Uma janela sobre o mundo bíblico

A influência dos aspectos culturais nos escritos do Novo Testamento



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  • 06/10/2010
Celso Kallarrari

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Desde o Antigo Testamento, a cultura do povo judeu ou da nação de Israel sofreu enormes influências dos povos pelos quais tiveram contato. Com a cultura egípcia, podemos destacar, por exemplo, a escrita através dos hieróglifos. Além disso, a atuação dos “hicsos”, governantes semitas que ao proteger a vida de José, o filho de Jacó/Israel, que possibilitou o crescimento do povo hebreu em terra estrangeira.

No domínio assírio, destaca-se a influência da escrita cuneiforme e sua majestosa arquitetura. No ano de 745 a. C., quando Tiglate Pileser III invadiu Israel (reino norte) e forçou o pagamento de tributos, muitas famílias vieram de outros lugares para habitar a região esta região o que não deixou de influenciar o povo de Israel, enquanto que o reino do sul (Judá) uniu-se à Assíria, permanecendo leal a ela até a sua derrota pelos babilônios no ano de 612 a. C.

Os sumérios, por sua vez, já habitavam a babilônia antes mesmo de Abrão. Aqueles, considerados artesãos babilônicos, vão influenciar a cultura hebraica com suas artes que se destacavam na confecção das jóias em ouro fino e prata até armas de bronze e cobre e estátuas.

Já o Império Persa, considerado antes como povo nômade e também grandes artesões, com os reinados de Ciro e Dario, o povo hebreu pôde retornar a seus países (Israel) e, consequentemente, permitiu-se o uso e, por isso, o fortalecimento do aramaico como língua diplomática do império.

Com a expansão do Império Persa, Alexandre, o grande preocupou-se em helenizar os povos conquistados, o que, de fato, corroborou para o desenvolvimento das práticas e crenças religiosas e estabeleceu-se, assim, a Koiné grega, considerado o idioma comum em todo império. Este idioma é, pois, o dialeto do Novo Testamento usado pelos evangelistas e apóstolos para expressar a fé cristã.

No domínio grego, dá-se ênfase a trajetória de Alexandre, o Grande. Após a sua morte, o seu reino, estendido da Macedônia, envolvendo todo o império persa, passa a ser divido por 4 de seus generais. Esse período é marcado por grandes conseqüências na área política (aliança do poder judeu com os Lágidas/Ptolomeus), na área social (acordos dos poderes), e, na área cultural, cujo destaque se dá ao rompimento com a Torá. É nessa época que se inicia a cobrança de impostos exploratória no Templo de Israel. O período de dominação dos Selêucidas é de 198 a 128 com o último rei selêucida, passando, em seguida, o domínio a ser controlado pelos Antíocos. Em 167, acontece a derrota dos Macabeus.

Em 178, Simão denuncia o acúmulo muito grande de dinheiro no Templo que passa a ser fiscalizado. Nesse mesmo ano, Antíoco entra em Jerusalém e edita um decreto que suprimia a circuncisão, o sábado, as festas e a pureza alimentar dos judeus, implantando culto aos deuses gregos, a exemplo de Dionísio e Zeus. Em 164 Judas Macabeus conquista Jerusalém e, em 161, faz aliança com Roma, morrendo em 160.

A dominação Romana

O Império Romano dominou o mundo, não somente pela força, mas pela inteligência, desde sua expansão que antecedia o cristianismo, buscando, assim, a unificação dos povos (Pax Romana) e corroborando, mais propriamente com Constantino, para a expansão do cristianismo.

No mundo romano, muitos foram os avanços nos aspectos cultural e econômico. Por exemplo, a confecção das moedas (denarius e o aureus ou libra, cunhadas em ouro, prata e cobre), cujo reconhecimento fora regional e internacional. Além disso, os avanços na construção e pavimentação das estradas e, principalmente, a construção de portos marítimos.

Esses acontecimentos foram, sem dúvida, muito importante para o desenvolvimento do comércio quanto para o domínio romano em todas as províncias conquistadas pelo Império Romano, fazendo-se, portanto, notória sua influência em todos os povos colonizados, principalmente na cultura do povo judeu.

Culturalmente, não podemos deixar de apontar para o campo literário, uma vez que os romanos foram grandes contribuidores, através da forma literária, para a redação dos textos e cartas bíblicas do Novo Testamento. Além da literatura, a arte e a arquitetura também foram, fortemente, marcadas “pelas construções das casas, dos sobrados, templos e sinagogas nas cidades e vilas”. (NOGUEIRA, 2008, p. 27).

