Uma janela sobre o mundo bíblico

Shekhina



  • Estudo
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  • 30/03/2011
Ivete Holthmam

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A Escritura testemunha a presença constante de Deus no meio do seu povo: Ele vem em auxilio de Israel nos momentos de dificuldade “…Conheço seu sofrimento, desci para livrá-lo…” (Ex 3,7-8). É alguém que caminha no meio do seu povo, “pois o Senhor teu Deus anda pelo teu acampamento” (Dt 23,15). Aparece como um pai que tem compaixão dos seus filhos, obra de suas mãos, “Ó Senhor, tu és nosso pai…” (Sl 103,13; Is 64,7).

Na literatura rabínica uma das expressões utilizadas para marcar esta presença se designa com o nome de “Shekhina.” O termo Shekhina se refere a algo que pertence verdadeiramente ao domínio divino. É a presença de Deus no mundo, da sua imanência. É um termo extremamente comum na literatura talmúdica e é presente na literatura oral rabínica já no primeiro século da nossa era, mas não aparece na Bíblia e nem em escritos não rabínicos, excepto no Targum. Mesmo nos escritos do Mar Morto não foi encontrado, naquilo que foi publicado até o presente momento. Nas fontes rabínicas, este termo se refere exclusivamente “à morada” ou “presença” de Deus em um determinado lugar, mas não a um lugar específico. A noção mais antiga é a que se encontra na expressão miskan , usada muito frequentemente na Escritura quando se refere à morada de Deus, à Tenda ou o Templo.

Qual é a etimologia dessa palavra? Ela vem do verbo “Shakan” que significa habitar, morar, estabelecer-se,  residir, permanecer. Na forma aramaica, Shekhinta, é frequentemente encontrada nos Targumim, particularmente no Targum Onkelos. Normalmente é empregado para parafrasear certas referências a Deus, evitando assim implicações antropomórficas de várias expressões bíblicas. Por exemplo, o versículo “… pois o Senhor não está no meio de vós” (Nm 14,42), o Targum Onkelos traduz: “A Shekhina de Deus não está no meio de vós”. Se subtitui a palavra “Senhor” por Shekhina. Outro exemplo: “Não poderás ver a minha face, porque o homem não pode ver-me e continuar vivendo” (Ex 33,20), é traduzido “Você não pode ver a face da minha Shekhina”. Nesta frase e expressão  “minha face” é substituída por “face da minha Shekhina”.

Este termo aparece também na literatura talmúdica e Midráshica, no entanto não com os mesmos traços que no Targum. De modo geral seu conceito é bastante amplo e em textos de diferentes épocas aparece com diferentes nuâncias. É sempre usado em contextos relacionados com a proximidade de Deus. Em princípio seu uso se refere à manifestação divina, especialmente para indicar a presença de Deus num determinado lugar. Não significa que Deus é limitado, que se encontra apenas em um lugar, pois é dito que a “Shekhina está em todo lugar”.

Esta mesma idéia é demonstrada em outros textos da literatura dos sábios, é o que podemos ver nos textos seguintes.

R. Oshaia pensava que Shekhina está em todo lugar. E disse R. Oshaia: De onde sabemos? Está escrito:Só tu és Senhor, tu fizeste o céu (Os 9,6). Os teus mensageiros não são como os meus mensageiros, humanos. Meus mensageiros humanos, do lugar que são enviados eles retornam à aqueles  que os enviaram. Teus mensageiros para o lugar que são enviados eles prestam contas no lugar mesmo para onde foram enviados. Pois está escrito: Enviarás relâmpagos que saiam e te digam: Eis-nos aqui (Job 38,35). Não é dito: que venham e que digam senão, que vão e te digam. Isto nos ensina que a Shekhina é em todo lugar. Mesmo R. Ishmael pensava que a Shekhina está em todo lugar. Eis o que era ensinado na Escola de R. Ishmael: De onde sabemos que a Shekhina está em todo lugar? Está escrito: Eis que saiu o anjo que falava comigo, e outro anjo lhe saiu ao encontro (Zc 2,7). Não está escrito atrás dele senão, ao seu encontro. Isto nos ensina que a Shekhina está em todo lugar. Mesmo R. Sheshet pensava que a Shekhina está em todo lugar.

No midrash que apresentamos em seguida transparece a idéia da unicidade da Shekhina, é única mas abrange todo o universo. Como o sol que é apenas  um entre muitos planetas e ilumina todo o mundo, assim também a Shekhina.

Disse o imperador a Raban Gamaliel: Você mantém que em cada dez a Shekhina repousa. Então, quantas Shekhinas existem? Raban Gamaliel chamou o servo e batendo no seu pescoço disse: ‘O sol entra na casa do imperador’? E ele respondeu: ‘o sol brilha para todo mundo’. Se o sol que é apenas um entre milhares de miríades dos servos do Santo, Bendito Seja, brilha para todo mundo, quanto mais a Shekhina do Santo, Bendito Seja![1]

Quando perguntaram a Raban Gamaliel porque o Santo, Bendito Seja se revelou na sarça, a resposta foi: “Não há lugar na terra  vazio da Shekhina”.[2]  Ou Seja,  não há um lugar na terra onde a Shekhina  não se revele.

A idéia expressa nestes textos é um exemplo da ênfasis no universalismo.[3] Por outro lado, mesmo que a Shekhina se encontra em todo lugar, seu lugar previligiado é o Povo de Israel, e mais concretamente o Templo, Lugar que “Ele escolheu para fazer seu nome habitar” (Dt 14,23).[4]

Por causa  do amor que eu tenho por vocês, coloco o Templo do alto que foi preparado antes da criação do mundo, então descerei e habitarei no meio de vós, como é escrito: E habitarei no meio dos filhos de Israel (Ex 29,45) e está escrito: Me farão um santuário, para que eu possa habitar no meio deles (Ex 25,8).[5]

No senso literal, a morada de Deus ou Shekhina significa sua presença visível ou escondida em um determinado lugar, mais especificamente, significa sua proximidade. Esta presença pode se manifestar em um flash de luz, conhecido como o “esplendor (ziv) da Shekhina”[6]. É também representada por outras imagens como, “asas da Shekhina”[7] onde o homem devoto ou o prosélito encontra um refúgio; ou “face da Shekhina”[8] vista pelo justo;  ou “pés da Shekhina”[9] que são afastados por causa do orgulho e do pecado. Mas a Shekhina pode existir sem nenhuma dessas manifestações particulares desse tipo, simplesmente como presença de Deus e consciência da Sua presença, da Sua proximidade. Como diz o Talmud:

E de onde sabemos que mesmo um só que se senta e se ocupa da Torá a Shekhina está com ele? Pois está escrito: ‘Em todo o lugar que eu fizer lembrar o meu nome eu virei a ti e te abençoarei’ (Ex 20,21)[10].

A Shekhina, assim como é retratada no Talmud, no Midrash, e nos targumim, não é vista como uma pessoa distinta de Deus. De nenhuma maneira é evidente nestas fontes que a presença de Deus no mundo era identificada com Suas qualidades. É diferente da Sua sabedoria, Sua bondade, ou Sua severidade, as quais são personificadas na agadá, a ponto de aparecerem diante de Deus e discutirem com Ele, como se elas fossem personificações de seus aspectos morais que se tornaram independentes do seu próprio ser transcendente. Pelo contrário, a Shekhina é sempre o próprio Deus, na medida que é presente num lugar específico ou num evento específico.[11] Vejamos o seguinte exemplo.

R. Tabyumi disse: ‘Quando Jacó nosso pai ainda estava na sua cama, iluminado pelo Espírito Santo ele disse: Deus estará com vocês (Gn 48,21), significando que no futuro ele faria repousar sua Shekhina entre eles.[12]

O Midrash mostra que nós estamos lidando com uma expressão – qualificação ou imagem – do próprio Deus. Não se trata de uma de suas qualidades, senão do Seu próprio ser divino.

Assim percebemos que em muitas passagens a palavra Shekhina é substituída por “o Santo, Bendito Seja”, sem nenhuma mudança no significado. “Duas pessoas que se sentam juntas e se ocupam das palavras da Torá, a Shekhina está no meio deles” .[13]“Os que fazem o mal removem a Shekhina do mundo”.[14] De fato, há muitas expressões sobre a Shekhina que se encontram em passagens paralelas nas quais se usa o nome “o Santo, Bendito Seja”. Os dois termos podem aparecer na mesma passagem sem que haja uma diferença no significado. Para ilustrar isto se pode tomar um midrash tanaítico, um comentário que se originou no período conflitivo entre o judaismo rabínico e o gnosticismo do segundo século:

Se encontra que todas as vezes que os Israelitas são escravizados, a Shekhina está, por assim dizer, escravizada com eles, como está escrito:  ‘E viram o Deus de Israel, sob cujos pés(Ex 24,10)[15]. E quando foram libertados, o que se diz? “E pareceia com o céu a sua claridade”(24,10)E também se diz: “Em toda a angústia deles, foi ele angustiado”(Is 63,9). Eu não tenho senão a aflição da comunidade, de onde se deduz que também a aflição do indivíduo? A Escritura diz: “Ele me invocará, e eu lhe responderei; na sua angústia eu estarei com ele”(Sl 91,15). E também se diz: “E o senhor de José o tomou e o lançou no cárcere”(Gn 39,20) e o que se diz: “E o Senhor esteve com ele”(v.21). E assim se diz:“Diante do povo que Tu restataste para ti do Egito, a nação[16] e seu Deus?”  (2Sam 7,23) R. Aqiva disse: Se este versículo não estivesse escrito na Escritura, seria proibido dizê-lo. Israel diz para o Santo Bendito Seja, por assim dizer: Tu te redimiste a ti mesmo. Pois encontramos que, em todo lugar que Israel foi exilado, é como se a Shekhina fosse exilada com eles.[17]

A imagem da auto-redenção de Deus do seu próprio exílio foi vista como a libertação de todo o povo. R. Aqiva, como se pode ver, não faz nenhuma distinção entre Deus e a Shekhina. Se Israel está no exílio, é como se o próprio Deus estivesse também exilado. O midrash mostra que há uma empatia entre Israel e a Shekhina.

No seguinte midrash se nota a mesma idéia, a Shekhina e o Santo, Bendito Seja, forma uma mesma realidade.

Um idólatra perguntou a Raban Gamaliel: Por que o Santo, Bendito Seja, se revelou a Moisés  no meio da Sarça? Se Ele se revelasse numa rahuveira ou sobre uma figueira você teria feito a mesma pergunta.  Mas te deixar ir sem uma resposta não é certo. Isto serve para te ensinar que não há lugar vazio da Shekhina, mesmo da Sarça Ele podia falar com Moisés.[18]

Este midrash é colocado em relação à revelação de Deus a Moisés na sarça,[19]  e simplesmente significa que Ele pode manifestar-se em qualquer lugar – mesmo na mais modesta das coisas, como um arbusto espinhoso. Aqui, também a Shekhina não é senão a presença de Deus, sem nenhuma outra qualificação.

Mas, é bastante compreensível que esta onipresença de Deus possa ser interpretada de maneira não literal como uma de suas qualidades, isto é,  Sua misericórida ou Sua justiça. Em muitos Midrashim, Deus mesmo fala de “Minha Shekhina”,

Se voce fizer em baixo uma réplica do que está no alto, eu deixarei a assembléia celeste e farei minha Shekhina repousar no meio de vós em baixo[20].

O midrash não tem a intenção de apresentar a Shekhina como uma qualidade de Deus, esta frase “minha Shekhina” pode significar simplesmente “minha presença”.  É o próprio Deus que deixa o seu lugar no céu e vem habitar no santuário. E podemos observar que, em nenhuma passagem da literatura midrashica e Talmúdica se fala de “Deus e sua Shekhina”, como duas entidades diferentes. O exemplo seguinte ilustra a relação que existe  entre “Deus e sua Shekhina”:

“Estes são os estatutos, e os juízos…”(Dt 12,1). E está escrito: “Também estes são dos sábios, não é bom ser parcial no julgamento” (Pro 24,23). Quando o juíz senta e julga na verdade, o Santo, Bendito Seja, deixa o céu dos céus e coloca sua Shekhina ao lado dele, como é dito: “O Senhor suscitava juízes e o Senhor estava com eles” (Jz 2,18). Quando ele vê que o juiz é parcial, retira sua Shekhina e sobe para o céu e os anjos lhe dizem: ‘Senhor do Universo, qual é o problema’? E ele diz: ‘Eu vi o juíz, ele é parcial no julgamento e então eu me levantei de lá, como é dito: “Por causa da opressão dos pobres e do gemido dos necessitados, eu me levantarei agora, diz o Senhor” (Sl 12,6).”[21]

É claro neste midrash que, a Shekhina e o Santo, Bendito Seja é uma só realidade. É o Senhor do Universo que está ao lado do juiz quando ele julga com justiça e se retira quando há um julgamento injusto.

Vemos que, mesmo sendo uma palavra do gênero feminimo, a Shekhina é comparada a um rei. Se trata de uma alegoria. Se faz a comparação da Shekhina com uma pessoa, no entanto não se trata de alguém distinto.mUm exemplo claro deste modo de pensar e se expressar se encontra em Lamentações Rabá:

R. Aha disse: Como um rei que saiu do seu palácio com raiva. Quando estava saindo, retornou e abraçou e beijou os muros e as colunas do palácio chorou e disse: ‘Eu te saúdo meu palácio, eu te saúdo minha residência real, de agora em diante haja paz.’ Assim aconteceu quando a Shekhina saiu do Templo, ela voltou, abraçou e beijou os muros …. E  pilares do Templo, chorou e disse: ‘Eu te saúdo meu palácio, eu te saúdo ó minha residência real, eu te saúdo minha casa querida, eu te saúdo Templo santo, paz.”[22]

Não há uma personificação de uma figura feminina, somente uma clara personificação da presença divina. Isto é mostrado claramente em muitas alegorias, nas quais a Shekhina é comparada, não a uma princesa ou rainha, mas a um rei.[23] Este modo de proceder se vê todas as vezes que se faz uma alegoria sobre Deus.[24]

Quando um ser humano sofre tormento, o que a Shekhina diz: “Minha cabeça esta pesada, meu braço está pesado”.[25] Infelizmente para esta teoria, em muitos manuscritos mais antigos e numerosas citações falta a palavra “Shekhina”. E o que consequentemente se tornou um epigrama conhecido como a expressão da Shekhina, originariamente pode ter sido simplesmente uma expressão do sentimento humano do sofrimento, que neste caso Deus adota como seu próprio sentimento.[26]

 Deus deseja habitar com o povo.

É viável dizer que a experiência de Israel é algo que ultrapassa os limites humanos. Ele percebe um Deus próximo, que deseja fazer sua morada entre os seres humanos. Já na literatura bíblica se nota alguns traços dessa teologia. Na profundidade das palavras do midrash se percebe que o autor entra no próprio pensamento de Deus, conhece seus desejos e suas aspirações. Como veremos mais adiante, é o próprio Senhor que pede para fazer um santuário (cf. Ex 25,8). Ele não quer apenas habitar com Israel mas também ser o Deus dele. “E habitarei no meio dos filhos de Israel e serei o seu Deus” (Ex 29,45).[27]

Muitas fontes midrashicas mostram que, o Todo Poderoso, que enche o mundo superior e inferior, reduziu sua demora sobre a terra à a fim de poder residir perto dos seus filhos. Assim o Senhor, realizou o ato de diminuir-se a si mesmo (oumnm) a fim de estar com o seu povo.

