Prezado Tiago, sabemos que a questão das imagens é muito sentida no Brasil, pois convivemos com duas tradições diferentes. De uma parte os católicos têm seus santos, que veneram como pessoas exemplares que podem modelar a conduta de outros cristãos no caminho para Deus. Da outra parte estão as confissões evangélicas que herdam a tradição protestante que condena o culto das imagens, sobretudo a partir de Calvino.

O debate, todavia, é anterior à Reforma protestante. De fato, já em 787 foi convocado um concílio para discutir sobre o assunto, em Nicéia. A causa do debate foi o imperador Leão III, que proibiu o culto das imagens. E não só: perseguiu quem defendia esse culto e destruiu muitas iconas, representações típicas do Oriente. A decisão do Concílio foi favorável ao culto das imagens e argumentou a própria posição dizendo que através das imagens, quem as contempla, é convidado a imitar os personagens que nelas são representados. Na época de Reforma a questão voltou à tona, sobretudo protagonizada por Calvino, que destruiu muitas imagens nas igrejas que administrava.

Em relação à Bíblia, ambas as partes usam textos para justificar a própria posição. Os evangélicos retém que Jesus é o único mediador e sublinham a proibição de produzir imagens, claramente expressa em Êxodo. Os católicos, por sua vez, apresentam narrações do Antigo Testamento nas quais é mencionado o uso de imagens por parte do povo de Deus, sem uma condenação explícita. Ao lado disso existe, como você insinua na pergunta, a questão da tradição. Para os protestantes a decisão de Nicéia não tem nenhum valor normativo, mas para os católicos sim. De fato, para os primeiros vale o princípio de “sola scriptura” mas os segundos crêem que a revelação acontece seja através das Escrituras que através da Tradição. Além disso, os católicos argumentam que a proibição das imagens no Antigo Testamento tem a ver com a idolatria e invés o culto dos santos não é relacionado com esta prática, pois o santo não é considerado um Deus, mas apenas um exemplo. Por outro lado há, sem dúvidas, da parte dos católicos, expressões exageradas do culto aos santos que ajudam a criar confusão.

Tiago, essa é a situação. Não vejo muita solução além da compreensão. Com certeza a ‘briga’ que essa situação gera é expressão de tudo, exceto de cristianismo. O cristão é chamado a ouvir, dialogar e também, é claro, defender a verdade, mas, como ensina Paulo, dando prioridade à caridade. Acredito que deveríamos concentrar nossa atenção naquilo que nos une e nesse sentido caminhar juntos, deixando de lado o que nos divide. Essa atitude, sim, seria verdadeira expressão de cristianismo.