Prezado José, quando dizemos, na visão da fé, que a Palavra de Deus vale para tudo, para todos e cada tempo, não temos que pensar, talvez de modo um pouco ingênuo, que na Bíblia encontramos a receita pronta para cada situação. Mais cedo ou mais tarde nos frustraremos.

A Palavra de Deus é composta de 72 (para os católicos) livros bíblicos, escritos em um período de tempo de aproximadamente 20 séculos, dos quais os mais recentes foram escritos há 2000 mil anos. Isso significa que a linguagem, nesse tempo, desenvolveu-se, mudando de significado. Essa é a primeira consideração necessária a fazer para poder “aplicar” a Palavra

Trata-se, portanto, de descobrir, em primeiro lugar, o sentido dessa palavra para os ouvintes daquela época e então viver a própria vida e a própria história, deixando que tal Palavra lhe acompanhe e ilumine. Para fazer disso uma realidade é preciso que a comunidade considere importante a formação e o serviço dos exegetas, os estudiosos da Bíblia que a lêem exatamente a partir do seu contexto histórico, religioso, social e a traduzem em palavras e idéias compreensíveis para o povo de hoje.
É necessário, porém, que também o escutar a Palavra seja feito de modo autônomo, com a mediação pessoal e da comunidade. Os primeiros escritos do Novo Testamento nasceram assim: partilhando (e depois colocando por escrito) a experiência do encontro com Jesus. Cada cristão é chamado a discernir constantemente a realidade em que vive. Dizia Paulo em 1Tes 5,21: “Examinai cada coisa, conservando aquilo que é bom”.

É preciso sacudir e deixar de lado a mentalidade (uma humildade falsa e de verdade sem responsabilidade) segundo a qual somos sempre “inferiores” na fé. Os que crêem são chamados a ser adultos na fé, a saber explicá-la diante de todos. Graças à participação de cada um a Palavra, dividida, meditada, atualizada, pode viver em cada tempo e em todo espaço. Essa é a responsabilidade de todos os fiéis.