A Tenda vai se estabelecer em diversos lugares até o seu lugar definitivo com a construção do Templo de Jerusalém.

As referência à Mishná, Tosefta, Sifrá, Sifrei e Talmuds nos revelam como os sábios entenderam a relação entre Tabernáculo e Templo na Torá. Estas fontes rabínicas afirmam a continuidade entre Tabernáculo e Templo e mostram o movimento do culto que inicia no deserto e segue até Jerusalém.[28]

O seguinte midrash mostra que, este desejo de Deus de habitar com suas criaturas já estava presente no primeiro dia da criação:

O primeiro dia” (Nm 7,12). R. Samuel Bar Aba: O que significa o “primeiro dia”? Do primeiro dia que o Santo, Bendito Seja, criou o mundo ele desejou habitar com suas criaturas em baixo. Veja a expressão que está escrita na criação do primeiro dia: “Houve tarde e houve manhã, dia um” (Gn 1,5). Não diz primeiro dia, senão, dia um. Desde que está escrito ‘dia um’ porque não, ‘dia dois, dia três’. Por que diz ‘dia um’? Porque enquanto o Santo, Bendito Seja, estava sozinho (yehidi) no Seu mundo, Ele desejou habitar com suas criaturas em baixo, mas não fez assim, senão quando foi edificado o tabernáculo, então o Santo, Bendito Seja, colocou nele sua Shekhina. Os príncipes vieram para trazer suas oferendas, o Santo, Bendito Seja, disse: Será escrito que neste dia foi criado o mundo.[29]

O midrash faz relação entre o dia em que Deus criou o mundo e o dia em que foi edificado o tabernáculo. Dia “um” faz referência à unidade de Deus, Ele estava sozinho (yehidi) no seu mundo, e desejou habitar com suas criaturas em baixo. Só pôde realizar seu desejo quando foi edificado o tabernáculo. O Templo já era é visto como uma criação de Deus, algo que foi criado antes que o mundo existisse.

Sete coisas foram criadas antes da criação do mundo: a Torá e a Teshuvá; o paraíso e a  Geena; o Trono da Glória e o Templo; o nome do Messias.[30]

A razão para esta pré-criação é provavelmente para incluir todos os “grandes milagres de Deus” no mesmo ato criador. Entre estas coisas, o Templo estava na mente de Deus antes da criação do mundo.

Nas fontes rabínicas a Shekhina é interpretada com uma presença constante na vida do povo de Israel. Mesmo quando Israel desceu ao Egito ele não estava sozinho. Há uma presença permanente que o acompanha. Vejamos como o midrash apresenta o caminho que fez a Shekhina até chegar ao Templo:

“Este é o meu Deus eu o farei belo” (Ex 15,2). “O meu amado é meu e eu sou dele, do pastor das açucenas” (Cant 2,16) “Eu sou do meu amado e meu amado é meu” (Cant 6,3). Os sábios disseram: eu o acompanharei até que venha com ele ao seu Templo. Parábola de um rei cujo filho foi para um país distante, e o rei saiu atrás dele e permaneceu ao seu lado. Foi para um outro país, ele foi junto e ficou ao seu lado. Assim também Israel quando desceu para o Egito, a Shekhina estava com eles, como é dito: “Eu descerei contigo ao Egito” (Gn 46,4). E quando subiram, subiu também a Shekhina com eles, como é dito: “E te farei subir” (Gn 46,4)”. Eles desceram ao mar, a Shekhina desceu com eles, como é dito “E o anjo do Senhor ia adiante…” (Ex 14,19). E quando sairam ao deserto, a Shekhina esteve com eles, pois é dito: “E o Senhor ia adiante deles durante o dia, até que o trouxeram com eles ao seu Templo, e assim se diz: “Apenas passei diante deles e logo encontrei o amado da minha alma… (Cant 3,4).[31]

É assim que aparece na Escritura: Sl 79,7; 2Sam 15,25; Job 5,3; Jr 10,25 (nawe). Significa então: “Eu quero lhe oferecer um santuário”. A manifestação fascinante da força divina que destrói o inimigo de Israel, suscitou o desejo ardente de reter a Shekhina no meio deles, oferecendo-lhe um Templo.[32]

Em seguida se apresenta uma parábola, onde mostra a Shekhina que acompanha Israel em todas as dificuldades até chegar ao Templo. Ao descrever a Shekhina como alguém que acompanhou os israelitas durante o sofrimento no Egito, ou nos diferentes exílios, os sábios querem expressar a proximidade de Deus e não Sua imanência.

Deus quis fazer sua morada entre os filhos de Israel, num determinado lugar. Após haver libertado Israel do Egito, Ele caminha com eles, está presente ajudando-os em todas as dificuldades e não os abandona. Esta presença é representada pela coluna de nuvem[33] que está presente em todos os momentos do caminhar no deserto. Sua glória desce sobre o monte Sinai, como é dito: “E a glória do SENHOR pousou sobre o monte Sinai, e a nuvem o cobriu por seis dias…” (Ex 24,16).Se mostra um Deus de misericórdia, mesmo quando Israel não foi fiel, Ele deu-lhes uma chance perdoando a sua infidelidade.

E serão para mim um reino de sacerdotes” (Ex 19,6). Mas, depois de quarenta dias pecaram. No mesmo momento os pagãos disseram: Não vai mais se reconciliar com eles, como é dito: “Diziam-se entre as nações: não voltaram mais para habitar aqui” (Lm 4,15).  Mas quando Moisés foi pedir misericórdia para eles, imediatamente o Santo, Bendito Seja, lhes perdoou, como é dito: “De acordo com tua palavra eu perdoei” (Nm 14,20). Moisés disse: Mestre do Universo, eis que eu estou satisfeito porque perdoaste Israel, portanto, vai e anuncia a todas as nações que não há mais resentimento no seu coração. Disse-lhe o Santo, Bendito Seja: Enquanto viveres eis que eu faço habitar minha Shekhina entre eles, como está escrito: “E me farão um santuário para que eu possa habitar no meio deles” (Ex 25,8). E saberão que eu os perdoei, como é dito: “O tabernáculo do testemunho” (Ex 38,21), porque é um testemunho que o Santo, Bendito Seja, os perdoou.”[34]

É o próprio Deus que pede a Israel que lhe construa um lugar para habitar, assim está escrito: “Faze-me um santuário, para que eu possa habitar no meio deles”[35](Ex 25,8). É a Shekhina que vem habitar no tabernáculo. “E tudo fez Moisés segundo o Senhor lhe havia ordenado; assim o fez. No primeiro mês do segundo ano, no primeiro dia do mês, foi constuído o tabernáculo”(Ex 40,16-17).

A respeito do fato que Deus fez Sua Shekhina habitar no Tabernáculo, há uma diferença de opinião entre R. Shimon b. Yohai e Rav. De acordo com R, este evento era um ‘fenômeno novo’. R. Shimeon b. Yohai, por outro lado, declara: ‘Era uma coisa que existia e foi cortada e retornou novamente.’

 Vejamos como o midrash trata da questão:

“E aconteceu no dia…” (Nm 7,1). Disse R. Yoshua (tanaim): O Santo, Bendito Seja, fez um acordo com Israel, que não os tiraria do Egito até que construissem um tabernáculo, afim de que sua presença habitasse entre eles, como está escrito: “E saberão que eu sou o SENHOR, seu Deus, que os tirou da terra do Egito, para habitar no meio deles; eu sou o SENHOR, seu Deus”. (Ex 29,46). Nestas condições, “para habitar no meio deles”. E quando foi edificado o tabernáculo a Shekhina desceu no meio deles. “E aconteceu” como Deus tinha prometido. Rab disse: Uma coisa que nunca aconteceu desde que o mundo foi criado até que aconteceu naquele dia. Do momento em que o mundo foi criado até aquele momento a Shekhina não tinha habitado no mundo de baixo, somente quando foi edificado o tabernáculo, por isso que se diz: E aconteceu “Wayihi” Uma inovação. R. Shimeon ben Yohai disse: Era uma coisa que existia e foi cortada e retornou novamente. Observamos que do começo do mundo a Shekhina tinha habitado embaixo, como é dito: “E ouviram a voz do Senhor Deus que caminhava no jardim…” (Gn 3,8). Quando se afastou a Shekhina? No momento em que o homem pecou, e não desceu novamente até que foi construído o tabernáculo. Esta é a razão da expressão “wayihi” , significando que era uma coisa que tinha existido, cessou por muitos anos e retornou ao estado original.[36]

A opinião de Shimeon b. Yohai concorda com um outro midrash que diz que a Shekhina habitou na terra[37], mas quando Adão pecou Ela partiu para o céu retornando somente quando Moisés construiu o Tabernáculo, pois o justo faz com que a Shekhina habite sobre a terra.[38] E o midrash pergunta:

“Quando a Shekhina repousou no mundo? No dia em que foi erigido o Tabernáculo, como é dito: “A nuvem cobriu a tenda da congregação, e a glória do SENHOR encheu o tabernáculo” (Ex 40,34).[39]

A tenda será o lugar de encontro durante o tempo em que Israel está no deserto. É  na Tenda que o Senhor está presente comunicando-se  com Moisés dando-lhe todas as orientações necessárias para o bom andamento da comunidade.[40] Alí se ofereciam os holocaustros, sacrifícios de comunhão[41] e incenso. Todo as as vezes que Moisés entrava na Tenda de reunião descia a coluna de Nuvem e o Senhor falava com Moisés.[42]

“E aconteceu que veio Moisés para a tenda” (Ex 33,9). Quando Israel viu a nuvem ele soube que a Shekhina se revelou a Moisés. “E se levantou o povo todo o povo e cada um se prostrou na entrada da sua tenda” (Ex 33,10).[43]

A núvem que acompanhou o povo durante a permanência no deserto é relacionada com a Shekhina. Rashi diz sobre este versículo: ‘Eles se prostraram diante da Shekhina’.

No entanto, a promessa de Deus não é só de habitar na tenda, há algo mais: “E habitarei no meio dos filhos de Israel e serei o seu Deus”(Ex 29,45).

O autor bíblico mostra o desejo de Deus, não só estar com eles senão ser o Deus deles. Esta relação se exprimirá através da eleição e aliança, “Pois tu és um povo consagrado ao Senhor teu Deus; foi a ti que o Senhor teu Deus escolheu para que pertenças a ele como seu povo próprio, dentre todos os povos que existem sobre a face da terra” (Dt 7,6).

Ao entrarem na Terra de Israel, a tenda de reunião se estabeleceu em Guilgal, de lá eles mudaram para Silo[44]. E ficou ali por 369 anos, e quando Eli morreu, foi destruído. Então, eles construiram o santuário em Nob, que durou até a morte de Samuel. Logo foi para Gibeon. Foi somente após o reinado de  reinado de Davi que o mandamento de construir um templo definitivo para o para o Senhor se realizou. Sucedeu que, habitando o rei Davi em sua própria casa, tendo-lhe o SENHOR dado descanso de todos os seus inimigos em redor,disse o rei ao profeta Natã: Olha, eu moro em casa de cedros, e a arca de Deus se acha numa tenda” (2Sam 7,1-2).

O Templo deve ser construído num lugar escolhido por Deus, isto é um profeta deve identificar o lugar escolhido “buscareis o lugar que o SENHOR, vosso Deus, escolher de todas as vossas tribos, para ali pôr o seu nome e sua habitação; e para lá ireis.”(Dt 12,5).[45] Foi necessário procurar, só então o profeta diria o lugar certo. Como sabemos que Davi agiu de acordo com a palavra do profeta? Porque está escrito: “Naquele mesmo dia, veio Gad ter com Davi e lhe disse: Sobe, levanta ao SENHOR um altar na eira de Araúna, o jebuseu” (2Sam 24,18); e mais adiante (2Cro 3,1), “Começou Salomão a edificar a Casa do Senhor em Jerusalém, no monte Moriá, onde o Senhor aparecera a Davi, seu pai, lugar que Davi tinha designado na eira de Ornã, o jebuseu”.[46] É uma tradição bem difundida, que o lugar onde Davi e Salomão construiram o altar do Templo de Jerusalém foi o mesmo lugar onde Abraão erigiu o altar para sacrificar Isaac[47].

A partir de então o Templo de Jerusalém, situado no monte Sion, é a morada do Senhor para sempre.[48] E nesta casa que o Senhor escolheu para fazer habitar o seu Nome[49], “e o Senhor a encheu de sua glória” (1Re 8,11).[50]


Jerusalém-Sion

Já vimos como Deus quiz fazer sua morada entre seus filhos, mas não em qualquer lugar, a Escritura mostra que Ele tem uma preferência: é Sion seu lugar preferido. É de lá que todas as bênçãos se derramam sobre Israel.

O nome Sion ocorre na Escritura quase esclusivamente em textos cultuais e nos Salmos se refere a Jerusalém.  No Salmo 131,13-14 se expressa a eleição:

“Pois o SENHOR escolheu a Sião, preferiu-a por sua morada: Este é para sempre o lugar do meu repouso; aqui habitarei, pois o preferi”.

“Eu sou o SENHOR, vosso Deus, que habito em Sião, meu santo monte” (Jl 4,17). Targum Jonatan traduz: “Eu sou o Senhor, vosso Deus, que causei minha Shekhina  habitar em Sion”.

A eleição, normalmente se expressa com o verbo rjc, e é proposta do próprio Deus que prefere este lugar. “Este é para sempre o lugar do meu repouso” (Sl 131,4)é interpretada com relação ao Templo – “para sempre” porque também existirá no mundo futuro – e continua “aqui habitarei, pois o preferi”.

A santidade de Jerusalém se reflete na Halakha, pois certos sacrifícios oferecidos no Templo deviam ser consumidos em qualquer parte da cidade, mas não fora dela. Este fato está relacionado com a revelação da Shekhina. Se toda a cidade era apropriada para a revelação da Shekhina, a manifestação de Deus não estava limitada apenas a um lugar.

Os Targums fazem uso frequente do termo Shekhina para indicar “casa da tua santa Shekhina: Ex 15,17 “Tu o introduzirás e o plantarás no monte da tua herança, no lugar que aparelhaste, ó SENHOR, para a tua habitação, no santuário, ó Senhor, que as tuas mãos estabeleceram.” Este versículo tem como contexto a libertação do povo do Egito, é enterpretado pelo Targum deste modo:         

Tg. Neof: “Alí conduzirás com a tua potência até a habitação na qual reside a tua santa Shekhina”.

Tg.PsJ: “Tu fizeste entrar em possessão da montanha do teu santuário, habitação onde reside a tua santa Shekhina”.

No livro das Crônicas o discurso de Salomão por ocasião da inauguração do Templo é ampliado, se apresentando da seguinte maneira

“Edifiquei uma casa para tua morada, lugar para a tua eterna habitação” (2Cro 6,2).

O Targum traduz:

“Construí um santuário diante de ti, um lugar preparado como residência da tua Shekhina, e corresponde ao trono da tua habitação que está nos céus para sempre”[51].

