Uma janela sobre o mundo bíblico

Mateus e Marcos falam que os dois malfeitores, na cruz, blasfemaram contra Jesus. Lucas diz que o da direita pedia ajuda. João nada fala. Como explicar?



  • Pergunta de Aureo Santos Costa, Ecoporanga
  • 15091
  • 17/02/2013
Luiz da Rosa

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A sua observação é muito importante, pois graças a ela podemos observar como cada evangelista tem características diferentes. Isso também nos cria uma oportunidade para sublinhar que os evangelhos não são livros que querem apenas transmitir elementos históricos, mas são leituras dos eventos feitos a partir da fé. Ou seja: não é um histórico que conta o evento Jesus, mas uma comunidade de fé que transmite a sua leitura de quem foi Jesus. Se você começar a comparar os 4 evangelistas, encontrará tantas outros elementos como esse, que podem lhe deixar confuso. Mas isso só acontecerá se você pensar que o evangelista é simplesmente um histórico e não um homem de fé.

Vejamos os textos dos assim chamados Evangelhos Sinóticos (em João não há menção a este episódio):

Mateus 27,44: Até os ladrões, que foram crucificados junto com ele, o insultavam.
Marcos 15,32: E até os que haviam sido crucificados com ele o ultrajavam.
Lucas 23,39-43: Um dos malfeitores o insultava (...) Mas o outro (...) repreendia o primeiro (...) E acrescentou: "Jesus, lembra-te de mim, quando vieres com teu reino".

Como podemos ver, há dirença entre Mateus/Marcos e Lucas. Mateus e Marcos são muito superficiais, querendo apenas dizer que Jesus era insultado por todos, inclusive por quem sofria a mesma pena sua. A ênfase é colocada sobre o fato de quanto Jesus era insultado no momento da sua crucificação.

Lucas é um médico, alguém muito preocupado com as classes sociais mais sofridas. No seu texto há uma atenção humana muito grande para com quem sofre. Talvez isso fez com que se concentrasse sobre um elemento da tradição que talvez não interessava tanto aos dois outros evangelistas, que é a história da conversa entre o "bom ladrão" e Jesus. Lucas não foi testemunha ocular, mas recolheu informações para escrever o seu evangelho.

João, autor de um texto muito mais teológico, não quis evidenciar esse fato.

Se observarmos bem, vemos que os textos não são contraditórios. O fato é visto com olhos diferentes pelos evangelistas. Cada um escolheu contar certas tonalidades da vida de Cristo, deixando fora outras. Isso, além do mais, é dito pelo próprio João, no final do seu evangelho (21,25):

Há muitas outras coisas que Jesus fez. Se fossem escritas uma por uma, creio que o mundo não poderia conter os livros que se escreveriam.

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