Uma janela sobre o mundo bíblico

Deus rejeita a oração? Oraçao é alimento?



  • Pergunta de Aline Ramos Pereira, Guaiçara
  • 10960
  • 11/02/2011
Ivete Holthmam

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A oração é baseada na convicção de que Deus existe, escuta e responde a todos os seres humanos (Sl 65,2) – que Ele é uma divindade pessoal. De certo modo, é a resultado do conceito bíblico de que o ser humano foi criado “à imagem e semelhança de Deus”(Gn 1,26-27), que implica, entre outras coisas, relação com Deus. Embora a oração tenha uma base intelectual, tem uma característica essencialmente emocional. É uma expressão da busca do ser humano e sua ânsia de “derramar” sua alma diante de Deus (Sl 42, 2-3; 62,9). Por esta razão a oração toma diferentes formas: súplica, confissão, meditação, louvor, recolhimento, agradecimento, adoração e intercessão. Embora se possa fazer uma distinção entre “louvor”, “confissão” etc., e oração no sentido mais formal de oração “litúrgica”, a fonte é a mesma; no coração humano se fundem todas as categorias, a relação do “Eu e o Tu”. Assim, oração e louvor se entremeiam (1Sam 2,1-10), súplica e ação de graças seguem o mesmo princípio (Sl 13,1-5). Muitas orações na Escritura parecem oscilar entre discurso e súplica (Ex 3-12), meditação e pedido (Jr 20,7ss), ou discussão e súplica (Job).
O estilo variado da oração bíblica originou uma riqueza de terminologia para oração. Os rabinos já tinham notado que a “oração é nominada por dez diferentes expressões” (Sif. Dt. 26), Fazendo uma análise mais apurada, se pode encontrar ainda mais. A palavra mais comum para a oração é tefilá (Is 1,15); o verbo correspondente é hitpallel (1Re 8,42). Na Escritura a raíz pll significa “intervir, julgar, esperar” Estes significados são altamente apropriados para a concepção da oração bíblica como intercessão e auto-exame que conduz à esperança. Outros termos são: qara’ (“chamar” o nome da divindade, isto é., adorar – Gn 4,26); za‘aq (“clamar” por socorro – Jz 3,9); shiwwa‘ (“gritar” por ajuda – Sl 72,12); rinnah (“clamor” de alegria ou tristeza - Sl 17,1); darash “procurar” Deus – Am 5,4); biqquesh penei “buscar a face” de Deus – Os 5:15); sha’al (“pedir” – Sl 105,40); nasa’ (“levantar” – Jr 7,16); paga‘ (“encontrar”, isto é, curvar-se, ganhar o favor – Jr 7,16); hithannen (“implorar”, isto é., procurar um favor – Dt 3,23); shafakh lev (“derramar” o coração – Sl 62,9); e si’ah (“queixar-se”’ – Sl 142,3).
Apesar da variedade de tipos, a oração bíblica é essencialmente uma reação humana. Os rabinos descrevem-na como “o serviço do coração” (Taan. 2 a); a expressão tem suas raízes no pensamento bíblico (Os 7,14; Sl 108,2; 111,1). Mas as necessidades do ser humano são tantas e complexas que, inevitavelmente acabam por refletir a enorme variedade de sentimentos humanos: medos, esperanças, desejos e aspirações. No período Patriarcal, uma simples invocação, por exemplo, chamar o nome de Deus (Gn 12,8; 21,33) era suficiente. A aproximação a Deus neste período era marcada pela espontaneidade e familiaridade – Deus estava próximo.
Para o ser humano, o futuro foi sempre coberto por um mistério, freqüentemente não sabe como agir, mas deseja saber. Por isso pedem um sinal ou oráculo que podia ser dirigido diretamente a Deus (Gn 24,12-14), ou indiretamente através do sacerdote (1Sam 14,36-37) ou profeta (2Re 19,2). Deste estrato surgiram orações magníficas de orientação e discernimento (Nm 6,24-26; 1Re 3,6ss; Sl 119,33).
Mas, na emergência o ser humano não quer simplesmente saber o futuro; ele procura tomar uma decisão com a ajuda de Deus. Assim Jacó (fazendo um voto) rezou por necessidades materiais (Gn 28,20ss); Eliezer por sucesso na sua missão (Gn 24,12-14); Abraão pela salvação de Sodoma (Gn 18,23-33); Moisés pela falha de Israel (Ex 32,31-32); Josué pela ajuda divina na hora da derrota (Jos 7,6-9); Ezequias pela libertação das mãos de Senaqueribe (2Re 19,15-19); os profetas em favor do povo (Jr 14,1ss; 15,1ss; Am 7,2ss); Daniel pela restauração de Israel (Dn 9,3-19); Esdras, pelos pecados do seu povo ( Esd 9,6-15) e Neemias pela angustia do seu povo (Ne 1,4-11). A oração de Salomão por ocasião da dedicação do Templo (1Re 8,12-53) abrange quase todos os tipos de oração – adoração, ação de graças, pedido e confissão. Também acentua um caráter universal (8,41) repetida freqüentemente pelos profetas. Assim a oração bíblica alcança todos os níveis, desde as necessidades materiais até os anseios espirituais mais elevados (Sl 51,1ss; 119,1ss), transcendendo, como a profecia, os horizontes da história e alcançando o domínio da escatologia (Is 66,22-23).