O Templo é a residência da Shekhina, mas contemporaneamente é o lugar que corresponde ao trono de Deus nos céus.[52]

Encontramos já nos Salmos uma prova da crença que a morada terrena do Senhor no Monte Sion não era contrária a idéia de que Ele era o Deus das alturas, cuja verdadeira habitação estava no céu. A sua morada terrena era correlativa à sua morada celeste.

O Templo apresentado no Sl 11,4 é o Monte Sion, não o Templo do céu, mas tanto num como no outro, o Salmo pressupõe que os dois compartilham uma identidade misteriosa. É muito frequente encontrar no mesmo Salmo que o Senhor habita no céu, e Sua presença está no Monte Sion. Uma  tensão entre o terreno e o celeste. Assim observamos também no Sl 14:

            “Do céu olha o Senhor os filhos dos homens”(Sl 14,2)

E continua alguns versículos mais abaixo:

            “Quem trará a Salvação de Sion para Israel?”(v.7)

O midrash seguinte continua com a mesma reflexão, como diz Jr 17,12: “O trono da glória… é o lugar do nosso santuário”.

R. Natan disse: Era bela a obra da arca como no alto era o trono da glória, porque se diz: “Lugar da tua morada, preparaste, ó Senhor o santuário” (Ex 15,17). Porque o santuário do alto(vkgnka asena) era colocado em frente (sdbf iuufn) ao santuário de baixo (vyn ka asenv) e a arca estava em frente ao Trono da Glória. De fato se diz: “Trono de glória enaltecido desde o princípio é o lugar do nosso santuário.” (Jr 17,12).[55]

De fato, é interessante notar que as fontes rabínicas[56] interpretam o Monte do templo como a ligação entre o céu e a terra.

Teve medo e disse: Quanto é terrível este lugar! Esta é próprio a casa de Deus.  (Gn 28,17). Daqui se pode deduzir que todo aquele que reza em Jerusalém é como se rezasse diante do trono da glória, porque ali está a porta do céu, e a porta é aberta para receber a oração. De fato se diz: Esta é a porta do céu”. (Gn 28,17)[57]


É impossível afirmar que estas duas idéias, que a habitação do Senhor é no céu e sua Presença em Sion, seja meramente a consequência da fusão de  duas tradições do período pós exílico. Ambas idéias aparecem muito frequentemente através dos Salmos e dos midrashim, e sem dúvida podemos encontrar a mesma idéia nos Salmos de origem pré-exílica.[58]

O simbolismo especial do Monte Sion dava um caráter universal a este centro de culto. Prestar culto na casa do Senhor era participar da abundância de benção para Israel e para a terra na qual Israel estava habitando como hóspede do Senhor.

Todo Israelita sabia que a Casa do Senhor era como uma “fonte de vida”.  Através do Seu Templo o Senhor abençoava Sua terra e Seu povo tanto com riqueza  material como espiritual:

“Como é preciosa, ó Deus, a tua benignidade! Por isso, os filhos dos homens se acolhem à sombra das tuas asas. Fartam-se da abundância da tua casa, e na torrente das tuas delícias lhes dás de beber. Pois em ti está o manancial da vida; na tua luz, vemos a luz”(Sl 36,7-9).

Presença da Shekhina no Templo

Embora muitos sábios afirmam que a Shekhina habitou, repousou (Shartá) no Tabernáculo e no Primeiro Templo, com relação ao segundo Templo, temos opiniões diferentes. Alguns dizem que a Shekhina não habitou no segundo Templo e outros dizem que sim. Também podemos encontrar outras opiniões afirmando que a Shekhina jamais deixou Jerusalém. O que confirma a hipótese de que a Shekhina estava presente no segundo Templo.

Optamos pela segunda hipótese por duas razões: Em primeiro lugar pensamos que há muito material sobre este assunto e portanto, parece evidente que a tradição previlegiou tal idéia. Em segundo lugar porque o Templo era o lugar onde habitava a divindade.

A seguir apresentamos alguns textos comprovando a hipótese de que a Shekhina era uma realidade para a comunidade de Israel no período do segundo Templo. Ou seja, a idéia de que o Templo era a Casa onde habitava a divindade.

R. Aha disse: A Shekhina nunca deixou o muro do Templo, pois é dito: “Veja, Ele está atrás do nosso muro”.[59]

Notemos também o comentário de Rashi a respeito do Cantico dos Canticos:

Desci ao jardim das castanheiras. Isto também está incluido nas palavras da Shekhina: “Eis que Eu vim para o Segundo Templo, para ti”.[60]

A presença da Shekhina no Templo é real  e não se confunde com a presença de Deus em outros lugares e de outras maneiras.  O Templo é um lugar escolhido onde Deus quiz fazer Sua morada, “Buscá-lo-eis  no lugar que o Senhor vosso Deus houver escolhido, dentre todas as vossas tribos, para aí colocar o seu nome e aí fazê-lo habitar” (Dt 12,5). E esta escolha está relacionada à idéia de eleição.[61]  Segundo a Escritura Ele não só elege o povo de Israel, mas também escolhe o lugar onde quer habitar. O Templo será a “casa escolhida” onde sua Shekhina habitará perpetuamente. Para alguns sábios, mesmo depois da destruição do Templo, a Presença de Deus continua lá.

Outra interpretação:

“Não durmo, e sou como um passarinho” (Sl 102,8). Disse o Santo, Bendito Seja: Velei para fazer minha Shekhina habitar no Templo para sempre, e sou como um passarinho: o que acontece a este passarinho no momento em que você tira seu filhote? Ele fica solitário. Assim disse o Santo, Bendito Seja: Queimei a minha casa, destruí minha cidade, exilei meus filhos no meio das nações e habitei sozinho.[62]

No entanto, a existência da Shekhina no Templo não contradiz sua presença em todo o mundo, como já vimos acima. Vejamos este midrash sobre os olhos e o coração, ‘uma vez que eles estão lá (no Templo), estão em todo lugar’. Não se utiliza especificamente a palavra Shekhina, mas se compreende que se trata da presença do Senhor.

 ‘…Tu dizes: “e Meus olhos e Meu coração estarão lá perpetualmente” (1Re 9,3) . Então eles estão somente lá? Veja! Já foi dito “os olhos do Senhor que correm para cá e para lá em toda a terra” (Zac 4,10) e diz “Os olhos do Senhor estão em todo lugar, vigiando os maus e os bons”. Então, qual é o significado de “Meus olhos e Meu coração estarão lá perpetualmente”? Eles não estão, por assim dizer, somente lá, mas uma vez que eles estão lá, estão em todo lugar’[63]

A presença da Divindade se estabelece no mundo através da sua existência num determinado lugar[64]. E este lugar é Jerusalém, mais especificamente o Templo. Um lugar escolhido pelo próprio Deus para “fazer seu nome ser lembrado”.

“Antes que o Templo eterno tivesse sido escolhido, toda Jerusalém era digna da Shekhina. Quando o Templo eterno foi escolhido, o resto de Jesusalém foi eliminado, como é dito: “O Senhor escolheu Sion” (Sl 132,13), e ainda diz: “Este é o meu descanso para sempre” (Sl 132,14).”[65]

A presença permanente, concentrada num lugar, é essencial para o reconhecimento da universalidade da Existência Divina.[66]

O seguinte midrash ilustra o fato de Jerusalém ser a cidade onde habita Deus, como está escrito no Livro de Esdras. Um rei estrangeiro que reconhece a santidade do Templo.

Vejamos:


R. Eleazar disse: A Shekhina não se moveu do Templo, como é dito: “Lá estarão meus olhos e meu coração perpetuamente…” (2Cro 7,16). E assim ele diz: “Clamo ao Senhor com minha voz e do seu monte santo Ele me responde” (Sl 3,5); embora ele esteja em ruínas, continua sua santidade. E veja o que Ciro diz: “Ele é o Deus que habita em Jerusalém” (Esd 1,3), embora ele esteja em ruína, Deus não se moveu de lá. Disse R. Aha: ‘A Shekhina nunca se moverá do Muro Ocidental, pois é dito: “Eis que está detrás do nosso muro” (Cant 2,9). E “seus olhos estão atentos, as suas pálpebras sondam os filhos dos homens” (Sl 11,4)”[67].

O midrash trata da destruição do primeiro Templo, no entanto o autor quer afirmar a permanencia da Shekhina mesmo após sua destruição. Para R. Aha uma prova vem do Cântico dos canticos, “Eis que está atrás do nosso muro”. Quem está atrás do muro? A Shekhina.

Vejamos também o comentário de Rashi:

Meus olhos e meu coração estarão lá. Targum Jonatan traduz: Minha Shekhina habitará lá. Meus olhos estarão lá se meu coração e minha vontade estarão lá.[68]

a) Oração e Presença no Templo

 Na Biblia, a oração não está presa a um lugar específico, qualquer lugar é considerado próprio para se dirigir ao Senhor; entretanto uma certa importância é atribuída ao Templo. O fiel é ouvido “do seu monte santo” (Sl 3,5), e de dentro das entranhas do peixe a oração de Jonas chega “ao seu Templo santo” (Jon 2,8).[69]

Existe  uma estreita associação entre o culto sacrificial e a revelação da Shekhina. A oferta é levada diante da presença do Senhor. Embora não haja uma experiência sensorial da presença de Deus, aquele que oferece um sacrifício é consciente da proximidade da divindade. Do mesmo modo na oração, se faz a experiência externa de “estar diante de”, no entanto, pode haver uma consciência interna de “estar diante da Shekhina”.

“Disse Rab Hana filho de Bizna, disse Rabi Shimeon Hasid: Aquele que reza precisa se ver a si mesmo como se a Shekhina estivesse em sua frente, como está escrito: ‘O Senhor, tenho-o sempre à minha frente’”.[70]

O Midrash faz a aproximação entre a oração e a Shekhina. Rezar é se colocar diante da presença do Senhor. Embora o Pentateuco não mencione nenhuma oração que acompanhasse o sacrifício, foram adicionados na liturgia no período do segundo Templo pedidos, bençãos e leituras da Torá. Depois que o incenso era oferecido, os sacerdotes recitavam a benção sacerdotal.[71]

Se nota que os sacerdotes oficiavam descalços no Templo. Havia a consciência por parte dos sacerdotes de estar num recinto sagrado onde Deus habitava. Diante de tal experiência é necessário tirar as sandálias como Moisés fez diante da Sarça.

 Em todo lugar que a Shekhina se revela é proibido estar calçado, assim foi com Josué: Tire as sandálias (Jos 5,15). Assim também os sacerdotes não usavam sandálias no Templo, mas estavam descalços.[72]


Tirar as sandálias ao entrar em um recinto sagrado já era uma prática aceita nos tempos bíblicos. Quando Moisés ouviu o chamado divino na sarça, Deus lhe disse: “Tira as sandálias dos pés, porque o lugar em que estás é terra santa” (Ex 3,5). Tal prática foi adotada no Templo, segundo o midrash, lugar da revelação da Shekhina.

E para todos os dias festivos habia uma cerimônia específica.[73] O sacrificio sugeria uma submissão do ser humano à vontade divina. A oração frequentemente fornecia um comentário sobre a oferenda. Mas os dois não eram necessariamente ligados, no entanto, as oferendas eram verdadeiramente uma forma dramática de oração.   O ritual de oferecer o sacrifício (korban)[74] evocava o sentimento de proximidade da divindade. E a oração também é uma forma de entrar em contato com o criador, como expressa o salmista: “O Senhor está perto de todos os que o invocam, de todos os que o invocam na verdade” (Sl 145,18).


R. Samuel b. R. Hiyya e R. Judá em nome de R. Hanina disse: Todas as vezes que Israel louva o Santo, Bendito Seja, faz repousar sua Shekhina sobre eles. Qual é a prova? Tu és Santo, habitando os louvores de Israel(Sl 22,4).[75]

A liturgia é o momento de encontro entre Israel e seu criador. Através da oração, do culto e das festas anuais, Israel se aproxima, faz a experiência do encontro, como é escrito: “Em todo lugar onde eu fizer celebrar a memória do meu nome, virei a ti e te abençoarei” (Ex 20,24b). 

A liturgia diária como se desenvolveu durante o período do segundo Templo é descrita na Mishná por uma testemunha[76]. De madrugada, depois que os sacerdotes tinham feito a oferta do sacrifício, eles desciam para sala de Gazit[77] e dirigiam o culto, tal sala era o lugar onde atuava o Sinedrio, isto é, a corte legislativa e judiciária. Os sacerdotes achavam que o lugar era ideal para a oração comum diária. Este culto diário consistia em uma afirmação de fé composta dos Decálogo[78] e os três parágrafos bíblicos do Shemá[79]. O primeiro parágrafo é composto das palavras bem conhecidas: “Ouve, Ó Israel! O Senhor é nosso Deus o Senhor é um. Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda tua alma e com todo teu entendimento…” (Dt 6,4-9). O parágrafo seguinte ‘se refere à observância da Torá Se diligentemente obedecerdes a meus mandamentos que hoje vos ordeno, de amar o SENHOR, vosso Deus, e de o servir de todo o vosso coração e de toda a vossa alma, darei as chuvas da vossa terra a seu tempo, as primeiras e as últimas…” (Dt 11,13-21). O terceiro parágrafo contém um mandamento convidando Israel a ser o povo santo através da prática dos mandamentos “Disse o SENHOR a Moisés: Fala aos filhos de Israel: tu lhes dirás, para as suas gerações, que façam borlas nas pontas das suas vestes… vendo-as vos lembrareis de todos os mandamentos do Senhor  para praticá-los… e sereis santos para o vosso Deus…” (Nm 15,37-41).


Aquele que recita o Shemá é digno que a Shekhina repouse sobre ele.[80]


A recitação do Shemá significa a completa aceitação da soberania de Deus. Portanto, aquele que recita é digno de receber a Shekhina.

Antes de recitar os três parágrafos os sacerdotes recitavam a benção conhecida como Ahavá Rabá – “Com grande amor Tu nos amaste, Senhor nosso Deus…” Essencialmente é uma benção de agradecimento pelo dom da Torá. Após o Shemá, junto com o povo os sacerdotes recitavam três benções adicionais[81]. A primeira benção é chamada ‘verdadeiro e estável’ [82], que ainda hoje é recitada após o Shemá. Esta bênção afirma a fé do orante nos princípios do Shemá. As duas outras bençãos provavelmente correspondem às duas orações que se preservaram na Tefilá (Shemoné Esré): Avodá[83] ea ‘Benção Sacerdotal’: benção da paz, que é dita somente quando está presente um sacerdote.


“O Senhor te abençoe e te guarde, o Senhor faça resplandecer o rosto sobre ti e tenha misericórdia de ti, o Senhor sobre ti levante o rosto e te dê a paz.”(Nm 6,26-26).


A Benção Sacerdotal é uma das  orações mais significativas da liturgia. Data do período de grande importância na história do povo de Israel – os dias em que os israelitas se preparavam para entrar na Terra Prometida, depois de quarenta anos de marcha pelo deserto. Deus ordenou a Moisés que transmitiu aos sacerdotes para abençoarem Israel.