O templo

O Templo, para os judeus, era considerado um lugar reservado para a adoração e ao sacrifício. Desde a saída do Egito até a construção do Templo por Salomão, o tabernáculo (arca da aliança) e o Templo eram lugares onde o Espírito de Deus estava presente. Para o mundo cristão, isto é, para o Novo Testamento, o Templo passou a significar, de acordo com os ensinamentos de Paulo (I Cor 6, 19-20) todos aqueles que confessavam Jesus como seu único Senhor, uma vez que o Espírito Santo habita em nós.

Em outras palavras, o Templo, no Novo Testamento, era, segundo Jesus, descrito como a própria Glória de Deus manifesta naquele local (NOGUEIRA, 2008, p. 37). E, por essa razão, Cristo mostrou grande respeito e zelo, expulsando, por esse motivo, aqueles que faziam dele um lugar para o comércio ilegal.

Por outro lado, a sinagoga era, também, para os judeus, a casa de adoração, isto é, o espaço mais importante da vida religiosa, um prédio ou local onde os judeus se reuniam para estudar e orar. Jesus também freqüentava as sinagogas com certa assiduidade (Mt 4, 23; 9, 35) durante seu ministério, ensinando nos locais onde os judeus se congregavam. Além dos evangelhos, o livro de Atos (At 6, 9; At 9, 2; At 13, 5; At 13, 14; 14, 1; At 17, 1, 10, 17; 18, 4; At 19, 8) também menciona as sinagogas, onde, repetidas vezes, os primeiros cristãos se reuniam, geralmente no domingo, por ser o dia da ressurreição, para adorar a Deus.

A família

Na palestina, o termo família era bastante significativo porque todos precisavam um do outro. Esses grupos eram constituídos de familiares interdependentes, principalmente porque os israelitas viviam nas pequenas cidades. Por conta dessas condições, as pessoas eram (diferentemente dos dias atuais) menos auto-suficientes porque tinham que “compartilhar a carga de trabalho e cooperar para que a família inteira sobrevivesse a condições adversas” (NOGUEIRA, 2008, p. 55).

Por outro lado, predominava, na sociedade Israelita, a figura patriarcal, cuja autoridade era exercida sobre todos na casa, ao ponto de se considerar como posse a esposa e os filhos, comparados a terra e ao gado. Essa mentalidade fazia com que o paterfamilia pudesse até mesmo vender suas filhas ou decidir sobre o futuro e sobre a morte dos seus filhos.

Diante dessa situação, precisamos, nos dias atuais, fazer uma releitura, principalmente do Antigo Testamento contrapondo-o à luz do Novo Testamento, uma vez que o Cristo, ao valorizar a mulher, reforçar a figura do casamento e seu vínculo indissolúvel, aponta, ao longo do seu ministério, para a infidelidade do marido como adultério contra sua esposa (Mc 10, 11). Nesse sentido, para Jesus, um marido infiel é, pois, tão adúltero quanto uma esposa infiel.

Jesus e a lei mosaica

Uma, dentre várias, das passagens que mais nos toca na leitura dos evangelhos é, certamente, a de Marcos 1, versículos 40-45, cuja narrativa apresenta-nos um leproso, num recanto da Galiléia, considerado extremamente impuro que, ao ver, à distância, Jesus, grita-lhe: “Se queres, pode limpar-me!”.

De acordo com a lei mosaica, além de, conscientemente, considerar-se indigno, impuro e, por isso, não poder tocar ninguém, devia se afastar de toda a sociedade, pois era considerado um pecador diante de Deus. E nada poderia manchar a santidade de Deus, razão pela qual os judeus se apegavam aos rituais de pureza extrema, muito mais voltados às questões de higiene que, propriamente, de consciência. Para Jesus, não são as mãos sujas, a lepra, a doença; nem aquilo que entra pela boca do homem que o torna impuro, mas, pelo contrário, aquilo que sai do seu coração (cf. Mt 15, 11).

Dessa forma, Jesus rompe as barreiras entre aquilo que se considerava Sagrado e o profano. É Deus, na Santidade de Jesus, que vai de encontro do impuro (leproso), invertendo totalmente o conceito de santidade e de pureza ao ponto de valorizar o ser humano, de curá-lo, isto é, libertá-lo, salvá-lo de suas mazelas e corruptelas da vida. Jesus responde ao leproso muitas vezes ignorado pela sociedade que não lhe dirigia sequer a palavra: “Eu quero, sê curado!”. Hermeneuticamente, nós somos e toda a Igreja também é aquele leproso que grita a Jesus porque somos também leprosos, imundos, necessitados de cura.

