Uma janela sobre o mundo bíblico

Das duas fontes da criacão (Gn 1 e Gn 2) qual está correta? Como podemos, hoje, intrepretar a questão do Sábado como repouso?



  • Pergunta de Milton Inguane, Maputo
  • 2939
  • 11/05/2011
Silvia Togneri

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Olá Milton. A respeito das duas descricões sobre a criação que encontramos em Gn 1 e Gn 2, você mesmo já identificou que são duas fontes, dois grupos diferentes, cada um com sua visão para a época.

 

Vejamos: os textos que encontramos na Bíblia a respeito da criação são como uma explicação de diversos grupos, em diferentes épocas, da sua maneira de entender o mundo na época, para responder às perguntas que surgiam naquele momento. É preciso também considerar os gêneros literários usados para comunicar a mensagem que encontramos nos textos da Bíblia, Veja bem que a Bíblia não pode ser lida como um livro de Ciências, de História, de Sociologia, de Geografia, mas sim à luz da fé em que encontramos o registro da revelação de Deus aos seres humanos em uma determinada época da História do povo de Deus. O que lemos na Bíblia a respeito da criação do mundo, da humanidade dá sentido à eles e não tem o objetivo de oferecer uma explicação científica. Quem dá explicação científica são as Ciências.

 

Vejamos algumas considerações a respeito do primeiro relato da criação que está em Gn 1 – 2,4a, que surge a partir de um grupo que foi exilado para a Babilônia entre os anos 586 aC e 536 aC, em outras condições de vida, quer sociais, culturais, religiosas, e inclusive de geografia, lembram e afirmam que o Senhor Deus que os retirou da escravidão do Egito, é o único Deus e Senhor do mundo, em contraposição com as divindades cultuadas na Babilônia, que tinham no rei o seu intermediário.

 

Assim contra as divindades astrais dos Babilônios, percebem que só o Senhor Deus que os havia retirado das mãos do Faraó do Egito é quem tem todo o poder para criar o universo e a humanidade. Por isso em Gn 1,1 a primeira afirmação é que no princípio Deus criou os céus e a terra. E logo depois vem a explicação para eles, de como tudo aconteceu, foi pelo poder da Palavra de Deus que tudo foi criado. Deus fala e sua Palavra faz acontecer e não a palavra das divindades dos Babilônios, os quais cultuavam os astros do céu. Por isso é Deus quem cria o sol e a lua para terem a única função de presidirem o dia e a noite, e não para serem divindades ( cf. Gn 1,14)

 

Ainda a respeito da criação dos seres humanos, foram criados à imagem e semelhança de Deus e por isso todos têm a dignidade e semelhança divina e não apenas o rei dos Babilônios, considerado como oriundo dos deuses. Assim respondem ao que encontraram na época a respeito dos seres humanos que deviam cultuar o rei por ser de origem divina, agora todos tem sua origem divina e por isso são iguais entre si. O que encontramos em Gn 1,1 – 2,4a é  um hino de louvor à criação.

 

O texto de Gn 2,4b – 25,  é fruto de outro grupo e de outra época, em torno do reinado de Salomão, mais ou menos entre os anos 970 aC a 931 aC, em que a questão da produção agrícola era muito importante e por isso a narração evidencia muito a questão que a terra não produzia nada antes de Deus fazer chover sobre ela e que não havia ainda quem a cultivasse, veja como está em Gn 2,5. A vida deste grupo estava diretamente ligada à terra e à sua produção agrícola, por isso o ser humano é retirado desta mesma terra, é dela que Deus forma o ser humano, do pó da terra. Para este grupo o ser humano tem sua matéria prima a partir da terra, e com ela foi moldado por Deus, para trabalhar, cultivar e  guardar ou proteger a terra (o muno) (cf. Gn 2,15).

 

A respeito da questão do sábado para nós cristãos a plenitude de Deus se revela em seu Filho, Jesus Cristo, o qual venceu a morte no primeiro dia da semana, ou seja, no Domingo. Este é para nós o dia a ser comemorado, e celebrado como a revelação plena do amor de Deus. O sábado na Bíblia no primeiro relato da criação tem o objetivo de dizer, pelo grupo que estava na Babilônia, que Deus abençoa e repousa sobre a sua criação no sétimo dia, (Gn2,3) e por isso era preciso  parar para contemplar essa presença divina em toda a criação. Parar e contemplar a ação de Deus na vida do povo de Israel e fazer esta memória a partir da libertação do Egito, no Êxodo. É por isso que ainda hoje nossos irmãos judeus celebram e guardam o dia do sábado como o dia abençoado, do repouso, da presença de Deus sobre toda a criação. Para eles é o dia pleno de paz, do Shalom, dia da festa da presença de Deus sobre tudo o que foi criado.  Como já dito para nós cristãos a revelação e a plenitude de Deus está em Jesus de Cristo, no Domingo, o primeiro dia semana em que Ele ressuscitou. Seria muito bom que todas as pessoas cristãs realmente celebrassem com muita alegria, e fizessem a memória da Ressurreição de Jesus, a cada Domingo.   

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