A Bênção Sacerdotal fazia parte de um dos mais importantes momentos no ritual do culto divino no Templo. Pela manhã e pela tarde durante o Tamid (sacrifício), os sacerdotes subiam sobre um degrau chamado (maalot haolam) e pronunciavam a benção com suas mãos levantadas.[84]

No original hebraico, a benção é formada por três frases que contém três, cinco e sete palavras respectivamente. A segunda benção, “o Senhor faça resplandecer o rosto sobre ti e tenha misericórdia de ti” , se refere a atributos espirituais. Sifrei interpreta da seguinte maneira:


“O Senhor faça resplandecer o rosto sobre ti” . Que ele te dê da luz dos seus olhos. R. Natan disse: Da luz da Shekhina, como foi dito: “Levanta, resplandece, porque vem a tua luz…”(Is 60,1)[85]


Segundo a interpretação de R. Natan, aquele que recebe a bênção, recebe a luz da Shekhina. Os sacerdotes retornavam ao altar e terminavam o ritual do sacrifício. O ato final da oração da manhã era a Bênção Sacerdotal sobre o povo que estava reunido no átrio. Com relação à bênção, R. Isaac diz:


 “R. Isaac: O temor da comunidade esteja sempre sobre ti. Porque os sacerdotes tem sempre diante deles o povo e atrás deles está a Shekhina”[86].


O midrash realça a importância do serviço. Como fez Abraão quando Deus se manifestou a ele no carvalho de Mambré: “Apareceu o SENHOR a Abraão nos carvalhais de Manre,… Levantou ele os olhos, olhou, e eis três homens de pé em frente dele. Vendo-os, correu da porta da tenda ao seu encontro” (Gn 18,1-2). O midrash interpreta da seguinte maneira: primeiro Deus aparece a Abraão, em seguida ele levanta os olhos e vê os três homens. Abraão dá as costas a Deus e vai servir os visitantes.[87]

Logo depois da bênção dada pelos sacerdotes, os levitas então recitavam o Salmo do dia.[88]

Após descrever o desevolvimento da oração, a Mishná termina dizendo: ‘Esta era a ordem litúrgica do sacrifício diário na liturgia da casa de nosso Deus’[89]. Desse modo a Mishná considera o Templo como a “casa de Deus”.

Aos sábados a liturgia era basicamente a mesma, exceto que se acrescentava uma benção para os sacerdotes que estavam deixado seu turno de trabalho semanal.[90] O que estava saindo dizia para o que estava entrando:


Aquele  que fez seu nome habitar nesta casa, faça habitar entre vocês o amor, a fraternidade, a paz e a amizade[91]


A liturgia mais elaborada acontecia no Dia do Perdão.[92] Era solene e impressionante. O ponto alto da celebração era a confissão que o Sumo Sacerdote fazia dos seus pecados pessoais, dos pecados da sua familia e tribo, e os pecados de toda da casa de Israel. Ao ouvirem o Tetragrama, o povo se ajoelhava e se prostrava por terra, dizendo em alta voz: “Bendito seja o nome da glória do seu reino para sempre”.[93] A confissão do Sumo Sacerdote era seguida de orações a Deus de pedido de perdão: “Ó Deus, te ofendi, transgredi, pequei diante de Ti, minha familia e os filhos de Arão, teu povo santo. Ó Deus, perdoa as culpas, as transgressões, os pecados com os que te ofendi, transgredi e pequei diante de Ti, eu, minha familia e os filhos de Arão teu povo santo, como está escrito no livro da Lei de Moisés[94], Porque neste dia se fará o rito de expiação por vós, para vos purificar. Ficareis puros de todos os vossos pecados, diante do Senhor” (Lv 16,30).[95]

É uma oração pessoal de alguém que derrama diante da sua face todos seus pecados e os pecados do povo. Nesta palavras da Torá ditas pelo sumo sacerdote transparece a consciência da proximidade de Deus, “diante do Senhor sereis purificados”. É em face da Shekhina que o Sumo Sacerdote pede perdão. Como os sábios disseram:”É obrigatório que cada pessoa se purifique para a Festa.”[96] Como diz ainda a Mishná, apresentar-se diante do Senhor durante as festas é um mandamento que  não tem uma “medida fixa” [97] Cada judeu é chamado a estar lá livremente para servir ao Senhor. Assim disse R. Shimeon b. Yohai:


Todo aquele que é zeloso nos mandamentos, é digno e recebe a presença da Shekhina. Está escrito aqui: “para que, vendo-as, vos lembreis de todos os mandamentos do SENHOR e os cumprais” (Nm 15,39), e está escrito lá: “O SENHOR, teu Deus, temerás, a ele servirás…” (Dt 6,13).[98]


O Templo era o único lugar que tal celebração era feita, pois lá estava a presença do Senhor, a sua Shekhina. Durante a celebração o Sumo Sacerdote lia três trechos da Biblia onde está escrito o mandamento de observar o Dia do Perdão,[99] e ele recitava oito benções[100] usando o nome haMeforash.


 “Essim abençoareis os filhos de Israel (Nm 6,23)” – com o nome haMeforash. Você diz com o nome haMeforash, ou não será que é com o nome substituto? E está escrito: “Colocareis o meu nome…” (Nm 6,27) – Meu nome que é unico para mim. O tetragrama era usado fora do Templo? É dito aqui “Colocareis o meu nome”, e em seguida: “Para colocar o seu nome lá” (Dt 12,5). Se neste texto fala do Templo, também na passagem anterior se refere ao Templo. R. Ioshia diz: ‘Esta dedução não é necessária. É dito: “Em todo lugar que eu fizer celebrar a memória do meu nome” (Ex 20,24). Em todo lugar? Então este texto deve ser trocado: Em todo lugar que eu vier a ti e te abençoar lá eu farei celebrar a memória do meu nome. E onde eu virei a ti para te abençoar? No Templo. Lá, no Templo, eu farei lembrar o meu nome.[101]


A Mishna relata que: “no Templo se pronunciava o nome de Deus segundo está escrito, enquanto que nas províncias se usava um substituto”.[102]Rashi faz seu comentário mostrando que quando o nome de Deus meforash só é pronunciado no Templo porque é lá que se manifesta a Shekhina.

Vejamos seu comentário:


Em todo lugar que eu fizer lembrar o meu nome. Que eu te der permissão de lembrar o meu meforash lá. Lá eu virei a ti e te abençoarei, colocarei minha Shekhina sobre ti,  daqui voce aprende que não darei permissão para lembrar o meu nome senão no lugar que vem a Shekhina, e este lugar é o Templo, lá eu permitirei os sacerdotes fazer lembrar o meu nome explícito quando eles levantarem as mãos para abençoar o povo. (Da Mechilta, Sifrei, Num. 6:23, Sotah 38a.)[103]


O culto no Templo era centrado na crença que durante as cerimônias o próprio Senhor estava presente, e os benefícios que tal culto proporcionava não eram simplesmente de natureza espiritual ou mística. As bençãos recebidas pelos israelitas eram tanto de tipo prático como espiritual. Especialmente para aquele que desejava fertilidade nas suas terras e rebanhos, ou estar libre das pestes e da guerra e tudo o que ameaçava a segurança da sua terra. Era com este objetivo que o culto do Templo era realizado. O Salmo relembra todos os benefícios de Deus:


 Nós nos saciamos com os bens da tua casa,

com as coisas sagradas do teu Templo.

“Os que habitam nos confins da terra

temem os teus sinais;

os que vêm do Oriente e do Ocidente,

tu os fazes exultar de júbilo.

Tu visitas a terra e a regas;

tu a enriqueces copiosamente;

os ribeiros de Deus são abundantes de água;

preparas o cereal, porque para isso a dispões,

regando-lhe os sulcos, aplanando-lhe as leivas.

Tu a amoleces com chuviscos e lhe abençoas a produção.

Coroas o ano da tua bondade;

as tuas pegadas destilam fartura,

destilam sobre as pastagens do deserto,

e de júbilo se revestem os outeiros.

Os campos cobrem-se de rebanhos,

e os vales vestem-se de espigas;

exultam de alegria e cantam”(Sl 65,5.8-13).

“Plantados na Casa do SENHOR,

florescerão nos átrios do nosso Deus.

Na velhice darão ainda frutos,

serão cheios de seiva e de verdor”(Sl 92,13-14)


A presença do Senhor na Sua montanha santa devia assegurar que a bondade e prosperidade continuassem em Israel.


b) Shekhina e Torá 

O estudo da Torá pode ser uma forma de experiência de Deus. Ocupar-se com as palavras da Torá é ter diante de si a Shekhina, é fazer a experiência do transcendente. O estudo da Torá é um dos pilares do mundo.


“Se dois sentam juntos e entre eles estão as palavras da Torá, a Shekhina habita entre eles, como está escrito: “Os que temiam ao Senhor falavam uns aos outros; o Senhor prestou atenção e ouviu” (Ml 3,16).[104]


O estudo da Torá, vista pelos sábios, é uma forma de culto, e ao mesmo tempo um paralelo em relação à oração. Asim encontramos no comentário de Dt 11,13 “serví-lo” é interpretado como oração – “como o serviço do altar é chamado (avodá) assim também oração é chamada ”[105] Outra interpretação desta mesma passagem comenta a frase como “estudo da Torá” – Como o serviço do altar é chamado (avodá) assim também o estudo é chamado (avodá).[106] Quando os mestres igualam estudo com oração e chamam a ambos (avodá), culto, se pode notar que este é o resultado de uma experiência profunda. A oração exige que a pessoa direcione seu coração e sua mente para Deus. Da mesma forma o estudo da Torá exige que a pessoa fixe seu coração e sua mente em Deus, ou seja que ele tenha intenção.[107]

Torá num sentido mais amplo significa  o ensino de preceitos e halokhot, e ‘ambos vinham da Sanedrin que estava situado na sala de pedras, de onde sai a Torá para todo Israel, como está escrito: “do lugar que escolherá o Senhor” (Dt 17,10)’[108]

Outra interpretação: ‘Dê ao sábio’. Se refere a Bezalel; você encontra que no momento em que o Santo, Bendito Seja, disse a Moisés para fazer o tabernáculo, Ele veio a Bezalel e disse: ‘O que é este tabernáculo?’ Respondeu-lhe: ‘O Santo, Bendito Seja, fará repousar sua Shekhina no seu interior para ensinar a Torá a Israel.’[109]

Se nota que há, se podemos dizer assim, uma identificação entre Torá e Shekhina. Estudar, ocupar-se, refletir a Palavra de Deus é o mesmo que trazer Sua Presença no mundo.

R.Simon disse em nome de R. Joshua b. Levi: Em todo lugar que o Santo, Bendito Seja, fez habitar sua Torá, lá fez habitar sua Shekhina. Quem Explicou? Davi, como está escrito: Louvem o nome do Senhor porque só seu nome é excelso, sua majestade é acima da terra e do céu (Sl 148,13).[110]

 O Midrash seguinte apresenta a mesmo perspectiva. Todo aquele que se ocupa da Torá é digno de receber a Shekhina:

R. Levi b. Hiyya disse: Aquele que sai da sinagoga entra na casa de estudo e se ocupa da Torá, é digno de receber a presença da Shekhina, como é dito: “Eles vão de força em força e cada um deles aparece diante do Deus em Sion”(Sl 84,8).[111]

O estudo da Lei não é primeiramente uma atividade intelectual, é uma aproximação de Deus e uma partilha da Sua atividade. Consiste a se colocar sob as asas da Shekhina e fazer a experiência de Deus que nos ama.

c)     Oração dirigida ao Templo

Como vimos acima, idéia de que a Shekhina está presente no Templo se encontra em muitas fontes.  Também encontramos a mesma idéia na Escritura: “Ora, quando os sacerdotes saíram do santuário, a Nuvem encheu o Templo do Senhor e os sacerdotes não puderam continuar o seu serviço … a glória do Senhor enchia o Templo do Senhor” (1Re 8,10); e ainda,“Ele disse, o Senhor rugirá de Sion, e de Jerusalém fará ouvir a sua voz” (Am 1,2).

Mesmo depois da destruição do Templo alguns sábios continuaram a afirmar que a Shekhina repousa no lugar do Templo. Basta um exemplo:

R. Eliezer ben Padat disse: Que o Templo tenha sido destruido ou não, a Shekhina não se moveu do seu lugar. Como está escrito, “O Senhor no seu Templo santo”. De onde sabemos? Está escrito: “Meus olhos e meu coração estão lá perpetuamente.[112]


Sobre esta base ideológica temos que compreender os seguintes textosque modelama oração em vista da Shekhina no Templo. A coisa se faz em primeiro lugar no quadro da intenção, na halakha há uma obrigatoriedade daquele que reza de dirigir seu coração ‘em direção ao Santo dos Santos’:

 “Se está montado no burro, desça; se não pode descer, volte a face; se não pode voltar a face, dirija seu coração para o Santo dos Santos”.[113]

A mishná inclui três halakot formuladas através de eliminação, mas isto somente em situação de ser obrigado, coagido. Em princípio, aquele que reza deve cumprir todas as etapas: é obrigado a descer do burro, girar a face e colocar a intenção do coração em direção ao Santo dos Santo. Somente se for obrigado se limita a girar a face, e se nem mesmo isso é possível, então dirige a intenção do coração em direção ao Santo dos Santos. Dirigir a intenção do coração para o Santo dos Santos não se trata somente de pensar, senão que se trata de uma mudança física. (O girar a face não é um substituto da descida do burro), senão que a oração deve ser feita em direção ao Santo dos Santos. Tal atitude é obrigatória daquele que reza.

“Nos foi ensinado pelos nossos mestres, aquele que reza precisa ter a intenção no coração, assim ensinaram nossos mestres, o homem deve dirigir seu coração para o Santo dos Santos”.[114]

Convém esclarecer rapidamente o significado da expressão: “dirigir o coração para o Santo dos Santos”. A expressão em discussão tem um significado experiencial, é estar presente na porta dos Santo dos Santos onde se encontra a Shekhina ou a experiência que a oração passa pela porta do Santo dos Santos e alcança a Shekhina. Aquele que dirigir o coração em direção ao Santo dos Santos se identifica ao que reza em frente a porta do Santo dos Santos, seu objetivo é dizer a Amidá (18 bençãos) diante da Shekhina que está no Templo.

A consciência da face da Shekhina que habita no Templo, molda também a orientação concreta daquele que reza. Tanto fisicamente como espiritualmente o fiel se sente como se estivesse no Templo.

O mais evidente para a compreensão é que o Templo é o lugar onde está presente a Shekhina e para ele o fiel se dirige para rezar.[115]

d)    Benção e consciência da Presença

A fórmula da benção expressa não somente a consciência do amor de Deus em um momento particular, senão também  a consciência da Sua presença, “Bendito sejas Tu, Senhor…” são as palavras da fórmula, ao dirigir-se à divindade com o pronome “TU”, o indivíduo sente a proximidade, sente que Deus está diante dele, como diz o Salmista “Tenho sempre o Senhor diante de mim” (Sl 16,8). Não há outra figura de linguagem que expresse a consciência da continguidade de Deus. O termo mais comum utilizado na literatura judaica para expressar esta proximidade é “Shekhina”.[116] Como a oração inclui a experiência dessa proximidade, assim também a benção.

