Uma janela sobre o mundo bíblico

O que Deus quer transmitir em Lamentações 2,1-3?



  • Pergunta de Michelle Barbosa, Ourinhos
  • 22640
  • 05/02/2012
Luiz da Rosa

Leia mais sobre Exílio babilônico | Lamentações


Não é fácil entender um texto isolado do seu contexto. Primeiro de tudo, Michelle, você precisa entender bem qual é a situação que está por trás desse pequeno livrinho, uma vez atribuído à Jeremias. O tempo histórico é o mesmo de Jeremias, mas provavelmente não é ele o autor do texto.

 

O período histórico é da destruição de Jerusalém, do Reino de Judá, pela Babilônia, quando o povo foi conduzido ao exílio na Babilônia. Cronologicamente, nos Situamos há um pouco mais de 500 anos antes de Cristo. É um período muito duro para os judeus. Deus havia feito de tudo para conduzir, pelas mãos de Moisés, o povo para a Terra Prometida. Agora Deus permitia que essa Terra fosse invadida por um rei estrangeiro e seus habitantes fossem deportados, abandonando o templo destruído. É uma crise muito grande! A estima do povo em relação a Yahweh titubeia. Os profetas dizem que tudo aquilo acontecia por causa do comportamento do povo, que desobedecera a Deus. O Exílio é visto como tempo de purificação. De fato, nas palavras proféticas, há sempre esperança.

 

É dentro desta ótica que você precisa ler Lamentações 2,1-3:

2,1: Como o Senhor cobriu de nuvens, na sua ira, a filha de Sião! Precipitou do céu à terra a glória de Israel e não se lembrou do estrado de seus pés, no dia da sua ira.
2,2: Devorou o Senhor todas as moradas de Jacó e não se apiedou; derribou no seu furor as fortalezas da filha de Judá; lançou por terra e profanou o reino e os seus príncipes.
2,3: No furor da sua ira, cortou toda a força de Israel; retirou a sua destra de diante do inimigo; e ardeu contra Jacó, como labareda de fogo que tudo consome em redor.

 

Esses textos representam uma interpretação do comportamento do Senhor diante do rei estrangeiro que ocupa as terras de Judá, que ocupa e destroi Jerusalém. O povo de Israel era acostumado a ver Yaweh como um Deus que combatia o inimigo ao seu lado; um Deus "guerrilheiro". Invés, no caso da ocupação de Israel pelo império da Babilônia, Deus não combate com o povo; parece, invés, que é Ele que está destruindo o povo, as suas cidades (filhas), as suas fortalezas. Tirando a sua força (a sua destra) que protegia o povo, o inimigo tem estrada limpa e pode combater, sem resistência, contra o reino de Judá.

 

Dessa leitura deriva, muitas vezes, uma certa teologia da retribuição que pode causar danos: Os fiéis se comportam mal e Deus se retira da sua presença, deixando espaço aberto à desgraça, às doenças, à pobreza, etc.

Sabemos muito bem que toda desgraça não provém de Deus, mas derivam das nossas escolhas. Não é Deus que se afasta de nós, mas somos nós que nos retiramos da sua presença. É verdade que na desgraça pode existir um tempo propício para a meditação e para a conversão, mas ela nunca é causada por Deus.

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