Havia uma relação entre sacrifício e oração (13,4; 26,25), que persistiu até a destruição do Segundo Templo. O sacrifício sugeria uma submissão do ser humana à vontade divina. A oração freqüentemente fornecia um comentário sobre a oferenda. Mas os dois não estão necessariamente ligados. É digno de nota observar que o regulamento sacrificial não fez preparativos para a liturgia (exceto para o Dia do Perdão, Lv 12,21); mas as oferendas eram verdadeiramente uma forma dramática de oração. Na sinagoga, a oração, acompanhada por leituras e explicações da Escritura, tomava o lugar das oferendas do altar.
Exemplos de oração de intercessão já foram citados. O intercessor quer seja profeta, sacerdote, rei ou líder nacional, não faz referência à necessidade de um intermediário no culto: “O Senhor está perto de todos os que o invocam, de todos os que o invocam na verdade” (Sl 145,18). O intercessor é alguém que, pelas suas qualidades naturais, coloca ênfase na súplica.
A oração, distinta do sacrifício, podia ser oferecida em qualquer lugar (Gn 24,26; Dn 6,11 no quarto superior; Esd 9,5ss), mas havia uma tendência natural em procurar um lugar sagrado (ex.: Silo ou Gibeon). Finalmente o Templo de Jerusalém se tornou o lugar mais importante de oração (Is 56,7), todos os que não podiam estar lá pessoalmente, ao menos dirigiam o olhar em direção a ele enquanto rezavam (Dn 6,11; cf. Sl 5,8). No futuro o Templo devia ser uma casa de oração para todas as nações (Is 56,7).
A sinagoga teve sua origem durante o exílio da Babilônia; originariamente era um lugar de reunião, e se tornou, no seu devido tempo, casa de oração e estudo. A ênfase na oração comunitária começou a crescer, mas a oração pessoal nunca foi abolida. O coração e não a hora ordenava o momento da oração. Dia e noite o Pai Celestial podia ser solicitado. (ex.: 1Sam 15,11; Sl 86,3; 88,1). No entanto, a necessidade de regularidade ocasionou a sincronização dos momentos da oração e do sacrifício: oração da manhã corresponde à oblação da manhã (Sl 5,3), a prece da tarde corresponde ao sacrifício da tarde (1Re 18,36; Esd 9,5). O cair da tarde era uma outra ocasião de louvor, assim a oração é oferecida três vezes ao dia (Sl 55,18; Dn 6,11, embora duas vezes em 1Cro 23,30). As sete vezes mencionadas no Sl 119,164 significa “muitas vezes” ou “freqüentemente”.
Na Bíblia não há gestos particulares prescritos em conexão com a oração. Mas algumas posturas se desenvolveram naturalmente para dar ênfase ao conteúdo da oração: de pé, o que é normal (1Sam 1,26; 1Re 8,22); ajoelhado (Dn 6,11; Esd 9,5); prostrado (Jos 7,6); inclinado (Gn 24,26, Nee 8,6); mãos estendidas para cima (1Re 8,22; Sl 28,2); rosto entre os joelhos (1Re 18,42); e mesmo sentado (2Sam 7,18). Os mais importantes acompanhamentos da oração eram o jejum, lamentação e choro (Is 58,2-5; Jl 2,13). Mas o critério último permaneceu o ardor do coração (Jl 2,13).
Originalmente a oração era espontânea e pessoal; mas com a necessidade de colocar ordem na religião criou-se modelos litúrgicos e versões musicais Esd 2,65; 1Cro 16). Fórmulas de oração são encontradas já no Pentateuco (Dt 21,7ss; 26,5-15). Os Salmos nos fornecem modelos de desenvolvimento litúrgico completo, incluindo coral e instrumentos característicos. A resposta “Amém” ocorre em Nm 5,22; Sl 41,14 etc.; a doxologia em Ne 9,5.42; uma revisão de como Deus age com seu povo para o conduzir a uma conversão (Ne 9,6-10).
A oração é ouvida e atendida pela divindade, esta é uma verdade bíblica aceita (ex.: Gn 19,17-23; Nm 12,9ss.); no entanto, a Escritura mostra também que a oração não é respondida (Gn 18, 17ss.; Is 29,1ss.). O ritual não é suficiente quando a oração é hipócrita (Is 1,15; Am 4,4ss.); e há momentos que a intercessão é proibida (Jr 7,16; 11,14). É neste ponto que o conceito bíblico de oração é visto na sua verdadeira interioridade.
No paganismo o culto era considerado como algo mágico, por meio do qual a divindade era obrigada a cumprir o desejo do sujeito que reza; o elemento moral era completamente ausente. Na fé bíblica a resposta divina é essencialmente ligada a valores espirituais e éticos. O ser humano como é, responde à sua própria oração (Gn 4,7), e a resposta é fundamentalmente uma mudança de espírito e de perspectiva. Abraão aprendeu a lição da fé (Gn 15,1-6); Moisés se tornou o libertador do povo (Ex 3,2 – 4,18); Isaias foi transformado em profeta (Is 6,5-8). Oração e profecia eram provavelmente correlacionadas, a primeira foi o solo preparatório na qual a semente da revelação aconteceu (Jr 1,6ss.; Hab 1,13 – 2,3). Em muitos casos a oração assume um caráter impetuoso (Jr 12; Sl 22), mas a tempestade sempre termina numa fé renovada e na paz. Às vezes, no entanto, Deus responde antes de ser chamado (Is 65,24; cf. Dn 9,20ss.), não só o ser humano suplica por Deus, mas também Deus procura o ser humano (Is 50,2; 65,12). Entre o Eu e o Tu há uma relação recíproca.

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