R. Aha b. Hanina disse em nome de R. Assi em nome de R. Iohanan: Todo aquele que pronuncia a bênção na lua nova, no seu tempo é como se recebesse a presença da Shekhina. É escrito aqui: “Este mês…” (Ex 12,2) e está escrito lá: “Este é o meu Deus, eu o louvarei” (Ex 15,2).[117]

O autor do midrash joga com os dois versículos através do método da Gezerá Shavá. Como no segundo versículo aparece “este” e se trata da passagem do mar onde os israelitas fizeram a experiência da Shekhina, também no primeiro versículo aparece “este” e portanto, também aqui se refere à Shekhina. E Rashi acrescenta, desde que  a bênção da lua  nova  involve a saudação da Shekhina, é importante recitar a bênção estando em pé.

5- As festas de peregrinação

As três festas de peregrinação, são momentos em que Deus derrama suas bençãos sobre Israel. Estas três  festas:  Páscoa, Pentecoste e Tabernáculos eram conectadas diretamente com o culto no Templo e com a terra de Israel. Cada uma delas é ligada a um momento na agricultura do país: Páscoa, ou a festa do pão ázimo é ligada com a colheita do centeio; Pentecoste ou festa das semanas, é ligada à colheita do trigo; e Tabernáculos ou festa  das cabanas é ligada com o tempo da vindima.

Estes dias de festa eram chamados também “Mo‘adim” (~yd[wm) dias de encontro com Deus.Durante as festas  Israel recebia a presença de Deus no Templo.[118] Este fato é confirmado por R. Joshua que diz:

“Todo aquele que realiza o mandamento da peregrinação é considerado como se ele tivessem recebido a face da Shekhina”.[119]

A Escritura comanda: “Três vezes[120] no ano, todo varão entre ti aparecerá[121] perante o SENHOR, teu Deus no lugar que escolher, na Festa dos Pães Asimos, e na Festa das Semanas, e na Festa dos Tabernáculos(Dt 16,6).[122] “Da mesma maneira que ele vem para ver assim vem para ser visto.

A partir do comentário de Dt 16,16 o midrash faz o seu comentário:

 “Aparecerá”:Como um vem para ver assim também para ser visto. “Diante do Senhor”, Se você fizer assim, Eu dexarei todas os meus assuntos e me ocuparei só de ti.[123]

As fontes amoraicas[124] afirmam que os peregrinos não deviam vir de mãos vazias, senão que deviam  trazer uma oferta para o sacrifício de comunhão além do holocausto normal para celebrar a festa. Esta se chamava “oferta de alegria”.[125] Como está escrito: Alegrar-te-ás[126] diante do Senhor teu Deus,  tu, e o teu filho, e a tua filha, e o teu servo, e a tua serva, e o levita que vive em tua cidade, e o estrangeiro,  o órfão, e a viúva que vivem no meio de ti, - no lugar que o Senhor teu Deus houver escolhido para aí fazer habitar o seu nome. (Dt 16,14)[127].

Alegrar-se durante as festas de peregrinação era um mandamento.[128] A alegria estava ligada ao sacrificio de comunhão.[129] Como está escrito: “Oferecerás sacrifícios de comunhão e comerás, alegrando-te diante do Senhor teu Deus” (Dt 27,7). Comer carne era considerado um coisa festiva, pois durante o dias normais do ano carne não era algo comum de todos os dias.

Também as mulheres participavam na oferta de sacrifício.[130] Enquanto os homens se alegravam bebendo vinho, para as mulheres uma maneira de demonstrar alegria era recebendo roupas novas e para as crianças objetos e nozes.[131]

Rashi afirma que também as mulheres deviam cumprir o mandamento de alegrar-se segundo R. Yose e R. Shimeon, pois mesmo que as mulheres não fossem obrigadas a cumprir o mandamento, a Torá lhes proporciona este privilégio.[132]

Os seis Salmos do Halel[133] eram cantados  pelos levitas nas festas de peregrinação. Após cada versículo o povo respondia : ‘Aleluia!’ (louvado seja o Senhor), e quando o Salmo 118 era cantado todos  repetiam o versículo vinte e cinco:[134]  “Oh! Salva-nos, SENHOR, nós te pedimos; oh! SENHOR, concede-nos prosperidade!”

Toda a liturgia era imbuída do sentimento de estar na Presença do Senhor. Como diz o Salmo 116,19-19 “Cumprirei os meus votos ao SENHOR, na presença de todo o seu povo, nos átrios da Casa do Senhor, no meio de ti, ó Jerusalém. Aleluia!”. E Sl  118,26: “Bendito o que vem em nome do Senhor. Da Casa do SENHOR, nós vos abençoamos.” Estar na casa do Senhor significava participar da própria vida do criador.

 Festa da Páscoa

A primeira e a maior festa, a Páscoa, foi associada historicamente com a redenção dos filhos de Israel do Egito. A festa celebra este evento decisivo na vida do povo, a liberdade. A Páscoa, então, se tornou uma ocasião anual para celebrar a liberdade como um objetivo religioso na vida de cada judeu e de todo o povo.

O Êxodo do Egito é portanto, um tema que se recorda sempre na liturgia judaica, e alcança o seu auge na festa da Páscoa, especialmente na celebração do Seder.[135]

No período do Templo, o ato essencial da observância da celebração era a oferta de um cordeiro por familia e a ato de comer juntos o cordeiro, juntamente com o pão ázimo e as ervas amargas, acompanhado da narração dos acontecimentos históricos nos quais se baseia a festa (Hagadá)  num gesto festivo de libertação. Tal ato era feito no Templo de Jerusalém. Também era básico para o cumprimento da Páscoa se abster de pão levedado durante os sete dias festivos.  Na Biblia, o pão sem fermento é ligado ao Êxodo, para lembrar a pressa que eles tiveram de deixar o Egito, como está escrito: “Nela, não comerás levedado; sete dias, nela, comerás pães asimos, pão de aflição (porquanto, apressadamente, saíste da terra do Egito), para que te lembres, todos os dias da tua vida, do dia em que saíste da terra do Egito.”(Dt 16,3).

O fato de subir em peregrinação a Jerusalém com toda a familia era um momento de alegria e encontro. Entrar no Templo, diante da presença de Deus era um momento significativo na vida de cada homem judeu. A festa da Páscoa era um memorial onde se celebrava, se louvava e se agradecia ao Senhor pelas maravilhas realizadas no Egito.

Em uma das orações do Seder[136] se recorda tais maravilhas:

Por um grande terror[137]alusão à revelação da Shekhina, pois é dito: Que divindade tentou ir tomar para si um povo do meio de outro povo, com provas, e com sinais, e com milagres, e com peleja, e com mão poderosa, e com braço estendido, e com grandes espantos, segundo tudo quanto o SENHOR, vosso Deus, vos fez no Egito, aos vossos olhos (Ex 26,8).[138]

O midrash mostra como Deus liberta seu povo com grandes prodígios, e não só isso, Ele se dá a conhecer através da Shekhina, a visão das maravilhas de Deus é tão grande que todos podem perceber com os próprios olhos.

 Festa de Shavuot

Sete semanas depois da festa de Pessah, celebramos a festa de Shavuot (Pentecostes). Na origem, a festa de Shavuot era unicamente uma celebração da colheita (Ex 23,16) era ligada à colheita do trigo; ou ainda, (dia da oferta das premícias) (Nm 28,26) lembrando que neste dia os israelitas subiam ao Templo de Jerusalém para trazer as premícias. A literatura talmúdica designa a festa com o nome de Atseret[139] , que podemos traduzir por “assembléia solene”. O termo aparece também na Biblia aplicado a outras festas (Lv 23,26; Nm 29,35; Dt 16,8). Para a tradição Rabínica, significa “conclusão da Festa”: os sábios consideravam a festa de Shavuot como a conclusão da festa de Pesah. Com Shavuot a marcha chega ao seu objetivo com o dom da Torá. A liturgia nomea este dia  (tempo do dom da Torá). Shavuot é a unica festa que a Biblia não coloca uma data precisa, por outro lado, ela prescreve de contar sete semanas “A partir do dia seguinte do sábado, deste o dia em que tiverdes trazido o feixe de apresentação, contareis sete semanas completas” (Lv 23,15). A colheita do omer de centeio novo marcava o começo do período da contagem das semanas. No cinquentésimo dia a festa das premícias era proclamada.

Na epoca do Templo, Shavuot era, para os agricultores, ocasião de subir a Jerusalém num cortejo de festa, para apresentar uma parte das primícias das suas colheitas (bikkurim) como uma oferts de graça. A Mishná apresenta uma descrição de todos os preparativos desta cerimônia e de muitos ritos que a rodeavam[140] . O Sacerdote colocava a cesta diante do altar enquanto o peregrino entoava um canto de louvor a Deus e agradecia por ter libertado seu povo da escravidão do Egito, e de o ter conduzido num país onde mana leite e mel (Dt 26,5-10).

A linguagem utilizada no discurso das ofertas oscila entre o enprego da 3a  pessoa, que é uma linguagem indireta, e a 2a pessoa que é uma linguagem direta. Esta mudança de pessoa num mesmo versículo inspirou os sábios a encontrar uma explicação. A linguagem direta e a linguagem indireta representam as duas faces do Ser Divino: a imanência e a transcendência.

Festa de Sucot

A festa de Sucot ou festa das Tendas era celebrada durante sete dias fechando com o oitavo, na época em que se terminava a colheita da uva, no mês de Tishri (setembro-outubro). “Sete dias celebrarás a festa ao SENHOR, teu Deus, no lugar que o SENHOR escolher, porque o SENHOR, teu Deus, há de abençoar-te em toda a tua colheita e em toda obra das tuas mãos, pelo que de todo te alegrarás (Dt 16,15).

O símbolo da festa são as cabanas cobertas de folhagens recordando que, durante a marcha pelo deserto os israelitas não tinham um abrigo seguro.

Esta festa tinha sua origem em tempos antigos quando os Israelitas, tornando-se agricultores em Canaã, tinham adotado a festa da estação de autono com suas choupanas  de ramagens (sucot) primitivamente nos campos e nas vinhas em vista do trabalho. Os filhos de Israel, retomando esta “festa da colheita” (Ex 34,22; 23,16), rendiam graças ao Senhor pelos produtos do solo já pensando no retorno das chuvas. Além do mais,  a antiga festa agrária devia situar-se nas comemorações dos acontecimentos da história da salvação; é assim que Lv 23,43, “para que saibam as vossas gerações que eu fiz habitar os filhos de Israel em tendas, quando os tirei da terra do Egito. Eu sou o SENHOR, vosso Deus”.

Desde a época do segundo Templo, o ritual previa que os participantes da Festa tivessem na mão um buquê de ramos e um fruto. Esta prática se fundamentava em Lv 23,40 que diz: “No primeiro dia, tomareis para vós outros frutos de árvores formosas, ramos de palmeiras, ramos de árvores frondosas e salgueiros de ribeiras; e, por sete dias, vos alegrareis perante o SENHOR, vosso Deus”. A tradição precisou os termos: o buquê (lulav) devia ser constituído de ramos de palmeira, mirto e salgueiro; era necessário incluir uma cidra (etrôg).[141]

Todo sacrifício trazido ao Templo era acompanhado de uma oferta de farinha e uma medida de vinho que era derramada sobre o altar.[142]Durante os sete dias de Sucot, a Libação da Água era adicionada àquela do vinho, junto com a oferta diária da manhã.[143]

Como é dito no Kidush[144] e em todas as orações da festa, o objetivo de Sucot era lembrar o Exodo do Egito. Como Sucot lembra o Êxodo?  Por um coisa, a Mitzva (mandamento) de habitar na Suca relembra a proteção da Presença divina na nuvem. “E saberão que eu sou o SENHOR, seu Deus, que os tirou da terra do Egito, para habitar no meio deles; eu sou o SENHOR, seu Deus” (Ex 29,46).


“Para que as gerações saibam que dentro de Sucot eu fiz habitar os filhos de Israel quando eu os fiz sair do Egito”(Lv 23,43). R. Eliezer disse: Eram Sucot de verdade. R. Aqiba disse: Nas Sucot estava a Núvem de Glória.


A Nuvem de Glória é relacionada com a Presença de Deus que acompanhou o povo durante a travessia do deserto.

O objetivo principal do Senhor, ao tirar o povo do Egito, era torná-los conscientes da Sua presença no meio de Israel. Liberdade por si mesma não significaria nada sem a presença do Senhor, tal presença se manifesta mais claramente alguns dias depois da saída do Egito com a nuvem. “O SENHOR ia adiante deles, durante o dia, numa coluna de nuvem[145], para os guiar pelo caminho” (Ex 13,21).

Durante o período da formação do povo de Israel a festa de Sucot era ligada com a Tenda do Deserto. Depois que Israel se estabeleceu na Terra Prometida, o Templo se tornou o lugar privilegiado da celebração da festa.

Um  motivo que fazia de Sucot um período muito especial na vida de Israel era o fato de Salomão ter escolhido esta festa para a dedicação do Templo (1Re 8).[146]  De acordo com a tradição deuteronomista, a cada sete anos a Lei era lida a todo o povo reunido nesta ocasião, “ No fim de cada sete anos, precisamente no ano da remissão, durante a festa das Tendas, quando todo Israel vier apresentar-se diante do Senhor teu Deus no lugar que ele tiver escolhido, tu proclamaras esta Lei aos ouvidos de todo Israel” (Dt 31,10-11).

a)    Alegria de Sucot

Porque Sucot é chamada tempo de alegria para Israel? O mandamento de alegra-se é ligado igualmente às três festas: Pesah, Shavuot e Sucot.[147] A Torá se refere à importância especial da festa de Sucot  repetindo três vezes o mesmo mandamento da alegria: “E te alegrarás” e te alegrarás na tua festa”… (Dt 16,14-15) ”Por sete dias, vos alegrareis perante o SENHOR, vosso Deus.”(Lv 23,40).

O povo com palmas e etrogs nas mãos marchava ao redor do altar todos os dias festivos e cantava o versículo do Halel:[148] “Oh! Salva-nos, SENHOR, nós te pedimos; oh! SENHOR, concede-nos prosperidade!” (Sl 118,25). O cume da festa era o ritual litúrgico da libação da água. No culto da manhã da Festa de Sucot, além do usual costume da libação do vinho, havia a libação da água que era derramada sobre o altar. Esta água era tirada da fonte de Siloé[149] na noite do primeiro dia, e carregada em procissão até o Templo com cantos de  júbilo[150] e festa. A festividade que acompanhava esta cerimônia era chamada vctuav ,hc ,jnaalegria da libação da água. E o talmud descreve: “Quem não viu a alegria da Libação da Água nunca se alegrou na vida”[151]. Toda a esplanada do Templo era iluminada com tochas e lampadas.[152]

A  Mishná nos dá uma indicação da natureza festiva de Sucot no Templo através da descrição da Libação:

A Libação da água, como se fazia? Um frasco de ouro, com o conteúdo de três log era  enchido (com água) de Siloé. Quando chegavam à porta da água, tocavam a tekia, terua e tekia. O sacerdote subia a rampa do altar e se tornava à esquerda onde haviam os potes de prata… O que estava ao oeste era de água, e o do leste era de vinho… (4,9)

Se costumava dizer que quem não tenha visto a alegria da ‘retirada da água’ nunca tinha visto alegria na vida.

