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Em busca de Chaves de Leitura para Entender a Escatologia Paulina (Segunda Parte)



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  • 21/05/2011
Odalberto Domingos Casonatto

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Nesta segunda parte da Escatologia Paulina abordaremos outra chave de leitura que nos ajudará a conhecer a Escatologia Paulina encontrada ao longo de seus escritos. Já mostramos a fé na pessoa de Jesus morto e ressuscitado como ponto de partida e apontamos como a primeira chave de leitura. Ante da abordagem da segunda chave de leitura, faz-se mister, a lembrança da situação concreta de Paula, isto é, o ambiente, pessoa e doutrina de São Paulo. O que representou o seu encontro com Jesus Cristo, a caminho de Damasco no seu pensamento, na elaboração das epístolas e de sua escatologia.

 

Segunda Chave de Leitura: Em Cristo Jesus, o Cristão é nova criatura.

 

Devido à culpa e o pecado de Adão, o mundo separou-se de Deus e foi destinado a corrupção. Entretanto Deus para salvar este mundo; que era escravo do pecado e da corrupção, teve um plano de amor verso a humanidade. Escolheu para si um povo; o Povo de Deus. Fez com este povo diversas Alianças. A Aliança Sinaítica, feita com Moisés, abriu um caminho novo para a humanidade. Deus se insere na História, e por meio de um povo, salva a humanidade e o cosmos da perdição do pecado da corrupção e destruição.

O problema fundamental para o povo Judeu, como para Paulo antes da sua conversão era a Salvação. Era necessário passar da prática do mal (afastamento de Deus) a amizade com Deus. Na vida do Judeu a lei tinha um rolo decisivo. A prática da lei passa o homem do pecado à justiça, e dá acesso ao homem aos bens que tinham sido perdidos. A nova Aliança engloba o renovamento moral da pessoa e uma nova criação, que completará a obra do Criador.

Esta concepção de salvação judaica, que Paulo possuía, sofre o impacto da conversão a pessoa de Jesus. Paulo considera Cristo o Messias e anuncia este fato novo às Comunidades. A Escatologia Paulina é construída com base na antiga experiência de salvação e acrescida da nova experiência em que reconhece em Jesus Cristo o Messias. Em Jesus a era messiânica escatológica se inaugura. O Cristo crucificado e ressuscitado é ponto central. Os discursos de Paulo e todo o seu sistema de pensamento teológico têm raízes no fato da Morte e Ressurreição de Jesus. Paulo descobre na passagem da morte a vida que se operou na Ressurreição de Cristo, a recuperação do plano divino, a passagem definitiva da morte a era escatológica de vida. Para Paulo a ressurreição realiza no corpo de Cristo a nova criação já anunciada pelos profetas, e esperada pelo Povo de Deus. A nova criação, que tem origem na ressurreição de Cristo, se estenderá a todos os homens e ao cosmos, desde que se unirem a Cristo, buscando a salvação na esperança e na expectativa da manifestação de Cristo no final dos tempos.

O pensamento Escatológico encontrado nesta segunda chave de leitura mostra que o cristão é nova criatura, reveste-se de uma importância atual muito grande, pois Paulo evoca que com a morte e ressurreição de Jesus, torna possível um renovamento do homem junto com o meio em que e vive, isto é, a renovação acontece de forma global e inteira: homem e cosmos tornam-se uma nova criatura.

 

Pelo Batismo o Cristão Participa da Morte e Ressurreição de Cristo

 A Morte de Jesus e sua Ressurreição pela força do Espírito puseram fim ao mundo antigo. Um novo mundo se instaura, a era escatológica tem seu início. Os homens também têm acesso a esta nova era escatológica, e a essas realidades. O Batismo faz com que o ser humano morra e ressuscite em Cristo, se revista de um homem novo animado do Espírito de Cristo. Uma subdivisão em dois pontos com respeito este tema poderá nos ajudar na compreensão das idéias que aparecem: 1) Principais textos que abordam a temática da Ressurreição nas cartas paulinas, 2) como o Cristão participa da Morte e Ressurreição.

O fato da Ressurreição de Jesus aparece nos escritos paulinos desde as primeiras cartas. Na primeira carta aos Tessalonicenses (escrita no ano 51 d.C.), Paulo respondendo a preocupação de alguns convertidos da Comunidade de Tessalônica que acreditavam que os defuntos estavam em desvantagem, pois estariam ausentes na vinda do Senhor, Paulo reafirma o ensinamento da Ressurreição dos Mortos. Os mortos Deus os levará junto: “Se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, assim também os que morreram em Jesus Deus há de levá-los em sua companhia”. Nesta resposta de Paulo encontramos três fatos que ocorrerão na Parusia: 1) Ressurreição, 2) O encontro com Jesus, 3) A vida eterna com ele.

