Uma janela sobre o mundo bíblico

Em busca de chaves de leitura para entender a Escatologia Paulina (primeira parte)



  • Estudo
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  • 10/11/2010
Odalberto Domingos Casonatto

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Durante o estudo e pesquisa sobre Escatologia Bíblica encontramos um vocabulário bíblico expressivo, temas e textos que começaram a indicar chaves importantes de leitura na descoberta de temas com acentuada indicação escatológica na literatura paulina.

Até a pouco os estudiosos da literatura paulina, não indicavam textos que falassem da escatoloógica das Cartas Paulinas. Entretanto um olhar atento, e com chaves indicativas já descobertas na pesquisa da Escatologia Bíblica, passamos a identificar textos com um acentuado teor escatológico.

Na abordagem Paulina de sua Teologia aparece a influência da cultura grega, hebraica e ainda romana. Paulo não poderia escrever e possuir um substrato mental diferente de sua época. Os gêneros literários que empregou, a forma de escrever, o modo de argumentar, (nitidamente do pensamento grego: tese, antítese e síntese), formam a sua maneira de pensar nas cartas e a apresentação da Teologia. A influência da Apocalíptica Judaica, própria deste tempo, a espera do Messias e a esperança em que Deus iria livrar o povo hebreu da opressão Romana, não estão alheios ao pensamento teológico Paulino.

Vamos abordar a partir deste artigo, aspectos da Escatologia Paulina que vão aparecendo nos textos das Cartas Paulinas. Temos como objetivo maior, encontrar os textos de pensamento escatológico paulino na Carta aos Gálatas, sem desprezar as outras cartas, que também ricamente fornecem elementos para nossa pesquisa. E intenção nossa abordar os textos e temas escatológicos em forma de chaves de leitura e para isto dividimos o texto maior em varias partes para que a abordagem não seja tão longa e de difícil assimilação. Como primeira chaves de leitura aparece a fé na pessoa de Jesus morto e ressuscitado como ponto de partida da Escatologia Paulina.

Primeira Chaves de Leitura: A fé na pessoa de Jesus morto e ressuscitado como ponto de partida.

Uma das primeiras chaves de leitura para compreensão da Escatologia Paulina encontramos na profissão de fé da Comunidade Primitiva: Jesus de Nazaré, o crucificado é ressuscitado. Este é o dado inicial, ponto de partida, de tudo. Sem a profissão de fé, não existiria o Cristão, a Comunidade a Igreja: O Cristo Jesus morto e ressuscitado é algo novo e revelador, que difere de tantos outros mortos da história.

A pregação do evangelho na Comunidade Primitiva tem uma clara e determinada orientação escatológica. Muitos elementos da linguagem utilizada pelos primeiros cristãos era aquela da Escatologia tradicional dos hebreus da época. Entretanto na Comunidade Primitiva encontramos um elemento novo, que a diferenciava das antigas profecias e apocalipses: a profissão de fé da Comunidade Primitiva na Morte e Ressurreição de Jesus.

O Reino de Deus é presente no meio dos homens com a vinda do Messias, Jesus o filho de Deus, anunciado pelos profetas e esperado pelos povos. Deus no ato da encarnação fez a sua morada no meio dos homens. Os prodígios de Jesus, nos milagres e o poder de sua palavra ofereceram provas desta presença de Deus no meio dos homens. A morte de Jesus, segundo a vontade de Deus, era o Sinal do término da velha ordem, a ressurreição definiu a nova era escatológica, caracterizada pela ação do Espírito Santo. Tudo já era do conhecimento divino e por êle dirigido, passado, presente e futuro.

O passado recente para os cristãos das primeiras Comunidades era o ministério e a pregação de Jesus a Morte a Ressurreição de Jesus Cristo, “O eschaton” que inaugura o Reino de Deus.
O presente escatológico guiado pelo Espírito Santo, na transformação do mundo, impulsionando os homens verso a revelação final.

O futuro escatológico projetado pela Ressurreição Jesus que nos lança ao “ainda não”, a Ressurreição do final dos tempos a sua segunda vinda gloriosa.

Para uma melhor compreensão da importância da fé na pessoa de Jesus morto e ressuscitado destacamos o fato acontecido na Páscoa, Morte e Ressurreição de Jesus. Neste acontecimento encontramos elementos importantes e determinantes na formulação escatológica da Comunidade Primitiva. Jesus apareceu a seus discípulos (Maria Madalena (Jo 20,14-17); discípulos de Emaus (Lc 24,13-32), Simão (Lc 24,34); Tomé (Jo 20,26); aos apóstolos (Mt 28,16-20), dando certeza de estar ressuscitado e ser o Senhor da Comunidade. Encontramos dificuldades em precisar o momento exato em que a Comunidade começa expressar esta fé com uma linguagem precisa. Da história da Comunidade, temos ainda hoje pouco conhecimento devido a pobreza dos dados.

