a casuística farisaica (Mt 12,10; Mc 3,2; Lc 6,7; 14,5; Jo 5,8). Sob os olhos de Jesus, os discípulos colhem espigas de trigo (Mt 12,1-8; Lc 6,1-5; Mc 2,23-28). Jesus, vendo toda esta casuística farisaica, verdadeiro instrumento de escravidão e de morte, toma atitudes inesperadas e provocatórias diante dos Fariseus.

No episódio da observância do Sábado, Cristo redimensiona a Lei. Coloca, como o mais importante, o Homem em vez da Lei: “0 Sábado foi feito para o Homem; e não o Homem escravo do Sábado” (Mc 2,27). Esta atitude de Jesus faz com que a longa lista do que era permitido ou proibido fazer no Sábado caia por terra. De agora em diante, é a Lei do Amor que governa as ações do homem.

D. Lei do Puro e Impuro: marginaliza o pobre

Junto com a questão do Sábado, vem a reinterpretação que Jesus faz com as leis farisaicas do puro e impuro. Jesus escandaliza, toca nos leprosos (Mc 1,41; Mt 8,2; Lc 5,12), toca no cadáver do filho da viúva de Naim e o ressuscita. Os seus discípulos escandalizavam os Fariseus, porque comiam e bebiam sem lavar as mãos. Tudo isto que Jesus e seus discípulos faziam, tornava impuras as pessoas. Os Sacerdotes e Fariseus, vendo estas atitudes de Jesus e dos discípulos, os repreendiam severamente. Cristo viu que estas Leis do puro e do impuro eram uma carga pesada demais para o povo. Para tudo, existia uma Lei: o que devia comer ou não, vestir, a distância que podia caminhar no Sábado, ou o que poderia fazer, etc. Existiam nada menos que 600 mandamentos.

Em conseqüência de todas estas leis, tornou-se para o pobre um peso insuportável observá-las e, com freqüência, infringia algumas, tornando-se impuros.

Para o pobre em tal situação, existia apenas um caminho: ir ao Templo de Jerusalém, nas Peregrinações, e ali oferecer um sacrifício, uma esmola, para tornar-se novamente puro. O sacerdote era o que recebia estas ofertas, centralizava o poder econômico em torno de si. Só o sacerdote tinha o poder de restituir ao impuro novamente a normalidade da vida. E o caso do leproso que Jesus cura e diz: “Vai mostrar-te ao sacerdote e oferece por tua purificação o que Moises prescreveu, para que lhe sirva de prova” (Mc 1,44).

A Lei do puro e do impuro tornou-se uma opressão insuportável. Cristo percebeu isto, e fazia observações a todo este ritualismo: “o que, de fato, suja o homem não é o que vem de fora, mas o que vem do interior do homem mesmo” (Mt 15,10-20).

A Título de complementações: Qual deve ser nossa atitude frente às leis que orientam nossas vidas?

Até agora constatamos como Jesus agiu perante as leis do seu tempo, como Jesus percebeu que as leis do seu tempo estavam sustentando um sistema de morte e opressão. Ele foi taxativo. Ele foi duro com o sistema do Templo e com o sistema do puro e do impuro, da discriminação da mulher, com o sistema do sábado.

Olhando agora para o nosso momento, estamos convidados a sermos vigilantes, a cobrar de nossos políticos o papel que desempenham de darem a nação leis e normas que possam trazer mais vida a todos indistintamente. Não tem nenhum sentido existirem leis que protejam grupos ou privilegiados de nossa sociedade. Agir desta forma é criar situações de injustiças que clamam aos céus e que cedo ou tarde serão eliminadas.

Leis que decretam a morte de milhões pela miséria e a fome não vêem de Deus. Cristo certamente as condenaria. Ao longo dos Evangelhos encontramos um Jesus que sempre esteve ao lado dos pequenos, mas para dar a eles vida: assim foi o caso da cura de tantos, leprosos, cegos, paralíticos. Jesus promoveu a mulher, (que na sua época era desclassificada) muitas delas se tornaram discípulas inclusive sua Mãe. Jesus indicou com suas atitudes novas formas de vivenciarmos as leis que são estabelecidas e que devem dar vida à humanidade.

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