Não havia nenhuma patio em Jerusalém que não estivesse iluminado com tochas para a  ‘retirada da água’. Os piedosos e homens de ação dançavam diante deles tendo tochas acendidas em suas mãos e recitavam canções de louvor. Os levitas com arpas, liras, címbalos, trombetas e outros numerosos instrumentos musicais estavam nos quinze degraus por onde de baixava do átrio de Israel ao átrio das mulheres; os levitas costumam estar de pé sobre eles com instrumentos musicais. Dois sacerdotes estavam junto da porta superior que desce do átrio de Israel ao átrio das mulheres tendo duas trombetas nas mãos. Quando cantava o galo tocavam a tekia, terua e tekia. Quando chegavam ao décimo degrau tocavam novamente tekia, terua e tequia. Quando chegavam ao átrio tocavam tekia, terua e tekia e caminhavam até chegarem à porta que tinha a saída pela parte oriental, se viravam ao ocidente e diziam: “nossos pais, que estiveram neste lugar com suas costas ao Templo, e com seus rostos em direção ao oriente, se prostravam verso o sol, nós, temos nossos olhos dirigidos para o Senhor”. R. Yehudá diz: costumavam repetir “somos do Senhor e em direção do Senhor estão nossos olhos”.[153]

Sobre esta última frase, é possível que a Mishná queira mostrar a importancia da Presença do Senhor no Templo. Eles não têm necessidade de voltar-se para o sol para contemplarem a luz da face do Senhor. A luz e o explendor pertencem à Shekhina que está no Templo.

b) Sucot e perdão

Há uma ligação entre a festa do Perdão com a festa de Sucot. A alegria de Sucot origina-se em parte da posição da festa no calendário. Segue logo depois de Rosh- Hashaná e Yom Kipur. Somente aqueles que tem o coração reto podem alegrar-se diante do Senhor, como sugere o Salmista: “A luz difunde-se para o justo, e a alegria, para os retos de coração” (Sl 97,11).  Como é dito:

 “De Yom Kipurim até a Festa (Sucot) todo Israel está ocupado com os mandamentos. Este se ocupa com a Suca, aquele se ocupa com o lulav. O Primeiro dia da Festa todo Israel se coloca diante do Santo Bendito Seja, com seus lulaves e com seus etrogs em nome do Santo, Bendito Seja. E Ele lhes diz: ‘O que passou, passou. A partir de agora recomeçamos as contas’ Por isso Moisés exorta Israel: “E tomareis para vós, no primeiro dia” (Lv 23,40).[154]

O perído que vai de Rosh Hashaná até Yom Kipur e como um período de preparação. No entanto a prova final acontece na festa de Sucot.

No ano Novo todos os seres que vieram ao mundo passam diante d’Ele como um exército, como está escrito: Ele forma o coração de cada um e discerne todos os seus atos (Sl 33,15), e na festa de Sucot são julgados por motivo da água.[155]

Só depois de passar por esta purificação espiritual no dia de Yom Kipur, e ter encontrado novamente o “caminho reto”, Israel se sente capaz de participar com alegria completa recitando o Halel[156] e louvando o Senhor com alegria.[157] Na festa de Sucot Israel se sente perdoado e celebra seu perdão com alegria.

R. Eliezer bar Marius disse: Por que nós observamos Sucot depois de Kippur? Em Rosh-Shaná Deus senta para julgar todos os habitantes do mundo; em Yom Kippur Ele sela seu julgamento.[158]

Naquele dia o Senhor se reconciliou com Israel e disse a Moisés: “Faça para mim duas tábuas de pedra”(Ex 34,1). Outros quarenta dias passaram, que se terminaram no dia de Yom Kipur. Naquele dia o Senhor se reconciliou com Israel na Alegria e disse a Moisés: “Eu perdoei segundo a tua palavra” (Nm 14,20)[159].

Depois que Israel tinha pecado e a nuvem de glória se afastado, Moisés subiu três vezes. Quando ele desceu pela terceira vez ele trouxe para Israel o mandamento de construir a Mishkan (santuário-tenda), como um sinal que Deus tinha se reconciliado e queria habitar no meio deles.

Por isso se diz:

Tenda do Testemunho: Testemunho para Israel que o Santo Bendito Seja, perdoou Israel pelo falta do bezerro de ouro, e fez sua Shekhina habitar entre eles”[160].

 No Yom Kippur Moisés desceu da montanha. No dia seguinte de Yom Kippur está escrito: “Moisés convocando toda a congregação dos filhos de Israel, disse-lhes:… (Ex 35,1) “tomai, do que tendes, uma oferta para o Senhor” (Ex 35,5). No dia 15 eles começaram a construção da Mishkan, e a nuvem de glória retornou e se transformou em uma sucá no acampamento de Israel. Aquele dia se tornou o dia fixo que eles habitaram em Sucot. Assim como Deus deixou os céus, por assim dizer, e fez com que a Shekhina habitasse a terra no meio dos filhos de Israel, da mesma maneira Israel mostra a Deus que eles também deixam suas casas e habitam com Ele na Sucá.[161]

Durante a festa de Sucot Israel se purifica de toda má inclinação. Após ter passado pela purificação através de Yom Kippur ele pode ser admitido diante da presença de Deus.  Como é diz o Salmista: “Quem subirá ao monte do SENHOR? Quem há de permanecer no seu santo lugar? O que é limpo de mãos e puro de coração, que não entrega a sua alma à falsidade, nem jura dolosamente”. (Sl 24,3-4).

c) Sucot, Espírito Santo e Alegria

A festa de Sucot está também ligada ao Espírito Santo.

“Disse R. Yehoshua b. Levi: Por que se chama beit ha-Shoeva? Por que de lá retiramos o Espírito Santo, segundo (Is 12,3): “Vós, com alegria, tirareis água das fontes da salvação”.[162]


Não somente água, mas também o Espírito Santo se podia obter para todos os que com alegria participavam da Cerimônia da Libação da água. Mais adiante trataremos do tema do Espírito e a alegria.

É o que nos mostra o midrash de Gn 29,2. Ir ao Templo é uma maneira de saciar-se do Espírito Santo:

Olhou, e eis um poço no campo:simboliza Sion; e três rebanhos de ovelhas deitados junto dele as três festas de peregrinação; porque daquele poço davam de beber aos rebanhos: de lá eles se saciavam do Espírito Santo; e havia uma grande pedra que tapava a boca do poço: faz alusão a alegria do lugar da libação.[163]


O midrash interpreta Gn 29,2 de uma maneira ampla, vendo Sion como um poço onde todas as tribos de Israel que se achegam para encontrar alimento espiritual durante as festas de peregrinação.O episódio está ligado à visão de Jacó do poço no deserto onde haviam três rebanhos. O poço significa Sion, o Templo. Todos aqueles que sobem para celebrar as festas são como  ovelhas  sedentas a procura de água. Não só para celebrar e cumprir o mandamento que cada judeu sobe a Jerusalém, senão também para “ver a face do Senhor” e ser saciado com o Espírito Santo. Há uma estreita associação com a escuta da Torá.  Vir a Jerusalém era também o momento de escutar a Palavra de Deus, fonte de vida. Como vimos acima, o Templo era o lugar do sacrifício mas também da oração e do estudo da Lei.

A descrição de R. Yehoshua nos mostra como todas estas realidades estavam ligadas:

“Disse Rabi yehoshua Ben Hanania: Quando nos alegrávamos no lugar da ‘tirada da água’ nossos olhos não viam sono. Como era isso? Na primeira hora nos ocupavamos com o sacrifício da manhã; de lá continuávamos com a oração, depois com o sacrifício adicional; depois com a oração adicional; em seguida a Casa de Estudo; depois comer e beber, em seguida a oração da tarde, depois com o sacrifício da tarde e por último com a alegria da ‘tirada da água’”[164].

A descrição de R. Yehoshua mostra que havia um grande contentamento por parte de todos os participantes da ‘tirada da água’.

Foi ensinado, que Hillel o ancião, ficava contente com a alegria do lugar da Libação dizendo assim: ‘Se eu[165] estou aqui – tudo está aqui. Se eu não estou aqui – quem está aqui?’ Ele costumava dizer: ‘O lugar que eu amo, para lá minhas pernas me conduzem, se vens a minha casa eu irei à tua; se tu não vens à minha casa, não irei à tua, pois está escrito: “Em todo lugar onde eu[166]  fizer celebrar a memória do meu nome, virei a ti e te abençoarei” (Ex 20,24).”[167]

Este texto nos mostra não só a celebração festiva da ‘retirada da água, ligada ao Espírito Santo, senão também uma confissão de fé na presença de Deus no Templo. Hillel compreendeu bem a essência da cerimônia de Libação de água nestas poucas palavras: Se eu estou aqui tudo está aqui.[168] Segundo Rashi, ele não se refere a si mesmo mas a presença da Shekhina no Templo.  Vejamos seu comentário:

Se eu estou aqui tudo está aqui. Ele ensinava em publico que não pecassem em nome do Santo, Bendito Seja. Se eu estou aqui tudo está aqui: Todas as vezes que eu desejo esta casa, minha Shekhina se repousa nela – isto é, sua glória está presente e todos virão aqui. E se pecarem, eu farei desaparecer minha Shekhina, e quem virá aqui? Assim se comenta na Tosefta, “Ele dizia: Para o lugar que eu amo meus passos me conduzem. Se tu vens em minha casa

Outra relação que podemos fazer entre o Espírito Santo e a alegria, vem da interpretação do seguinte versículo: “Alegrar-te-ás, na tua festa, tu, teu filho,  tua filha,  teu servo,  tua serva,  o levita,  o estrangeiro,  o órfão,  a viúva que estão dentro das tuas cidades” (Dt 16,14).Pois, como diz o midrash: 

R. Yona b. Amitai era um dos que subia em peregrinagem, ele entrou com alegria na Beit Ha-shoeva (casa da água) e o Espírito Santo repousou sobre ele. Para ensinar-te que não há Espírito Santo senão num coração alegre. Qual é a razão? E aconteceu que quando o tocador tocava, veio sobre ele o Espírito do Senhor (2Re 3,15). Disse R. Beniamin bar Levi: Não está escrito ‘enquanto ele tocava no instrumento’, mas ‘enquanto o músico tocava’[169]

A vinda do Espírito Santo é vista como consequência, em primeiro lugar da obediência à Palavra, isto é, crer e fazer que o Senhor propõe, em segundo lugar da alegria pelo reconhecimento das obras que Ele realiza em favor do seu povo.  Tal experiência é descrita pelo midrash:

‘Grande é a fé diante de Quem com sua Palavra criou o mundo, pois como recompensa pela fé que o Israelitas tiveram no Senhor, repousou sobre eles o Espírito Santo e entoraram um cântico, porque se diz e creram no Senhor (Ex 14,31).’[170]

E por que o Espírito Santo veio sobre eles? E o Midrash responde, porque acreditaram no Senhor. E com a presença do Espírito Santo vem o desejo de entoar um cântico. A fé neste contexto é agir segundo o que o Senhor diz. Os que agem de acordo com sua Palavras são predispostos a acolher o Espírito Santo. Há uma conexão profunda entre fé e Espírito Santo e como consequência de ambos, a alegria.

d) O Espírito Santo continua agindo

O período do Segundo Templo é visto como uma nova era. Deus já não falava mais através dos Seus servos os profetas, mas Ele falava através dos seus servos, os Sábios. Profecia, como Torá escrita, é a Palavra direta de Deus. Mas há uma Palavra de Deus indireta também: a Torá que permeia o intelecto e o coração daqueles que mergulham no seu estudo e absorvem sua mensagem. Como o Talmud ensina: “Do dia em que o Templo foi destruído a profecia foi retirada dos profetas e foi dada aos sábios.[171]  Foi esta “profecia dos sábios” que floresceu no período do Segundo Templo e fez com que a Espírito Santo restasse em Israel. O Espírito Santo continua agindo, não mais através do profetas e sim através dos sábios.

A ação do Espírito Santo no Período do segundo Templo é uma realidade que não podemos negar. Já vimos este assunto quando tratamos da festa de Sucot. Agora vamos procurar explicar o que significa o desaparecimento do Espírito Santo em conexão com a morte dos últimos profetas.

Vejamos o texto:

Quando morreram os últimos profetas, Ageu, Zacarias e Malaquias, o Espírito Santo cessou de atuar em Israel; apesar disso se podia ouvir a voz celeste. E aconteceu que um dia os sábios entraram na casa de Gurio em Jericó, então veio uma voz do céu e disse: Há entre você um homem que é digno do Espírito Santo, mas sua geração não merece. Eles dirigiram o olhar a Hillel, o ancião. Quando ele morreu disseram dele: Vejam! Ele era humilde, ele era Hassid; ele era discípulo de Esdras. Uma outra vez, os sábios estavam sentados a Iavne. Eles escutaram uma voz celeste que dizia: Há um homem aqui que é digno do Espírito Santo, mas sua geração nao merece. Eles dirigiram o olhar a Samuel o pequeno. O que disseram na hora de sua morte? Um humilde, um hasside, discipulo de Hillel o ancião.[172]

Este texto pode ser interpretado segundo o princípio da Tosefta, que afirma: A presença do justo no mundo traz o bem, enquanto que sua ausência causa a perda do bem a vinda o mal.

No momento que os justos vem ao mundo bem entra no mundo e o mal parte do mundo, quando eles deixam o mundo o mal vem ao mundo e obem parte do mundo.[173]

A morte dos profetas Ageu, Zacarias e Malaquias é compreendida neste mesmo contexto. A tradição reconhece que a inspiração dos Profetas vinha do Espírito Santo. Há uma ligação especial entre profecia e Espírito Santo. A vida deles fez com que a presença do Espírito Santo fosse possível, com sua morte houve a perda desse bem.

Portanto, podemos dizer que a retirada do Espírito Santo é um fenômeno temporário, justamente porque está ligado ao “justo”. Ele só se manifesta nas pessoas que são dignas dele . Hillel e Samuel são identificados com aqueles cuja vida era digna de tornar possível o retorno do Espírito Santo. Assim, podemos concluir que, o que desaparece com a morte de um justo pode ser recuperado com a presença de um outro justo.[174]

A mishná coloca alguns pre-requisitos para o recebimento do Espírito Santo. O fato está ligado a pessoas consideradas virutuosas, que progrediram na vida espiritual:

R. Pinhas ben Iair disse: O Zelo conduz a limpeza, a limpeza conduz a pureza, a pureza conduz à ao auto-controle, o auto-controle conduz à santidade, a sandidade conduz à humildade a humildade conduz ao temor do pecado, o temor do pecado conduz à caridade, a caridade conduz ao Espírito Santo.[175]

Portanto, somente uma personalidade profundamente religiosa, um santo, que se auto-disciplinou, pode fazer tal experiência.[176]

Vamos apresentar outros exemplos onde este mesmo motivo literário aparece. A Mishná descreve uma lista de sábios, mostrando que com a morte de cada um a se perde algo importante:

Quando morreu R. Meir termiraram os fazedores de parábolas.

Quando morreu ben Azai os estudiosos acabaram.

Quando morreu ben Soma cessaram os exegetas.

