Uma janela sobre o mundo bíblico

A bateria, muito usada nas bandas de rock, foi a união de vários instrumentos. Pelo que entendo, biblicamente falando, tal mistura não se agrega à vontade do culto racional a Deus. Pergunto: Com qual autorização bíblica se instala uma bateria dentro de um Templo de Deus?



  • Pergunta de Elso, Colatina-ES
  • 3727
  • 21/09/2008
Luiz da Rosa

Leia mais sobre Comportamento - regras e costumes |


Este tema que você propõe é muito interessante e pouco discutido. É um assunto sobretudo para os liturgistas. De qualquer forma um biblista pode dar um parecer, pois, com certeza, a liturgia coloca seus pés dentro do mundo bíblico.

A cultura musical cristã é muito antiga e tem origem nas práticas do Antigo Testamento, no povo de Israel. No Ocidente a própria história da música, dos instrumentos é ligada ao culto. Basta pensarmos aos grandes compositores, cujas músicas tinham como objetivo principal o culto cristão.

Na Bíblia, obviamente não temos a presença de bateria ou outros instrumentos modernos, como a guitarra. De qualquer forma sabemos que durante a execução dos hinos litúrgicos e festas os instrumentos eram muito usados. Os hebreus, já antes do exílio em Babilônia, na liturgia usavam pequenas bandas com instrumentos, tais como flauta, arpa, lira e tambor, como descreve 1Samuel 10,5-6. Depois do exílio, com a instauração por Esdras de leituras públicas setimanais da Sagrada Escritura, iniciou a recitação melódica dos textos bíblicos e a Bíblia começou a ser cantada. Durante as 3 horas nas quais se ofereciam o holocausto no Templo, além da leitura dos salmos e das orações, haviam os cantos comunitários.

Em particular, quanto aos instrumentos, eles são mencionados pela primeira vez em Gênesis 4,21, onde se menciona Jubal como o pai de todos os que tocam harpa e lira. No período dos reis são mencionados os levitas, os sacerdotes, que tocavam cornetas, trombas, a lira e a arpa. Temos também o “sofar”, que é o corno, presente nos acontecimentos do Monte Sinai (Êxodo 19,6-19) e quando o povo derrubou os muros de Jericó (Josué 6,4-20).

Também existiam os tambores, que invés eram usados pelas mulheres e profetas. Há vários tipos de tambores: Taf (usado pela irmã de Araão, Maria – Êxodo 15,20); Mensanin e o Mesiltaim.

Muito comuns eram também os instrumentos de corda. Há o assim chamado Saltério (Nebel – que significa “garrafa”), que aparece em Salmos 32,2. Também é comum a arpa (kinnor) usada nas festas de ações de graças, quando existia alegria (Gênesis 4,21; 31,27; Isaías 24,8). A Bíblia conta que Davi tocava este instrumento (1 Samuel 16,16-23).

Há também a combinação dos instrumentos, que era descrita como “grupo de 12 instrumentos”, formado por duas arpas, nove liras e um címbalo.

Através dessa pequena visão do ambiente bíblico resulta evidente que os instrumentos há muito tempo são usados para acompanhar a liturgia. É claro que uma reflexão precisa ser feita. No mundo católico existe um pouco de contraste entre o clássico órgão e as bandas. Há muita gente que protesta e diz que as bandas não ajudam na oração. Particularmente penso que os responsáveis pela liturgia devem oferecer diversas possibilidades. Com certeza há pessoas que são ajudadas na oração pelo som das bandas, sobretudo os jovens. Contudo há também pessoas que são disturbadas pelo “barulho” e preferem o silêncio. Por isso talvez deveríamos ser flexíveis e proporcionar momentos diferentes de oração, onde cada um sabe a que estilo de oração vai encontrar. Oferecer sempre um modo de oração uniforme, creio, é errado, pois a oração deve tocar o coração.

Outro tema importante é a discussão sobre as letras de nossos cantos e hinos. Aqui também existe muito “pano para manga”. De fato, lendo a Bíblia e a história da igreja nascente, vemos como era costume rezar com os salmos. Hoje corremos o risco de deixar de lado essa oração clássica. Mas isso é apenas um aceno e quem sabe possa suscitar ulterior meditação.

3727 visitas



Comentários

Os comentários são possíveis somente através da sua conta em FaceBook