JERUSALÉM: Sede da Comunidade Primitiva o NOVO ISRAEL

Antes de falarmos da fé da Comunidade Primitiva na Morte e Ressurreição, um dado preliminar, porém importante citamos. A Comunidade Primitiva se considerava o Novo Israel e se estabeleceu em Jerusalém. A Comunidade Primitiva, nos seus primeiros passos se organiza em torno do quadro nacional de Israel, assume a cultura Judaica, reconhece o Sacerdócio do Templo, o culto sacrifical o serviço da sinagoga e a Lei. Vários textos do Novo Testamento atestam esta situação da Comunidade Primitiva em Jerusalém: At 2,46 = Lc 24,53 = At 5,12, “mostravam-se assíduos no Templo e partiam o pão pelas casas e gozavam simpatia de todo o Povo”.

A Comunidade Primitiva fixa residência em Jerusalém. Este é um fato surpreendente, pois se os discípulos retornassem a Galiléia, o grupo seria considerado como uma seita retornaria às suas casas e ao trabalho. Deste fato, se pode afirmar que a Comunidade Primitiva e o grupo dos discípulos de Jesus querem ser o Israel, não pensam em outra possibilidade. Não querem, sofrer as conseqüências de uma perseguição e extermínio por ser uma seita oriunda da Galiléia (considerada pelos dignatários, como terra pagã). A Comunidade se considera o Israel, Jerusalém é a capital e o templo é o lugar de oração. E mais ainda que o Deus de Israel interviesse em favor do Povo.

O fato de freqüentarem ao Templo e a Sinagoga para a oração confirmam que a Comunidade Primitiva não é um partido revolucionário, mas se considerava o verdadeiro Israel, do final dos Tempos o Israel escatológico.

Depois da Morte e da Ressurreição de Jesus a Comunidade Primitiva pouco a pouco sofre alterações na sua maneira de pensar e no ato de fé em mostram claramente os acontecimentos após a morte de Jesus (Lc 24,13 Jesus de Nazaré. Israel tomou uma posição clara e definida quanto a Jesus dizendo “não”. Muitos da Comunidade também disseram não e fugiram. Os discípulos de Emaus -35): “Nos esperávamos que fosse ele quem redimiria Israel: mas com tudo isso, faz 3 dias que todas essas coisas aconteceram!”.

A Escatologia separa a Comunidade Primitiva do Judaísmo

Se pode dizer que a escatologia separa a Comumidade Primitiva do Judaísmo. O dado da fé, que pressupõe o crer em Jesus como Ressuscitado dos Mortos e como Messias esperado é de caráter decisório e cria em cada cristão uma Identidade. A profissão de fé no Senhor Morto e Ressuscitado supõe comprometimento com o Ressuscitado, supõe anunciá-lo com a vida, ser testemunho. Nos Atos dos Apóstolos vamos encontrar a pregação de Estevão, Pedro e Paulo, que nos fornecem elementos para entender este dado fundamental da Comunidade primitiva. A pregação é um dos dados mais importantes na Comunidade Primitiva. Impõe-se aqui uma pergunta: O que os primeiros cristãos pregavam? Qual o conteúdo e a mensagem? Se fizermos um paralelo entre os discursos de Pedro e Paulo nos Atos dos Apóstolos, encontramos uma mesma estrutura e conteúdo. Os mesmos temas se repetem. A estrutura dos discursos é tripartida:
1) partem da situação concreta;
2) anunciam as grandes linhas do Mistério de Cristo, com especial ênfase a Paixão, Morte e Ressurreição. Assim em At 3,13-15: “Jesus que vós entregastes..., Deus o ressuscitou dentre os mortos, e disto somos testemunho”;
3) procuram envolver o ouvinte com a intenção de converte-lo. O tema central que aparece em todos os discursos é o da Morte e Ressurreição de Jesus, seu significado escatológico e salvífico.

Ainda outros temas aparecem:
1) a presença do Espírito (também escatológico);
2) as citações e comentários do Antigo Testamento;
3) a realidade da Igreja.
Estes temas nos ajudam a entender qual a maneira de pensar da Comunidade Primitiva e em quais valores se baseava a fé.

Jesus morto e ressuscitado inaugura a fase final e escatológica da humanidade

A Comunidade primitiva coloca no evento Jesus, Morto e Ressuscitado o centro da própria fé . Este evento é escatológico, pois esta assinalando o término de um período da História da Salvação e o início da fase final. O próprio Cristo é o princípio e o fim.