A preocupação pastoral de Paulo transparece no texto quando ele afirma que a participação da Ressurreição futura gloriosa, nesta vida é estar ligado a pessoa de Jesus e morrer em união com Cristo. A expressão de Ts 4,14 afirma: “assim também os que morreram em Jesus, Deus há de levá-los em sua companhia”, em outras palavras os que morrerem “por Jesus”, os mortos “em Cristo”,supõe para participar a ressurreição de Jesus estas condições: 1) Estar durante a vida unido com Cristo, 2) não ter interrompido no estágio intermediário de vida a comunhão com aquele que começou a vida divina, 3) ter deixado livre a ação do Espírito Santo. O texto de Rm 8,11 resume a idéia: “E se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos habita em vós, aquele que ressuscitou Cristo Jesus dentre os mortos dará vida também a vossos corpos mortais, mediante o seu Espírito que habita em vós.

Em conclusão: Os mortos que viveram em comunhão com Cristo ressuscitarão, e em seguida os que permanecerem juntos com os ressuscitados, se reunirão todos em Cristo. No ano 56 d.C., Paulo se defronta na Comunidade de Corinto com aqueles que não acreditam na Ressurreição dos Mortos, e que com esta atitude negativa frente ao fato da Ressurreição de Cristo, ameaçam a vida religiosa de toda a comunidade. Paulo em 1Cor 15,12 dá uma resposta pastoral prática uma orientação a vida da Comunidade de Corinto. O cristão pelo batismo participa da Morte e da Ressurreição de Cristo, este fato é irrefutável. Se negarmos a ressurreição dos mortos, negamos também à vida de ressuscitados dos batizados. Um fato é conseqüência do outro.

A estes negadores da Ressurreição dos mortos, Paulo dá uma resposta e começa com o próprio fato da ressurreição de Cristo, de suas aparições depois da Morte e Ressurreição. Isto que ele prega a “Ressurreição”, ele recebeu da tradição, e é em comum acordo com os Apóstolos (1Cor 15,1-11), e afirma “se Cristo ressuscitou dos mortos, sem dúvida a ressurreição dos mortos deverá acontecer. Caso contrário, aquilo que cremos, é sem consistência. Outro argumento decisivo e central para a Ressurreição dos mortos nos mostra Paulo em 1Cor 15,20-23: 1) Cristo ressuscitou como primícia, 2) ressuscitarão os que morreram em união com ele, 3) os que pertencem a Cristo por ocasião da sua vinda.

No Novo Testamento ainda outros textos vem ao encontro da participação do cristão na Morte e Ressurreição de Jesus (2Cor 1,9; 2Cor 4,14; Rm 6,1-11; Rm 8,11-23; Ex 2,6; 2Tm 2,11).

Com estes textos, de Ts e Cor, se tem uma idéia do como o Apóstolo Paulo relaciona o fato da Ressurreição de Cristo com a Ressurreição dos Mortos. Um segundo ponto se faz necessário abordar: Paulo vê como dado de fé a ressurreição de Cristo na vida do cristão. Ele é participante da Morte e Ressurreição pelo Batismo e impulsionado pela ação do Espírito Santo.

A vida religiosa do batizado é estar em contínua comunhão com Cristo, e viver o presente escatológico que se direciona ao futuro da revelação gloriosa de Jesus Cristo no final dos tempos.Este participar da Ressurreição de Cristo da direito ao primeiro passo, a primeira realização daquela que será a realização última, completa e perfeita a ressurreição de Cristo, a ressurreição de nosso corpo. “Aqueles que pertencem a Cristo” (1Cor 15,23), porque estão em comunhão com ele ressuscitarão. Outro texto da carta aos Romanos 6,1-11, reforça a mesma idéia, “aqueles que participam na vida de Cristo, tem em si o germe da futura ressurreição” Porque se nos tornamos uma coisa só com ele por uma morte semelhante à sua seremos uma coisa só com ele também por uma ressurreição semelhante a sua.

Tudo é devido à ação do Espírito Santo: a Ressurreição, a vida que esta trouxe aos homens, a redenção, os dons do Espírito Santo, dos quais os cristãos já possuem as primícias. Os textos das cartas paulinas abordam todos estes aspectos da participação e da ação do Espírito Santo. Assim Rom 8,11: “E se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos habita em vós, aquele que ressuscitou Cristo Jesus dentre os mortos dará vida também a vossos corpos mortais, mediante o seu Espírito que habita em vós” Se “nos sofremos e gememos interiormente” é porque já em nós existe “as primícias do Espírito”.

Em conclusão podemos dizer que a Ressurreição acontecerá em 4 etapas sucessivas: 1) a Ressurreição de Jesus; 2) a Ressurreição dos cristãos no Batismo; 3) a Ressurreição moral, isto é a vida e a conduta dos cristãos; 4) a Ressurreição gloriosa.

 Recebe a Liberdade

 A mensagem paulina sobre a liberdade poderia ser resumida na afirmação de Gl 5,1: “É para a liberdade que Cristo nos libertou”. Porem, em todas as Cartas Paulinas encontramos o tema da liberdade: Rm 6,15; 6,18-22; 7,lss; 8,2; Gl 2,4; 3,3; 3,13; 4,5; 5,13; 1 Cor 6,20; 7,23; 9,1; Cl 2,20-22. Paulo coloca em evidência o caráter escatológico da libertação: Deus salva mediante a morte e ressurreição de Jesus (Rm 5,10).