Quando morreu R. Yehoshua, a bondade terminou a bondade no mundo. (pág 563).

R. Eleazar b. Azaria morreu, a coroa da sabedoria foi tirada, pois, ‘a coroa do sábio é sua riqueza’.

Quando R. Akiba morreu, a glória da Torá cessou.

Quando R. Hanina b. Dosa morreu, terminaram os homens de ação.

Quando morreu R. Iosi, o pequeno, cessaram os justos.

Quando morreu Raban Yohanan ben Zacai cessou o brilho da sabedoria.

Quando morreu Raban Gamaliel, o ancião, cessou a glória da Torá e morreu a pureza e a abstinência.

Quando morreu Ismael ben Pabi, cessou o brilho do sacerdócio.

Quando morreu Rabi, cessou a modéstia e o temor do pecado.[177]

Toda esta lista de atributos que desaparecem com a morte do sábio é uma maneira de lembrar sua melhor contribuição.  Todos estes bens não desapareceram para sempre. O que foi perdido com a morte de um justo pode ser restaurado com a presença de outro justo. O mesmo princípio da Tosefta, o bem entra no mundo com o justo e parte com sua morte.[178] Com referência aos últimos profetas, devemos interpretar nesta perspectiva.

O mesmo motivo narrativo se encontra no midrash sobre o Êxodo:

Quando Miriam morreu desapareceu o poço, quando Aarão morreu desapareceu a nuvem de glória, quando Moisés morreu desapareu o maná. Com a morte de Miriam desapareceu poço e retornou por mérito de Moisés e Arão; com a morte de Arão desapareceu a coluna de nuvem e ambos retornaram por mérito de Moisés; com a morte de Moisés desaparecerm os três e não voltaram.[179]

Este tipo de reflexão é o produto da exegese midráshica. Como um motivo literário que se repete. O dom é relacionado com uma pessoa ou várias, quando a pessoa morre o dom desaparece.

Segundo o texto bíblico após a morte de Miriam o poço continua  a aparecer no relato (Nm 21,16), como também a nuvem de glória  aparece ainda uma vez em Dt 31,15, e com a morte de Moisés não cessou o maná, Israel continua se alimentando dele até a entrada na terra prometida (Js 5,12).

Parece também importante notar, a partir dos escritos, que a manifestação do Espírito se dá num ambiente religioso onde todos são dignos. Talvez se possa ver neste fato uma mudança de teologia por parte dos sábios, o Espírito já não se manifesta somente em uma pessoa, senão na comunidade como um todo.

A Tosefta relata uma história interresante  a respeito disso. Quando R. Hillel era Nasi perguntaram qual a lei com relação ao sacrifício do Cordeiro Pascal se o que vai sacrificar esqueceu de preparar a faca e a oferta no caso em que a Pascoa começa no Sábado.

Disseram lhe: O que será do povo que não trouxer facas e ofertas de páscoa para o Templo? Disse-lhes: Deixe-os, o Espírito Santo está sobre eles, se não são profetas são filhos de profetas [180]

Segundo esta baraita, o Espírito Santo tinha parado de se manifestar através dos profetas, mas permanecia nos homens sábios de uma comunidade.[181] “O Espírito Santo repousa sobre eles. Se não são profetas, são filhos de profetas”. Dizendo assim Hillel aprova a presença do Espirito Santo na comunidade de Israel. Este modo de expressar-se é muito significativo. Por um lado ele afirma a presença do Espírito Santo e por outro ele confirma a autoridade da comunidade de decidir por ela mesma. Ele sabe que pela inspiração do Espírito eles serão capazes de encontrar uma solução para o problema.

Espírito Santo e Shekhina

A fim de ter uma visão mais ampla sobre o Espírito entre os mestres, não devemos nos limitar ao que ouvimos ou lemos sobre o Ruah-ha-Kodesh, temos que também levar em consideração o que é falado sobre a ação da Shekhina. Os dois termos têm muito em comum. O que é dito sobre a Shekhina, de algum modo fornece material  muito mais determinado e rico do que o que é dito sobre o Espírito Santo. Expressões como ‘receber a presença da Shekhina’, ‘a Shekhina repousa sobre alguém’, e outras, dão a vívida impressão de uma íntima comunhão com a Deus. E muitas vezes estas duas expressões se intercambiam em textos Rabínicos antigos.

Vejamos alguns exemplos:

1o exemplo:

Quando a Shekhina repousa sobre Samson, “seus cabelos se põe em pé e batem uns contra os outros como um sino”[182].

O mesmo é dito quando o Espírito Santo repousa sobre ele.

R Nahman disse: No momento em que o Espírito Santo repousou sobre ele, seus cabelos se colocaram em pé e batiam uns nos outros como um sino[183].

2o exemplo:

Outra interpretação: ‘E sua irmã esteve de longe’ para saber qual seria o resultado de sua profecia. Os rabinos interpretam todo o versículo como referência ao Espírito Santo. ‘E ela estava[184] ali presente’, se refere ao Espírito Santo, como é dito: ‘O Senhor veio e ficou ali presente’ (1Sam 3,10). ‘Sua irmã’, faz alusão a, Diga à sabedoria: Tu és minha irmã (Pro 7,4). ‘De longe’, faz alusão a ‘De longe o Senhor apareceu para mim’ (Jr 31,3). ‘Para saber o que seria feito dele’, faz alusão a ‘Porque o Senhor é o Deus do  conhecimento’ (1Sam 2,3).[185]

‘E sua irmã esteve de longe’  R. Isaac interpreta: Este versículo é todo ao nome da Shekhina. ‘E esteve ali presente’, se refere ao Espírito Santo, como é dito: ‘O Senhor veio e ficou ali presente’ (1Sam 3,10). ‘Sua irmã’, como é dito: Diga à sabedoria: Tu és minha irmã’ (Pro 7,4). ‘De longe’, como é dito: ‘De longe o Senhor apareceu para mim’ (Jr 31,3). ‘Para saber o que seria feito dele’, como é dito: ‘Porque o Senhor é o Deus do conhecimento’ (1Sam 2,3).[186]

A história é idêntica nos dois textos. A única diferença é que na primeira é o Espírito Santo que aparece e na segunda e a Shekhina.

Em qualquer forma que a palavra aparece na Bíblia, seja no Pentateuco, nos Livros Históricos ou nos Profetas, existe sempre uma evidência da manifestação da Presença divina neste lugar. Em outras palavras, Deus ordena ao homem de apresentar-se em um certo lugar a fim de que Ele posso revelar-se a ele. Este é o significado do Espírito Santo quando usado com a palavra [187].

3o exemplo:

Grande é a fé de Israel que acreditou naquele que disse e o mundo existiu, como recompensa pela fé que tiveram o Espírito repousou sobre eles e cantaram um cântico, como é dito; ‘E eles acreditaram no Senhor e no seu servo Moisés’ (Ex 14,31).[188]

“E creram no Senhor e em Moisés seu servo”. (Ex 14,31)  Por causa da fé que tiveram, eles mereceram cantar o cântico e a Shekhina repousou sobre eles. Por isso é dito em seguida “e Moisés cantou” (Ex 15,1)[189].

No primeiro texto, da Mekhilta, apresenta o Espírito Santo que repousa sobre Israel a causa da fé que tiveram.  No segundo texto, Shemot Rabá, pela fé que tiveram mereceram cantar e a Shekhina repousou sobre eles. 

Notamos que em ambos textos  o mesmo verbo é utilizado “e repousou sobre eles”.

4o exemplo:

Para Davi um Salmo, indica que a Shekhina repousa sobre e então ele compõe. Um Salmo para Davi, indica que ele compôs e só então a Shekhina repousou sobre ele.[190]

Imediatamente repousou sobre ele o Espírito Santo e disse três livros, que são: Provérbios, Eclesiastes e Cântico dos Cânticos[191].


A Shekhina inspira Davi na composição do Salmo. No entanto quem inspira Salomão na composição de Cântico dos Cânticos, Provérbios e Eclesiastes é o Espírito Santo.

Em T.B. Yoma 21 a e 52 b a Shekhina é uma entre as cinco coisas que estavam no Templo. Em Números Rabá 15,10 é o Espírito Santo que se encontra lá, em lugar da Shekhina. Se encontra também que a Shekhina e o Espírito Santo estão, às vezes [192] “dizendo”[193] ou “gritando”;[194] “lamentando”[195] ou “respondendo”. Expressões comuns utilizadas para ambos.

5o exemplo:

Por que seu nome é Amós?

Em Qoelet R. 1,2 Amós se torna um profeta porque Deus colocou Sua Shekhina sobre ele. É conhecido o fato de que todos os profetas eram inspirados pelo Espírito Santo. Profecia e Espírito Santo estão associados intimamente. No caso de Amós foi a Shekhina que assumiu a função do Espírito Santo.

Ambos termos são sinônimos da presença de Deus e assim são interpretados em textos tanaíticos. Outro ponto em comum entre os dois é que certos pecados levam ao afastamento da Shekhina ou do Espírito Santo. Da mesma maneira, certos méritos e virtudes qualificam os indivíduos a obter o Espírito Santo ou  acolher a  Shekhina.

Podemos notar também que se alguém é próximo da Shekhina também possui o Espírito Santo, e quem é possuído pelo Espírito também vê a Shekhina. Assim, apesar das afirmações contrárias de alguns sábios, que depois dos últimos profetas o Espírito Santo deixou de agir em Israel[196], os Mestres como um corpo acreditam na presença do Espírito Santo e na atividade da Shekhina no meio deles.

A mesma discrepância se nota no ensinamento rabínico com relação ao mérito dos patriarcas. Por um lado se menciona que em certos períodos e com certos personagens  o mérito dos patriarcas teve um fim. Por outro lado, sua influência é descrita como algo que ainda continua. Não se trata de contradições ou pontos de vista diferentes de indivíduos diferentes, pois os mesmos mestres que colocam um limite na ação dos méritos dos patriarcas afirmam que os méritos ainda continuam e estão ativos.[197]

Conclusão

Toda a reflexão está centrada Shekhina na vida do povo de Israel. Um Deus que se abaixa para estar com os homens, que escolheu o povo de Israel e um lugar específico no meio deste povo. Israel quer corresponder a este amor.

Cumprir os mandamentos e ser fiel a este Deus, subir todos os anos para fazer a experiência da proximidade desse Deus, é dessa maneira que Israel procura corresponder a tudo o que recebeu, especiamente a liberdade, uma terra e um lugar de culto. Ir ao Seu Santo lugar é entrar em contato com seu Deus, se alegrar na sua presença e se embuir da força que jorra do Seu Espírito.

Os sábios falam da Shekhina que partilha os sofrimentos de Israel, está presente  na comunidade de oração, no Templo, com pessoas engajadas no estudo da Torá, na corte de justiça, etc. Esta experiência vivencial profunda que transparece através de toda literatura judaica mostra a empatia que existe entre Israel e seu Deus. Israel é capaz de entrar na mente do seu criador, saber o que Ele pensa, sente e deseja.

Ao mesmo tempo que existe um particularismo, um Deus que escolhe um povo determinado para amar e esta com ele, transparece o universalismo. Como o sol que brilha para todos assim é a Shekhina. Se pode dizer que para Israel é a partir do Templo que esta presença irradia para todos. Porque tal presença está num determinado lugar é possível dizer que está em todo lugar. É de lá, da Sua morada santa que o Senhor escuta a oraçãos dos seus filhos.

Nos textos apresentados, Deus e sua Shekhina formam uma mesma realidade. Não se trata de um conceito filosófico, senão que é a própria presença de Deus no meio

do povo. É o sentido de proximidade, de estar diante da divindade. Tal experiência não se manifesta através da visão no sentido físico, é proximidade da divindade que Israel pode sentir quando sobe em peregrinação ao Templo.

A Torá é vista como um meio para aproximar a Shekhina do mundo. Nesta mesma perspectiva é apresentado o justo como aquele que faz a Shekhina retornar no meio dos homens


[1]b. San. 39 a.

[2]BemR. 12,4; PesK. 1,3.

[3]M.KADUSHIN, A Conceptual Approach to the Mekilta, New York, 1969, 44.

[4]“No lugar que escolherá estabelecer sua Shekhina”. Cf. I. DRAZIN, Targum Onqelos do Deuteronômio, Israel, 1982.

[5]Tan. Bem. 11. Tg. Onq. traduz: “Me farão um santuário e eu farei minha Shekhina repousar no meio deles” (Ex 25,8).

[6]ShirR. 1,16; 3,20.

[7]BerR. 39,16.

[8]BemR. 19,18; WaR. 30,2.

[9]b. Ber.43 b; Hag 16 a.

[10]b. Ber. 6 a. Outros exemplos: “R. Hayya: Todo aquele que se ocupa com a Tora durante a noite, a Shekhina está diante dele, como é dito: “Levanta-te, clama de noite no princípio das vigílias; derrama, como água, o coração perante o Senhor…” (Lam 2,19). “R. Shimeon b. Yohay ensinou: Em todo lugar que os  justos vão a Shekhina os acompanha”. BerR. 86,6.

[11]E.E.URBACH, Op.Cit.,37-65.

[12]ShirR. 1,56.

[13]Cf. b. Ber 6 a ; m.Av. 3,2.

[14]Cf. SifBem. Mas‘ei 2; Sifra Qedoshim 8,5.

[15]Sob cujos pés havia uma pavimentação de pedra de safira…” Com esta citação se faz referência ao trabalhos que os Israelitas realizaram no Egito e se compreende que Deus os havia acompanhado em seus trabalhos.

[16]O midrash exige a leitura de goi (nação) em vez de goyim (nações).

[17]MekhY. Bo 14; Cf. Qo R. 7,2.

[18]BemR. 12,4; Cf. ShemR. 2,5. Em Shemot Rabba, essa mesma história trata de um pagão que pergunta a R. Ioshua b. Karha.

[19]Cf. Ex 3,2.

[20]ShemR. 35,6.

[21]ShemR. 30,24.

[22]Cf.: EkhaR. Ptihah 25.

[23]Cf.: BemR. 25,8; ShirR. 7,12.

[24]Cf. Nota 24.

[25]Cf.: b. Hag. 15,2; b. San. 6,5; 46,1;

[26]G. Scholem, On the Mystical Shape of the Godhead, New-York 1991. 145-149.

[27]Targum Onqelos: “Eu farei minha Shekhina habitar entre os Israelitas, e Eu serei o seu Deus”.

[28]C.R. KOESTER, The Dwelling of God., The Tabernacle in the Old Testament, Intertestamental Jewish Literature, and the New Testament ,Washington, 1989.

[29]BemR. 13,6.

[30]b. Pes. 54 a; Ned. 39 b.

[31]MekhY. Sobre Ex 15,2.

[32]E. MUNK, La voix de la Thora – L’Exode, Paris, 1981, 157.

[33]A literatura Targumica e Midráshica determina duas funções para a Nuvem: Aplainar colinas e vales, e preparar um lugar para acampar. Cf.: MekhY. sobre Ex 13,21 e PsJ. Ex 12,37. É uma função muito parecida àquela que a Escritura descreve da Arca de Deus: Deus ia na frente “para lhes conseguir um lugar para acampar” (Nm 10,33; Dt 1,33).

[34]ShemR. 51,4.

