Uma janela sobre o mundo bíblico

É pecado fazer sexo no dia de sábado de acordo com espírito de profecia?



  • Pergunta de Daniel, Bezerros
  • 34837
  • 19/09/2010
Luiz da Rosa

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Essa pergunta ficou algum tempo sem ser respondida, talvez pelo preconceito em relação ao uso de certas expressões presente snela. Apesar disso ela tem um aspecto muito importante para a vida dos cristãos, ou seja, o tema da sexualidade. De fato é impressionante o número de perguntas aqui no site que abordam esse assunto. Provavelmente as respostas não são suficientemente claras ou aquilo que se diz não cai no coração das pessas. Infelizmente fomos educados, do ponto de vista religioso, de forma errada em relação à sexualidade. À base de uma avaliação sobre a questão teríamos que por a pergunta: A sexualidade necessariamente nos afasta de Deus ou pode ser um modo para nos aproximar dEle? Não sou nenhum psicólogo e a eventual autoridade em relação ao tema pode ser questionada. Todavia a realidade está diante dos nosso olhos e uma sua análise podemos fazer todos.

Digo logo o que penso sobre a sexualidade, do ponto de vista religioso, para que fique clara a minha posição. De acordo com o livro da Gênesis, a narração da criação, o ser humano é corpo e espírito inseparáveis, unidos entre si através de profunda unidade. Tudo o que Deus criou é bom. Um membro do corpo é bom ou mau de acordo com aquilo que faz e não por aquilo que é em si mesmo. Isso tudo vale para o sexo. A relação sexual é um sinal do vínculo que garante a união de duas pessoas por toda a vida. Gosto de ver esse assunto com as lentes do judaísmo, da Bíblia Hebraica, na qual não existe a idéia intransigente que o ato sexual seja, em qualquer modo, um pecado. Só no período mais tardio, com a apocalíptica, entrou o conceito da natureza caída, do pecado original, do ser humano nas mãos do mal. Se observarmos alguns textos proféticos e, sobretudo, o Cântico dos Cânticos, a dimensão erótica representa um dos aspectos da experiência humana escolhido com o objetivo de ilustrar algumas dimensões fundamentais da relação entre Deus e o seu povo. O gnosticismo influenciou sobremaneira a moral cristã sobre a sexualidade – e também a filosofia grega - , criando uma tendência que almeja, em linhas gerais, a um mundo espiritual, sem corpo em modo geral e, particularmente, assexuado. É claro que, sobretudo graças aos esforços do Vaticano II em valorizar o matrimônio e a corporeidade, essa teologia não é oficial, mas a nossa concepção ainda reflete essas atitudes.

Se considerarmos a história da Igreja vemos certas afirmações, que são de fundamento para a nossa concepção, que nos deixam surpresos. Temos, por exemplo, na Idade Média, Inocêncio III que dizia: “O ato sexual é em si tão vergonhoso que é intrinsicamente malvado”. Mas mesmo antes, na Patrística, encontramos Agostinho que almejava ao ser humano a possibilidade de gerar filhos com um simples ato da vontade, onde fosse ausente a libido (De civitate Dei 14,16 e 23); afirma ainda que o marido, na relação sexual com a esposa, ama nela o seu ser homem e odeia o seu ser mulher (De sermone Domini in monte 1,15 e 41). Mais radical é quando diz que se do casamento se exclui a procriação, os maridos são apenas amantes, as mulheres prostitutas e o tálamo um bordel (Contra Faustum 15,7).

A propósito do tempo da relação, objeto direto da sua pergunta, Agostinho, por que, segundo ele, o ato sexual mata o espírito, pede a abstinência do ato sexual durante o domingo, nos dias festivos, durante o catecumentato e as orações (De fide et operibus 6,8). Na mesma linha temos Origem, que diz que quem, no dia de domingo, entra na igreja tendo realizado o ato sexual, não honra, mas sim profana o Santo (Selecta in Ezechielem, 7). Também Jerônimo, o tradutor da Bíblia ao latim, comentando 1Coríntios 7,5, diz que o cristão não pode receber o corpo de Cristo se realizou o ato sexual naquele dia. Por outro lado, na concepção judaica, o tempo ideal paro ato sexual é exatamente a noite do Shabbat, porque é um tempo santo.

Creio que tratamos aqui de modo um pouco superficial esse tema. Uma reflexão maior, embora potencialmente chata, é necessária. Na verdade é um dilema muito grande, em todas as épocas, encontrar um modo para integrar, através de idéias, de uma teologia, ao mesmo tempo a espiritualidade do ser humano e o seu instinto animal, em particular o eros e a sexualidade, que se manifestam na relação sexual. Não dá para transformar o ser humano em um anjo: ele será sempre um animal espiritual. A tradição midrashica talvez nos ilumina e dá uma pista para a nossa reflexão. De fato, essa tradição diz que, quando homem e mulher se unem com amor e em santidade, a Shekinah (a presença de Deus) desce sobre eles. Nos nomes hebraicos do homem e da mulher (‘Ysh e ‘IshaH) está presente a forma breve do nome de Deus (YH). Se a união deles não é santa, de ‘Ysh e ‘IshaH Deus se afasta e fica somente um fogo que destrói, como mostra o fato que se se tira dos substantivos hebraicos “homem” e “mulher” as letras que cada um tem diferente do outro, ou seja YH (Yah – Deus), fica somente ESH, isto é, fogo.

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