Uma janela sobre o mundo bíblico

Maria, Nossa Senhora e Mãe de Deus



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  • 30/01/2012
Alessandro de Azevedo Moreira Moreira

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“Entrando, o anjo disse-lhe: Ave, cheia de graça, o Senhor é contigo. Perturbou-se ela com estas palavras e pôs-se a pensar no que significaria semelhante saudação. O anjo disse-lhe: Não temas, Maria, pois encontraste graça diante de Deus.” (Lucas 1,28-30).


Quando se fala em Maria hodiernamente dentro do cristianismo católico, no primeiro momento, para algumas pessoas que não partilham da mesma doutrina, tem-se a impressão de que está se falando de um tópico completamente estranho a essa religião; algo que foi inserido no cristianismo oriundo de não sei lá onde, com objetivos também não muito claros e, além disso, copiados de cultos pagãos. 

 

Dentro da piedade popular, Maria tem um viés especial e se apresenta como santa poderosa e mãe de todas as pessoas; nossa mãe divina. As manifestações devocionais marianas estão agregadas a pedidos de auxílio, de conforto, de iluminação e de fé. É possível perceber que a Virgem Maria é procurada também dentro do contexto de maternidade ideal como educadora de Jesus e sua primeira discípula.


Dentro dos primeiros séculos de cristianismo, é possível encontrar em documentos da patrística, homilias sobre Jesus que mencionavam o nome de Maria. Dentro deste contexto de caráter essencialmente cristológico é que nascem os dogmas da maternidade e virgindade de Nossa Senhora. Posteriormente na Idade Média, há um crescimento da piedade mariana, com hinos litúrgicos e tem-se uma visão mais simbólica do que sistemática.


O primeiro tratado sobre Maria surge no século XVI realizado por Francisco Suarez com a linha mais triunfalista e se utilizando de silogismos e argumentos de conveniência em reação a Deforma Protestante. Na época do Iluminismo aflora uma mariologia devocional, de viés afetivo, aonde são mesclados elementos racionais e simbólicos.


O Vaticano II na Lumen Gentium alberga Nossa Senhora, dentro do mistério de Jesus e sua Igreja; ela ocupa um lugar especial.  Hodiernamente, os estudos sobre Maria estão vinculados em triângulo que tem a seguinte configuração: vértice a) dados bíblicos; vértice b) dogmas marianos; e vértice c) culto a Maria.

 

É de suma importância esta posição para que se tenha o real papel de Nossa Senhora no cristianismo. Tendo como finalidade precípua a criação de uma abertura mais pontual em relação ao ecumenismo. O grande problema se dá em relação aos nossos irmãos evangélicos que por falta de informação bíblica vinculada a questões históricas e de tradição judaica, minimizam quando não comparam o culto a Mãe de Deus a práticas pagãs.


Ao se fazer um estudo sério dos cultos das deusas pagãs, o que se mostra de fato são algumas poucas características como virgindade e maternidade; mais nada em comum com a relação católica com Nossa Senhora. Tal relação com Maria não pode ser comparada à adoração profana e corrompida que era oferecida no paganismo.


Em nosso caso, o que existe é um reconhecimento real de sua importância e um culto de respeito e honra a Mãe de Deus feito homem. O catolicismo não alimenta o culto de outras religiões em detrimento à mensagem de seu Filho. Maria está próxima apenas a este caminho e somente deste posto é que encontramos sua referência: seu Filho Jesus.


Nossa Senhora tem na Bíblia um lugar discreto, mas não menos especial. Ela aí é representada toda em função de Cristo e não por si mesma. Mas sua importância consiste na estreiteza de seus laços com Cristo. Maria está presente em todos os momentos de importância fundamental na história da salvação. Presença leve e serena, na maior parte das vezes, silenciosa, animada pelo ideal de uma fé pura, e de um amor pronto a compreender e a servir aos desejos de Deus.


É muito comum se ouvir que os evangelhos nada falam de especial em relação a Nossa Senhora ou então buscar uma visão puramente piedosa dos mesmos. Isto é oriundo de uma leitura descontextualizada, ingênua ou de outro lado puramente devocional. A interpretação é trabalho sério que tem como ferramenta maior, as chaves da hermenêutica; para se conseguir de fato, alcançar o verdadeiro significado do contexto em que se está estudando o tema e não dar atenção a aspectos de proselitismo caduco.


Se pegarmos os evangelhos como base é a partir de São Mateus que se começa um estudo de Maria; ele a apresenta como a mãe virgem do Ungido, com uma grande aproximação de sua pessoa, mostrando uma ligação com o destino de seu filho.

