Uma janela sobre o mundo bíblico

Em www.geocities.com/jeffersonhpbr há um artigo criticando as traduções da Bíblia. Alega que em hebraico não existiam as palavras espiritismo e médiuns. Foram criadas para combater o espiritismo. Minha pergunta não leva em conta crenças ou fé, mas, tecnica e cientificamente, há alguma verdade no que o artigo afirma?



  • Pergunta de Paulo Roberto Favero, Ponta Grossa
  • 2313
  • 22/07/2008
Luiz da Rosa

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Paulo, a Bíblia repete com constância a proibição de “adivinhação, encantamentos, consulta a mortos”. E as citações são inúmeras (Levítico 19,31; Deuteronômio 18,10-12; 1 Samuel 28; Isaías 8,19, etc.). Mas você, de modo inteligente, pediu que a nossa resposta ultrapassasse o aspecto confecional.

A questão que você põe tem a ver com a arte da tradução. Os textos tomados em consideração pelo artigo que você cita (Levítico 20,6.27 e Deuteronômio 18,10-12) foram escritos originalmente em hebraico, há muito tempo atrás. Obviamente naquele tempo não existiam as palavras “espíritas” e “médiuns”. Essas palavras são, invés, presentes nas traduções “Ave Maria” dos católicos e numa versão dos Testemunhas de Jeová (1967), conforme cita o artigo em questão. Sobre isso nasce a tese do artigo: certas palavras são usadas deliberadamente pelos tradutores para “rebaixar” os espíritas.

Em hebraico se usa a palavra ‘wob. O clássico Abridged BDB Lexicon diz que o sentido desta palavra pode ser: 1. Recipiente 2. Necromante 3. Fantasma 4. Necromância. A partir desta evidência, a melhor tradução deste vocábulo, nas passagens mencionadas, seria necromante. Evidentemente o uso de outro vocábulo suscita alguma perplexidade.

Contudo, analisando mais profundamente a questão, torna-se claro que esse problema é apenas uma agulha num palheiro. O papel do tradutor, segundo muitos especialistas, não é aquele de ser literal, mas transmitir, na própria língua, aquilo que o autor quis dizer na sua língua, aquela do texto original. Dou um exemplo banal, com a simples intenção de esclarecer a minha idéia. O hebraico, no Antigo Testamento, usa a palavra aniah para as embarcações usadas nos rios e mares. No tempo da Bíblia os tipos de embarcações eram poucos. Hoje, invés, quantos tipos de embarcações temos? E, em português, quantas palavras existem para nomear embarcações que navegam pelos mares e rios? Podemos dizer que erra quem traduz “aniah” com “barco”, invés de “navio”? Normalmente se traduz por “navio”, mas na époda bíblica os navios, segundo nossos conceitos, não existiam. De fato as embarcações eram pequenas e se pareciam muito mais com barcos. Contudo usar a palavra “navio” nesses casos, com certeza, não é um erro. É óbvio que os conceitos que as palavras “navio” e “necromante” representam não têm o mesmo nível de importância, mas penso seja útil para entender o problema.

Julgo como não muito boas as traduções que usam “médiuns” e “espíritas” em seus textos, invés de “necromante”. Contudo, esse juízo não é devido ao fato que essas palavras não existiam no tempo em que a Bíblia foi escrita, mas devido à falta de clareza que tal uso pode comportar. De fato esses são termos marcados pelo preconceito que pode influenciar negativamente a compreensão objetiva da mensagem da passagem bíblica. Todo tradutor tem a liberdade de usar o sinônimo que julgar melhor, quando tenta traduzir um vocábulo. Obviamente a sua escolha influencia o valor final da sua obra. Talvez na cabeça de muitos, como por exemplo naquela dos tradutores das versões incriminadas, as palavras “médium” e “espírita” são sinônimos para “necromante”. O autor do artigo que você cita discorda disso.

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