Uma janela sobre o mundo bíblico

Porque o Grego bíblico difere do Grego clássico?



  • Pergunta de Edmario , São Paulo / SP
  • 21578
  • 06/08/2012
Odalberto Domingos Casonatto

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Olá Edmario de São Paulo!

 Sobre este assunto tem muito texto e explicação por escrito. Vou colocar aqui alguns elementos que possam dar uma resposta satisfatória a pergunta.

Sabemos que inicialmente a linguagem que foi usada para a divulgação da Boa Nova de Jesus foi o aramaico. Língua falada popularmente pelos judeus da Palestina, uma vez que o hebraico era uma língua do culto religioso no templo de Jerusalém e da palavra de Deus. Assim foi com o primeiro texto escrito do evangelho de Mateus, o chamado Mateus aramaico, depois passou a ser escrito em grego popular ou chamado grego da koiné. O uso do grego da koiné tornava mais fácil a divulgação da Boa Nova, e se abria para o mundo dos gentios que não conheciam o aramaico. Este grego da koiné era o usado pela população como linguagem comercial e de comunicação entre as pessoas. Foi o conhecido fenômeno da helenização que causou esta divulgação do grego da koiné ou grego popular. A cultura grega se impunha a cultura dos dominadores romanos.

Na época de Jesus não foi diferente, foi assim mesmo. O Latim língua dos conquistadores era usado apenas nas comunicações oficiais, entre as províncias romanas, (por exemplo, divulgação dos decretos imperiais) mas de resto imperava a língua grega popular.

Para dar um reforço maior na resposta coloco como fonte de conhecimento as palavras do linguista Antônio Freire, jesuíta português, autor de inúmeras obras de grego clássico para o ensino em Portugal. Penso que poderá nos ajudar sua descrição sobre a diferença entre o grego da koiné usada nos escritos do Novo Testamento e o grego clássico da literatura grega.

 AS PRINCIPAIS DIFERENÇAS DA KOINÉ PARA O CLÁSSICO

 Sobre este assunto conferimos a Antônio Freire, S.J. em sua Gramática Grega:

“Todos os livros do Novo Testamento (Evangelhos, Atos dos Apóstolos, Epístolas, e Apocalipse), à exceção do Evangelho de S. Mateus, foram redigidos primeiramente em grego. O grego bíblico, porém, difere em muitas particularidades do grego clássico.Com a expansão da civilização helênica pelo mundo oriental, a língua grega difundiu-se tão universalmente através dos povos conquistados, que veio a chamar-se língua comum ou koiné (dialeto).A koiné era um idioma eclético (vinda de várias fontes), proveniente da fusão dos vários dialetos. Predominava, contudo, o dialeto Ático.Os livros do Novo Testamento foram escritos não na koiné erudita usada pelos escritores aticistas, como Plutarco e Luciano, mas na koiné   popular, bastante diferente da primeira.Distingue-se, no uso e seleção das palavras, S. Lucas e S. Paulo. As obras de maior perfeição estilística são a “Epístola aos Hebreus” e a “Epístola de S. Tiago; as que mais se afastam da pureza de linguagem são o Evangelho de S. Marcos e as obras de S. João, sobretudo o Apocalipse”.

Poderíamos colocar aqui uma serie de diferenças no uso correto e gramatical do grego popular e grego clássico. A construção das frases e o uso mais frequente de construções gramaticais. Penso que este aspecto poderia ser visto em outra oportunidade. A resposta colocada acima poderá fornecer elementos suficientes para a compreensão.

Outro linguista B. P. Bittencourt deixa importantes esclarecimentos resumindo a questão:

“Talvez o termo que abrange a área mais extensa na Koiné é a ‘simplificação’. Sentenças simples e curtas (note o estudante como é rebuscado e relativamente longo o prólogo de Lucas de tendência clássica) que suplantavam a complexidade da sintaxe clássica. A glória do Ático era a riqueza de conexões destinadas expressar as mais delicadas nuanças do pensamento nas relações das cláusulas. O mercador da praça de Alexandria ou o soldado romano estacionado na Síria não possuíam essa habilidade. É a diferença entre a especulação de Platão e a linguagem simples de um homem falando de um barco no mar da Galiléia; e deste, falando do barco e do campo, passa-se a outro que se endereçava ao povo na praça do mercado das cidades grandes".

 

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