 
O Evangelho de São Lucas, mostra varias facetas da Virgem Maria: discípula que dá bons frutos, fiel e obediente a Deus, peregrina na fé, sinal de escolha preferencial de Deus, a mulher pobre de Nazaré, dispersora dos soberbos de coração, profetisa da nova humanidade e mulher de todos os tempos. Como não acreditar que ela em posição diferente da nossa?


Em São João, ela é colocada no início e no fim da atuação de Jesus; ele demonstra assim que Nossa Senhora ao se fazer presente nos momentos importantes tem um papel singular e não comum. Nas Bodas de Caná de acordo com o contexto judaico da época, quando Jesus a chama de Mulher - o que para os desavisados é uma prova de sua falta de importância e de sua pertença ao lugar comum- na realidade, se mostra através do estudo sério, que naquela época para os profetas usavam a imagem da mulher para representar o povo de Deus em relação ao Senhor; Jesus não a ofende, ao contrário, demonstra o seu valor como mulher e figura efetiva e simbólica da comunidade cristã.  


A história do dogma e da teologia testemunham a fé e a atenção incessante da Igreja em relação à Virgem Maria e à sua missão na história da salvação. Os primeiros símbolos da fé e, sucessivamente, as fórmulas dogmáticas dos Concílios de Constantinopla (381), de Éfeso (431) e de Calcedónia (451) testemunham o progressivo aprofundamento do mistério de Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, e paralelamente a progressiva descoberta do papel de Maria no mistério da Encarnação; uma descoberta que conduziu à definição dogmática da maternidade divina e virginal de Maria.


Jesus nasceu de Maria para se fazer homem. Se ela fosse um ser divino, como teria ele, Jesus, derivado sua natureza humana a partir dela, Maria? A maioria dos cristãos diria que é impossível separar a divindade de Jesus de sua humanidade. Ele é, ao mesmo tempo, totalmente Deus e totalmente homem. Há uma união inseparável destas duas naturezas de Deus e Homem em Jesus Cristo. O Título Theotókos, se dá porque Jesus é Deus e ela é sua mãe. Já que as duas naturezas de Jesus são inseparáveis, o que há de errado nisso? Isabel disse: Quem sou eu para que a Mãe do meu Senhor venha me visitar? Logo, este não é um título pagão, mas sim um título bíblico. A palavra grega que é usada para Nossa Senhora é: "kekarítomenê". A tradução deste vocábulo mais precisa, é: "sempre cheia de graça".


Temos que observar que foi Deus e não um homem, ou demônio, que envia um mensageiro para dizer isto a ela. Dentro do contexto em que estava inserido é um título atemporal de permanência.


Outro ponto que se debate muito é a questão da Intercessão que é confundida por alguns como Mediação. São Paulo em sua carta a Timóteo (I Tim 2:5) diz o seguinte: “Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem”. A Igreja Católica afirma que as graças são oriundas de Jesus, como mediador primário uma vez que nós também podemos nos dirigir a Deus diretamente.


 A interpretação correta desta passagem é que nós precisamos ir a Jesus. Agora isto não implica que somente a Jesus até porque ele próprio nos deus a Oração do Pai Nosso. E São Paulo em sua carta aos Romanos (Rom 15,30) também diz: "Rogo-vos, irmãos, por nosso Senhor Jesus Cristo e pelo amor do Espírito, que luteis juntamente comigo nas vossas orações por mim a Deus".


Em relação aos vocábulos se faz necessário uma pequena demonstração para que entenda de uma vez por todas a diferença.

Mediador: Aquele que media duas partes. Um exemplo prático é um adolescente que quer pedir ao pai o carro emprestado, mas não tem coragem ou não tem intimidade de pedir diretamente. Então, ele pede à mãe e esta faz o pedido ao pai. Esquematicamente: Filho => Mãe => Pai

Intercessor: Aquele que intercede, ajuda. Adotando e adaptando o exemplo acima, o filho quer o carro emprestado e pede diretamente ao pai. Para tentar convencer o pai, ele pede a intercessão (ajuda) da mãe. Assim: Filho + Mãe => Pai

 

Em Maria, com efeito, tudo é relativo à Cristo. Apenas no mistério de Cristo se clarifique plenamente o seu mistério que, quanto mais a Igreja aprofunda o mistério de Cristo tanto mais compreenda a singular dignidade da Mãe do Senhor   e o seu papel na história da salvação. A sua presença diante da cruz, é sinal que o amor persevera. Devemos, contudo, nós católicos, evitar os exageros que criam abismos inclusive em relação ao que a própria Igreja Católica diz e procurarmos ler os documentos oficiais para que possamos ter uma devoção correta, que nos conduza sempre a Deus.

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