A atenção da Comunidade é concentrada no evento fundamental: Jesus de Nazaré, Morto e Ressuscitado, que inaugura a fase final da História e a salvação a todos nós. Para os primeiros cristãos a pregação, tem como fundamento anunciar a Jesus nossa salvação, dando sempre importância a Morte e a Ressurreição.

Deixando de lado a Comunidade de Jerusalém percebe-se que as Cartas Paulinas fornecem também elementos da constituição da fé das primeiras Comunidades. A Igreja que vai em direção aos gentios se situa na terceira fase da caminhada da Igreja:
1) De Jerusalém para Judeia-Samaria;
2) da Samaria para Antioquia;
3) aos confins da terra isto é até Roma (o mundo não Judaico, os gentios).

Toda a vida desenvolvida por estas comunidades, o conteúdo da fé, (Cristo Morto e Ressuscitado) o anúncio missionário, foi posteriormente documentado e recolhido no Novo Testamento, pelos evangelistas.

A vivência da era escatologica nas Comunidades Paulinas

Na primeira carta aos Coríntios encontramos um texto sobre a Ressurreição de Jesus (1Cor 15,1-10). Este texto tem um caráter excepcional não só porque é um resumo da Teologia de Paulo, mas também porque é um texto escatológico, dando uma resposta aos cristãos de Corinto que embora acreditassem na Ressurreição de Jesus não acreditavam na Ressurreição dos mortos. O núcleo central da perícope se encontra nos versículos 3-8 , que narram o fato, que na Igreja de Corínto, começou a perceber inquietudes acerca da ressurreição dos mortos. São Paulo mesmo diz: “como podem alguns dentre vós dizer que não há ressurreição dos mortos? (1Cor 15,12). e ainda “Mas dirá alguém, como ressuscitam os mortos? Com que corpo voltam?” (1Cor 15,35). A resposta de Paulo é dura e enfática: “Insensatos”!. E parte da argumentação de que os próprios fiéis já tem aceito a Ressurreição de Cristo. Este pressuposto da Ressurreição é princípio básico e constitui o “Credo” da fé das Comunidade Primitivas.

Toda a pregação apostólica missionária, como já foi exposta se baseia no mistério Pascal - de Cristo Morto e Ressuscitado. Paulo assim se expressa: “Transmiti-vos, em primeiro lugar, aquilo que eu mesmo recebi: Cristo morreu por nossos pecados, segundo as escrituras. Foi sepultado, ressuscitou ao terceiro dia segundo as escrituras. Apareceu a Cefas, e depois aos doze” (1Cor 15,3-4 = Rm 1,4; G1 1,2-4; 1Ts 1,10 etc).

Encontramos outros textos das Cartas Paulinas que nos ajudam a entender esta característica básica das primeiras Comunidades a fé no Cristo Morto e Ressuscitado: 1Ts 1,9-10; 5,2; 1Cor 11,23-25; 16,22; Rm 10,9; F1 2,6-11; Ef 5,14; 1Tm 3,16.

Concluindo

Uma das primeiras chaves de leitura para entendermos a Escatologia Paulina está na profissão de fé da Comunidade Primitiva: Morte e Ressurreição de Jesus. Num primeiro momento encontramos a Comunidade que se fixa em Jerusalém, se considera o Israel Escatológico do final dos tempos. A Escatologia é que vai determinar a caminhada da Comunidade Primitiva. A decisão do “Ato de Fé em Jesus Morto e Ressuscitado”, separa os cristãos dos Judeus. Um segundo momento surge na vida da Comunidade, ela acredita nos acontecimentos Pascais, em Jesus como Messias, e que a era escatológica iniciou em Jesus, e a Comunidade abre-se para o mundo tornando-se missionária e anunciadora do Cristo Morto e Ressuscitado. Este elemento fundamental da escatologia da Comunidade Primitiva é assumido por Paulo em especial na sua pregação e anúncio. O epistolário paulino muito bem atesta. A análise de 1Cor 15,3-8, mostra como Paulo se utiliza dos elementos de fé da primeira Comunidade. para responder as dúvidas dos Coríntios acerca da Ressurreição:
Outros textos das Cartas Paulinas mostram que a base da pregação de Paulo é o anúncio da Morte e Ressurreição de Jesus (muito semelhante a Pedro) e que foi vivido e anunciado pela comunidade dos apóstolos e discípulos de Jerusalém num ambiente escatológico Judaico. Com o advento de Cristo a escatologia toma novo significado, Êle é “o Eschaton”, em Cristo a era escatológica é inaugurada e com sua Ressurreição nos projeta ao futuro ao “ainda não”, a Ressurreição do final dos tempos a sua segunda vinda gloriosa.

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