Uma janela sobre o mundo bíblico

Como ler a Bíblia



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  • 01/09/2012
Silvia Togneri

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“Toda escritura é inspirada por Deus e é útil para ensinar, para argumentar, para corrigir, para educar conforme a justiça” (2 Tm 3,16).

Estamos nos aproximando de Setembro, mês que na Igreja Católica é dedicado à Bíblia, e quando somos convidados a ter um encontro mais efetivo com ela. Porém, às vezes, muitas pessoas ainda não conseguem efetuar uma leitura adequada dos textos bíblicos e, por isso, apresentamos alguns indicativos que poderão ajudar para que essa leitura seja mais bem compreendida e assim atinja a sua finalidade, que os seres humanos vivam conforme a justiça no amor de Deus.

 

Indicativos para uma boa leitura da Bíblia:

- Com base na vida, e não desligada da vida, cuidar para não tomar tudo no sentido espiritual;

Ao nos aproximarmos dos textos bíblicos precisamos entender que eles falam da vida, da experiência que um grupo teve de Deus agindo em sua vida, porque Deus se revelou na história concreta de um povo, na vida desse povo. “Estabeleço minha aliança entre mim e ti e teus descendentes para sempre, uma aliança eterna, para que eu seja Deus para ti e seus descendentes” (Gn 17,7). Também procurar perceber a época histórica à qual o texto se refere, com todas as suas características (sociais, econômicas, culturais, políticas e religiosas) relacionando-o com a situação do momento em que ele foi escrito.

-Ter sempre em vista a grande mensagem libertadora, a partir dos empobrecidos;

Na História da Salvação os pobres e os excluídos são aqueles a quem Deus primeiramente destina sua ação libertadora. Como por exemplo, em Ex 3, quando eles gritam aflitos, Deus ouve esse grito e sente também o que eles sentem, e, por isso, age para mudar a situação deles. “Eu vi a opressão de meu povo no Egito, ouvi o grito de aflição diante dos opressores e tomei conhecimento de seus sofrimentos” (Ex 3,7).

- Não fazer oposição entre o Primeiro e o Segundo Testamento, pois há uma continuidade da Aliança de Deus com a humanidade, numa visão nova a partir de Jesus;

Precisamos perceber que o caminhar de Deus com a humanidade é contínuo, desde a criação do mundo, dos primeiros seres humanos. Ele está sempre conosco e não nos abandona. “Não penseis que vim abolir a Lei e os Profetas. Não vim para abolir, mas para cumprir” ( Mt 5,17).

- Ler a Bíblia preferencialmente em comunidade;

Isso porque os textos foram construídos em comunidade, foi a vida em comunidade que os ajudou a perceberem a ação de Deus e, por isso, a memória dessa ação foi guardada e lembrada pela comunidade. Também, porque quando lemos a Bíblia na comunidade a percepção da ação de Deus pode ser mais ampliada. “Nós éramos escravos do Faraó no Egito, e o Senhor nos tirou do Egito com mão poderosa” (Dt 6,21).

- Na perspectiva do Reino de Deus, no seguimento efetivo do anúncio de Jesus para a transformação da sociedade, e não vendo Deus como milagreiro que substitui a responsabilidade humana;

A conversão é essencial para perceber o Reino de Deus inaugurado por Jesus, e aderir efetivamente a ele. Somos responsáveis por todas as nossas ações, e não podemos ficar de braços cruzados esperando que apenas Deus corrija as injustiças que, muitas vezes  cometemos. “A partir de então, Jesus começou a anunciar: Convertei-vos, pois o Reino dos Céus está próximo” ( Mt 4,17).

- Ver a Bíblia como uma inspiração para nossa vivência hoje, e não como livro de receitas prontas.

Muitas vezes algumas pessoas pensam que na Bíblia há receita para tudo. Encontramos nela a luta de grupos em seguirem as orientações de Deus para ter uma vida digna, com amor, paz, justiça, alegria e fraternidade, as quais dependem de nossa efetiva adesão ou não a elas. “Seremos justos se guardarmos estes mandamentos e os observarmos diante do Senhor nosso Deus, como ele nos ordenou” (Dt 6,25). Também seguindo o pedido de Jesus: “Amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar uns aos outros. Nisto conhecerão todos que sois os meus discípulos: se vos amardes uns aos outros” (Jo 13,34-35).

- Ler pequenos trechos e refletir muito sobre eles;

Pequenas frases podem ser mais facilmente refletidas e guardadas para a vida. Como por exemplo: “Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças” (Dt 6,5); “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim” (Jo 14,6).

- Prestar atenção nos verbos, nas ações dos personagens e nas palavras que carregam grande significado tais como: alegria, amor, esperança, água, pão, partilha, solidariedade, perdão, misericórdia, justiça, luz, medo, fome, sede...: “Mas era preciso festejar e alegra-nos, porque este teu irmão estava morto e tornou a viver, estava perdido e foi encontrado” ( Lc 15,32).

- O que lemos na Bíblia é vida de gente como nós;

De pessoas que sofreram com as dificuldades do dia a dia, mas que se esforçaram para permanecerem fiéis a Deus e aos seus mandamentos, “Não se vive somente de pão, mas de toda palavra que sai da boca de Deus” (Mt 4,4// Dt 8,3) e também: “É para liberdade que Cristo vos libertou. Ficai firmes  e não vos deixeis amarrar de novo ao jugo da escravidão” (Gl 5,1).

- Na Bíblia encontramos orientações para nossa vida e nossa fé em Deus e não no que se refere a questões das ciências;

A Bíblia não é um livro de Geografia, História ou Ciências, embora ela contenha algumas referências quanto a cidades e épocas da história, não pode ser lida apenas sob esse aspecto. A sua principal intenção é comunicar a ação de Deus em favor da humanidade, desde a criação do mundo aos nossos dias, porque Deus atua sempre em todos os tempos. “Jesus, porém deu-lhes esta resposta: Meu Pai trabalha sempre, e eu também trabalho” (Jo 5,17).

Queremos retomar as palavras de 2 Tm 3,16, lembrando a importância das Sagradas Escrituras, pois elas visam formar todo ser humano para viver conforme a justiça, porque esse é o desejo de Deus, como o Sl 37 nos lembra:

“Foge do mal e faze o bem, para viveres para sempre.

Pois o Senhor ama a justiça, não abandona seus devotos.

Os justos possuirão a terra, e nela para sempre vão morar.

A boca do justo profere sabedoria, sua língua fala justiça.

A lei do seu Deus está no seu coração, seus pés não vacilam” (Sl 37, 27-31).

Porque “o justo viverá pela sua fé”. (cf. Hab 2,4).

 

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