A libertação de Jesus atua nos homens e na humanidade através do dom do Espírito, que é o Espírito de Cristo: “Portanto, não existe mais condenação para aqueles que estão em Cristo Jesus. A lei do Espírito te libertou da lei do pecado e da morte” Ora o Espírito Santo é um dom escatológico por excelência, prometido pelos profetas (Jl 3,1-5), para o tempo definitivo. São Paulo fala do “Espírito Santo da promessa” (Ef 1,13). A presença do dom do Espírito Santo na vida dos cristãos é sinônimo de liberdade, “Pois o Senhor é o Espírito, e onde se acha o Espírito do Senhor aí está a liberdade” (2Cor 3,17).

A liberdade é um dom e uma graça dado ao cristão por ato divino de libertação: “a criação é libertada da escravidão da corrupção para entrar na liberdade dos filhos de Deus” (Rm 8,21), e também por obra de Deus fomos libertados do pecado, “e assim livres do pecado (por obra de Deus)” (Rm 6,18.22) para viver a liberdade na nova lei do amor vós fostes chamados a liberdade. Entretanto, que a liberdade não sirva de pretexto para carne, mas pela caridade, colocai-vos a serviço uns dos outros. Deus nos liberta da corrupção do pecado, da escravidão da Lei e em conseqüência da morte. A libertação que Deus opera tem uma dimensão cósmica: homem, natureza e cosmos juntos se salvarão (Rm 8,17-25).

Paulo fala em Libertação com uma prospectiva individual. Todavia, o ser cristão, não vive isoladamente. Ser cristão é pertencer, antes de tudo ao corpo de Cristo, que é a Igreja. O Cristão mediante o batismo é “livre do mundo presente mau, segundo a vontade do nosso Pai” (Gl 1,4). Este mundo presente esta em oposição ao mundo “messiânico” que esperamos. Bem como mundo presente, quer dizer “Reino de Satanás”, considerando “deus deste mundo” (Ef 2,2; 6,12; 2Cor 4,4), e também reino do pecado e da Lei. O Cristão, por meio de Jesus Cristo, em sua morte e ressurreição, é liberto de todos os tiranos deste mundo, e passa a participar no seu Reino e no Reino de Deus, na espera de uma libertação total na Ressurreição corporal no final dos Tempos (Rm 5-8).

 

 Em conclusão:De que escravidão o cristão é libertado?

 O cristão é libertado fundamentalmente da idolatria: “Outrora, é verdade, não conhecendo a Deus, servistes a deuses, que na realidade não o são” (G1 4,8). O mundo dos ídolos falsos abrange a ganância de ter, a luxúria, o egoísmo etc. Jesus nos libertou de todas as formas de dominações, de todas às formas de “estruturas de domínio”, e nos inserio no Reino de Deus, Reino de liberdade, que vem do seu Espírito.

Na carta aos Efésios no capítulo 2,1-3, Paulo descreve a escravidão do homem pecador: “Vós estáveis mortos em vossos delitos e pecados. Nele vivíeis outrora, conforme a índole deste mundo, conforme o príncipe do poder do ar, o espírito que agora opera nos filhos da desobediência. Com eles, nós também andávamos outrora nos desejos de nossa carne, satisfazendo às vontades da carne e os seus impulsos, e éramos por natureza como os demais, filhos da ira”. Jesus nos liberta de todas estas potências opressoras existentes na sociedade pagã, e nos introduz na Igreja em um novo espaço de vivência da liberdade e da reconciliação. A Igreja é o lugar aonde Deus quer criar uma sociedade reconciliada e humana: “Se alguém está em Cristo é nova criatura”. Passaram-se as coisas antigas; eis que se fez uma realidade nova. Tudo isto vem de Deus que nos reconciliou consigo por Cristo e nos confiou um ministério da reconciliação.

Paulo em seus escritos deixa claro, que a fonte autêntica da libertação do homem, é o espírito de Jesus. Este Espírito renova a vida dos homens passando-o de um mundo de pecado, ídolos e corrupção a homens novos e livres, que por sua vez construirão umasociedade livre segundo o Cristo e libertadora.

 Portanto podemos afirmar que o pensamento Escatológico Paulino que encontramos nesta segunda chave de leitura mostra que o nascimento do cristão acontecido no Batismo é dom escatológico que torna o batizado, homem e mulher Nova Criatura, e já aconteceu com a morte e ressurreição de Jesus, e mais ainda a renovação do homem leva junto o meio em que êle vive, de forma global e inteira: homem e cosmos tornam-se uma Nova Criatura. Alia-se a esta Nova Criatura nascida no ato do batismo o dom da Liberdade, como dom escatológico renovador e impulsionado pelo Espírito Santo.

Leia a primeira chave de leitura

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