[35]Cf. Ex 25,8 O targum Onqelos traduz: “Faça me um santuário para que minha Shekhina possa habitar”

[36]BemR. 12,6.

[37]Cf. BerR. 19,7

[38]Idem.

[39]BemR 13,2 Cf. também ShirR. 3,20.

[40]Cf. Ex  25,2; 29,43; 30,7; 30,36.

[41]Num holocausto (hl'[) todo o animal oferecido era consumido no sacrifício de comunhão (~ymil'v.,) só a gordura, os rins e o fígado eram queimados no altar (Lv 3), o restante era partilhado entre o sacerdote e os donos da oferta. Na partilha deste sacrificio de comunhão havia muita alegria, pois era algo feito diante da Presença de Deus.

[42]Cf. Ex 33,7-9.

[43]ShemR. 45,4.

[44]Js 28,1; Jz 18,31.

[45]Targum Onqelos: “Somente no lugar que o Senhor teu Deus escolherá entre todas as suas tribos para estabelecer Sua Shekhina. Lá o procurareis, na Casa da Sua Shekhina, lá deveis ir”.

[46]SifDev, Re’e, 10.

[47]Cf. BerR. 56,10 sobre Gn 22,14.

[48]P. LENHARDT, "La Tradition d'Israël Sur la Présence Divine (Shekinah)", Cahiers Ratisbonne n. 2, Jérusalem, 1997. 140.

[49]Dt 12,11.

[50]O tabernáculo era essencialmente uma tenda composta de duas camadas de tecido e duas camadas de pele esticadas sobre uma armação de madeira (Ex 26,7. 14-15), designada “tenda de reunião” d[eAm lh,aEx 33,7-11, como também “tenda do testemunho” tdu[eh' lh,aNm 9,15.

[51]T2Cr 6,2  LE DÉAUT – ROBERT, Chroniques, I, 115; II,92.

[52]G. BISSOLI, Il Tempio Nella Letteratura Giudaica e Neotestamentaria ,Jerusalem , 1994, 104.

[53]PsJ Ex 15,17: “Os introduzirás e os plantarás na montanha do teu Templo, lugar que se encontra em frente ao trono da tua glória, fixado em frente à casa da tua santa Shekhina que te preparaste o Senhor; teu Templo, Senhor, tuas duas mãos realizaram.

[54]MekhY. Ex 15,17.

[55]Tan. Waiqra 7.

[56]Cf. BerR 69,7;TanB. Iotze 9.

[57]MTeh. 90,7.

[58]R.E.CLEMENTS, God and Temple, The Idea of the Divine Presence in Ancient Israel, Oxford, 1965, 68.

[59]ShemR 2,2; Cf. BemR 11,2; TanB. Shem, 10.

[60]Rashi sobre Cant. 6,11.

[61]P. LENHARDT, “La Tradition d'Israël Sur la Présence Divine (Shekinah)”, 141.

[62]EkhaR. Petiha 20.

[63]SifDev. 40 ed. Venezia.

[64]E.E.URBACH, Op.Cit. 53. MekhY. Ex. 12,1: Quando o Templo não havia sido escolhido, Jerusalém era adequada para a Shekhina, se excluiu Jerusalém, pois se diz: “Pois o SENHOR escolheu a Sião, preferiu-a por sua morada: Este é para sempre o lugar do meu repouso; aqui habitarei, pois a preferi” (Sl 132,13-14).

[65]Mekh. Bo, Psi’ha 1; Yalq. bo, 187.

[66]E.E.URBACH, op.cit, 53.

[67]ShemR. 2,2.

[68]Rashi sobre 1Re 9,3.

[69]E.E.URBACH, op.cit,56.

[70]b.San 22 a.

[71]m. Tam 7,2.

[72]Cf. Ex 3, 1-5; ShemR. 2,6.

[73]“Sacrifice”, EncJud. V. 14, 607-608.

[74]Korban , palavra hebraica cujo significado é oferta, oblação. Vem do verbo  que significa “aproximar-se”. No contexto do culto do Templo korban é uma oferta que é trazida na presença da divindade,  tanto uma oferta que vai ser sacrificada como também algo que é destinado para o uso no Santuário.

[75]BerR. 48,7.

[76]Cf. m. Tam. 4,3 e 5,1;  y. Ber. 11,2

[77]Um dos compartimentos do Templo onde se reunia o Sinédrio.

[78]Ex 20,1-14.

[79]Consiste em três partes: Dt 6,4-8; 11,13,22; Nm 15,37-42. É uma afirmação da existência e unidade de Deus.

[80]b. Ber. 57 a.

[81]m.tam. 5,1.

[82]Esta benção é um mandamento bíblico pois menciona a libertação do Egito.

[83]A décima oitava bênção do Shemoné Esré, também chamada “Tefilá

[84]m. Tam. 7,2.

[85]SifBam. Naso 41.

[86]b. Sot. 40 a.

[87]Cf. BerR 48,9; b. Shab. 127 a.

[88]Para cada dia da semana havia um salmo: primeiro dia Sl 24; segundo dia Sl 48; terceiro dia Sl 82; quarto dia Sl 94; quinto dia Sl 81; sexto dia Sl 93; sétimo dia (Shabat) Sl 92. Cf. m.Tam. 7,4.

[89]“Esta é a ordem do sacrifício na liturgia da casa do nosso Deus” Cf. m.Tam. 7,3.

[90]A. MILLGRAM, Jewish Worship, Philadelphia, 1975, 74-74

[91]b.Ber. 12a.

[92](Yom Kipur) É um dia de jejum total e absoluto de comida e bebida até o entardecer do dia seguinte. Durante o período do segundo Templo, o dia do perdão recebia uma marca sagrada através dos sacrifícios especiais celebrados no santuário. Era o único dia do ano em que o Sumo sacerdote entrava no Santo dos Santos e pronunciava de modo explícito o nome do Senhor.

[93]m.Yom. 6,2.

[94]m.Yom. 4,3.

[95]A celebração do Yom Kippur de hoje tem como centro o “Seder Avodá”, no qual aparece as mesmas palavras que eram ditas pelo Sumo Sacerdote no Templo.

[96]b.RHSh, 16,b

[97]m. Pea. 1,1.

[98]b. Men. 33.b.

[99]Cf.: Lv 16; 23,26-32; Nm 29,7-11.

[100]Benção pela Torá, pelo culto, pela ação de graças, pelo perdão dos pecados, pelo Templo, por Israel separadamente, pelos sacerdotes separadamente, pelo resto uma oração. Cf.: m. Yom. 7,1.

[101]b. Sot. 38 a.

[102]m.tam. 7,2.

[103]Rashi sobre Ex 20,21.

[104]m. Av. 3,2.

[105]SifDev. Sobre Dt 11,13.

[106]Idem.

[107]M.KADUSHIN, Rabbinic Mind, New York, 1965,  213.

[108]M. San 11,2.

[109]ShemR. 50,2.

[110]ShirR. 8,16.

[111]b. Ber 64 a.

[112]TanB. Shemot 10.

[113]m. Ber 4,5.

[114]PesR. 33,2.

[115]H. ARALIK, “Lugar da Shekhina na consciência daquele que reza” (Heb) Tarbitz 65, 1956, 315-316.

[116]M. KADUSHIN, Op. Cit, 166-167.

[117]b. San. 42 a.

[118]Y. STERN, The Three Festivals (Org), New York, 1993, 37.

[119]y. Hag. 1,1.

[120]A palavra “vez” (~[;P;) Ex 23,17; 34,23; Dt 16,16 tem o mesmo significado que  (lgr), Ex 23,14. 

[121]“Aparecer diante do Senhor”. O mandamento principal é de ir ao Santuário. A nível textual, se nota uma anormalidade na vocalização massorética de um verbo Nifal seguido de (ta,) que indica objeto direto: se trata de uma correção teológica, para evitar a expressão “ver o rosto de Deus”, considerada antropomórfica; ela é substituída por “ser visto” pelo rosto de Deus”, que se traduz normalmente como “aparecer”, apresentar-se a”. O verbo (har) Nifal mais (ynp) somente se usa em contexto ritual, exatamente a fórmula que indica “apresentar-se diante de Deus ou ir em peregrinação ao Seu santuário” (Ex 23,15.17; 33,23; 34,20.24; Dt 16,16; 31,11; 1Sam 1,22; Is 1,12; Sl 42,3). Cf. R. VICENT, La Fiesta Judía de Las Cabañas (Sukkot) España, 1995, 32.

[122]Cf. Também: Ex 23,17; 34,23.

[123]SifDev sobre Dt 16,16.

[124]Todo o material que foi redigido a partir da Mishná, isto é, o Talmud da Babilônia e o Talmud Palestinense.

[125]S. Safrai, Peregrinação nos dias do segundo Templo, (Heb), Israel, 1965,175.

[126]Este alegrar-se significa partilhar a abundância de bens (comer juntos), superando as distinções de familia ou de trabalho (“tu, teu filho, teu servo e tua serva”) ou de nível social (“o levita, o forasteiro, o órfão e a viúva”). De fato, (T'x.m;f'w>) vai sempre unido a uma festa religiosa e comporta o sentido concreto de “comer e saciar-se”. Cf. R. VICENT, Op. cit., 45.

[127]Tg. Onq.: “Te alegrarás diante do Senhor teu Deus, tu, teu filho e tua filha, teu escravo e tua escrava, o levita do teu acampamento e o prosélito, o orfão e a viúva do teu meio, no lugar que o Senhor teu Deus escolherá para fazer Sua Shekhina habitar”.

[128]b. Hag. 8 b.

[129]SifDev. Re’eh 138, 64, 69.

[130]SifDev. Re’eh 138.

[131]J. TABORY, Festas Judaicas no período da Mishná e do Talmud, (Heb) Jerusalem, 1996, 55.

[132]Cf. b .Hul. 85 a e RHSh. 33 a.

[133]O Hallel (isto é, louvor) consistia nos Salmos 113-118, cantados e acompanhados com a flauta. Cf. J. HEINEMANN, Prayer in the Period of the Tanna’im and de Amora’im, Berlin-New York, 1977, 125.

[134]A. MILLGRAM, op.cit. 62.

[135]Seder significa “ordem”.

[136]Esta palavra significa “ordem”, se trata da cerimônia da primeira noite de Páscoa durante a qual se recita toda a história da saída do Egito.

[137]A Hagadá interpreta ksd trncucomo uma grande visão, com o significado  ‘ver’  e o significado de ‘temer’ , de acordo com a tradução da Septuaginta e do Targum aramaico  é uma visão da Shekhina.

[138]Cf. Hagada de Pesah, midrash sobre Dt 26,8.

[139]b.RHSh. 1,2

[140]m. Bik. 3.

[141]m. Suc. 3, 4.

[142]Cf.: Ex 29,40; Lv 23,13.

[143]A Libação da Água não é mencionada explicitamente na Torá, ela faz parte da “lei revelada a Moisés no Sinai”, isto é, Torá Oral.

[144]Benção sobre o vinho.

[145]Nuvem aparece muitas vezes na Escritura quase sempre se refere ao Pilar de Nuvem que dirigia o povo no deserto e representava a Presença de Deus no deserto (Ex 13, 14, 16, 33, 40; Nm 9-12, 14, 16 etc). Depois do tempo do deserto a Nuvem aparecia no Templo “A glória do Senhor encheu a casa de Deus” (Cf, 1Re 8,10,11; 2Cro 5,13-14).

[146]“Assim, o rei e todos os filhos de Israel consagraram a Casa do SENHOR… No mesmo tempo, celebrou Salomão também a Festa dos Tabernáculos” (1Re 8,63-65).

[147]b.Pes. 68 b.

[148]O Hallel é lido, segundo um uso muito antigo, depois do ofício da manhã nas três festas de peregrinação e na festa da dedicação (Hanukkah).

[149]Segundo a tradição as águas de Siloé eram chamadas “o poço da salvação” porque os reis da Casa de Davi foram ungidos em Siloé, e através deles a salvação veio para Israel. A Escritura indica somente a unção do rei Salomão nas fontes de Gihon, que provém água para a piscina de Siloé  (1Re 1,45). Cf. E. KITOV, The Book of Our Heritage, The Jewish Year and Its Days of Significance, Jerusalem-New York, 1973, 178.

[150]b. Suk. 51 a.

[151]Cf. b. Suk 51 b.

[152]Idem 53 a. “Uma mulher podia escolher o trigo pela iluminação que havia no lugar da Libação da Água”.

[153]m.Suk. 4,9 e 5

[154]WaR. 30,7.

[155]m.RHSh. 1,2.

[156]Cf. nota 115.

[157]Y. STERN, op. cit., 434.

[158]PesK. 2,7.

[159]Comentário de Rashi sobre Dt 9,18 e Ex 31,8.

[160]Rashi sobre Ex 38,21.

[161]E. KITOV, Op. Cit., 141-142.

[162]y. Suk. 5,1, RutR. 4,8; Midrash Tannaim (ed. Hoffmann), 94.

[163]BerR. 70,8.

[164]Cf. b. Suk. 53 a.

[165]Segundo Rashi, o pronome pessoal “eu” se refere a Deus. Sobre este assunto ver: M. REMAUD, ‘Le pronom “Moi” Interprété comme nom propre de Dieu dans quelques midrashim sur l’Exode’, Cahiers Ratisbonne n.1,1996, 141-148.

[166]O pronome pessoal “eu” desta frase se refere a presença divina (Shekhina).

[167]b. Suk. 53 a.

[168]b. Suk 53 a.

[169]y. Suk. 22 a.

[170]MekhY. sobre Ex 14,31.

[171]b. BB. 12 a.

[172]t. Sot. 13,4-5.

[173]t. Sot. 10,1.

[174]J.R. LEVISON, “Did the Spirit Withdraw From Israel? An Evaluation of the Earliest Jewish Data”, New Test. Stud, vol. 43, 1997, 49.

[175]m. Sot. 9,15.

[176]H. PARZEN, “The Ruah Hakodesh in Tannaitic Literature”, JQR, 1929-1930, N.S. XX, 51.

[177]m. Sot. 9,15.

[178]J.R. LEVISON, Op. Cit., 48.

[179]MekhY. Wisah 5.(pág 173).

[180]t. Pes. 4,11.

[181]E.E.URBACH, The Sages, Op. Cit., 577

[182]b. Sot. 9 b.

[183]WaR 8,2.

[184]O Pentateuco Samaritano usa o verbo “cmh,,u”.

[185]ShemR. 1,22.

[186]b. Sot. 11 a.

[187]H. PARZEN, Op. Cit., 62-63.

[188]MekhY. Be-Shalah, 6.

[189]ShemR. 22,3.

[190]b. Pes. 117 a.

[191]ShirR. 1,7.

[192]O Espírito santo diz… Cf. WaR. 27,2. A Shekhina diz… Cf. BemR. 4,6.

[193]O Espírito Santo grita… Cf. BerR. 63,11; ShemR. 38,6.

[194]A Shekhina lamenta… Cf. b. Sot. 5 a.

[195]O Espírito Santo responde … Cf. b. Pes. 117 a.

[196]t. Sot. 12,5 e 13,2.

[197]A. MARMORSTEIN, Studies in Jewish Theology, London, 1950, 130-132.

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