Os Atos dos Apóstolos

Podemos prever que os receptores do texto de Atos deveriam ser “comunidades com membros vindos do judaísmo e de outras religiões” (Comblin, 1998, p. 23) que apresentavam situações conflituosas e problemas oriundos dessas comunidades, pois se refere às cidades onde Paulo fundou muitas comunidades, da presença do Império Romano, representando a instituição repressora do cristianismo, e de muitas pessoas que abraçavam a missão evangelizadora da qual os apóstolos eram testemunhas oculares. Eram comunidades plurais, a sua maioria localizada fora da palestina, dentro do vasto Império Romano e que, por isso, sofriam, certamente, pressões das mais variadas possíveis por conta das culturas e religiões diferentes. Esta situação geográfica, política e cultural dificultava a convivência harmoniosa entre essas culturas.

Em meio a tantas diversidades e divergências cultural e religiosa, os Atos dos Apóstolos surge como proposta de apresentar que os acontecimentos cristãos anteriores são possíveis no tempo presente. Em outras palavras, é possível ser um seguidor de Jesus e cumpridor das tradições judaicas, sem levar em conta o lugar e o contexto. Sua pedagogia é buscar instruir as comunidades que a boa notícia de Jesus deve ser levada a todos os povos e nações, independentemente das contradições e das diferenças das outras religiões e culturas.

A mensagem dos Atos dos Apóstolos é de que se torna possível viver o seguimento de Cristo, apesar das contradições da vida, vivendo uma vida em comum seja entre pobres e ricos, dentro da mesma comunidade cristã. Apesar dos conflitos e tensões, era preciso manter viva a memória de Jesus, seu exemplo e sua proposta evangelizadora por um mundo melhor, mesmo que, para isso, lhe custasse à própria vida.

Este projeto messiânico do reino de Deus, presente em Atos, encontra respaldo nas contradições da sociedade moderna e pós-moderna. Suas testemunhas cristãs, amparados na leitura neo-testamentária, principalmente no livro de Atos, buscam, no contexto atual, garantir o direito à vida e à liberdade; contudo, torna-se preciso a valorização das culturas e costumes locais.

O projeto de Deus, para o mundo cristão, precisa garantir a paz e a justiça a todos os povos, mas é urgente a necessidade de lutar para a realização de uma festa autêntica de Pentecostes. Essa luta contra o sistema opressor idolátrico e tirânico do sistema capitalista não terá êxito sem uma veemente denúncia das injustiças e de todas as formas de mal da sociedade, “de todo o mal que estraga a vida, a dignidade, o amor” (Mosconi, 2000, p. 91), definidos com a linguagem universal do Espírito Santo.

Paulo: evangelizador dos gentios

Depois da sua conversão, Paulo tornou-se o evangelizador dos “gentios”, isto é, dos pagãos. O ministério de Paulo significou vitalidade e abertura da Igreja aos estrangeiros (gentios), a divulgação do evangelho a todas as nações e povos, fundando inúmeras comunidades e sendo influenciado por elas, a partir da sua bravura e disposição a serviço do Evangelho (Cechinato, 1996, p. 33). Sua preocupação, sempre fora a praticidade (inculturação) do evangelho na dinâmica pastoral, tendo certamente, inspirado em Jesus Cristo na resolução dos problemas e desafios à época.

Além desse contato direto com as comunidades, escreveu muitas cartas para as comunidades cristãs. Estas cartas contêm conteúdo doutrinal e pastoral importante e fazem parte do cânon do Novo Testamento, com temáticas atuais aos vários contextos dos dois mil anos de história do cristianismo. Esses escritos profundamente fundamentados na fé e na bíblia, permitiram chamá-lo de teólogo.

Outro dado importante que contribuiu no ministério apostólico de Paulo para a propagação do evangelho era o fato dele ter nascido na cidade de Tarso, província romana de Cilícia (At 9, 11), o que influenciou fortemente na sua formação e pensamento, uma vez que conhecia muito bem a “cosmovisão” dos gentios. Além das influências gentílicas, romana e grega, não deixou de ser “hebreu dos hebreus” (Fp 3, 5) ou “fariseu, filho de fariseus” (At 23, 6), pois foi criado sob as leis e práticas mais rigorosas dos judeus.

Todos esses fatores foram decisivos e serviram como méritos para que Paulo, de acordo com Mosconi (2001), desse à Igreja de Cristo a marca autêntica de “Igreja Missionária” (At 13, 2) que, inclusive, mexeu com a vida de vários outros missionários tidos como testemunhas oculares, a exemplo de Pedro (At 10, 34-35).

De acordo com Dunn (2003), Paulo, definitivamente, “(...) mais do que qualquer outra pessoa contribuiu para que o novo movimento originário de Jesus se tornasse religião realmente internacional e intelectualmente coerente” (p. 26). Essa visão, certamente, rompe fronteiras, fazendo com que os escritos paulinos ganhem novas reflexões aplicáveis a nossa atualidade (Dunn, 2003).

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