Uma janela sobre o mundo bíblico

O canto do galo que Jesus mencionou foi da ave?



  • Pergunta de Jean, Araras /SP
  • 103879
  • 29/05/2013
Odalberto Domingos Casonatto

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Olá Jean de Araras / SP!

Esta é a resposta que todos nós buscamos. Segundo o texto bíblico literalmente, foi o canto de uma ave. Mas os estudos com respeito a este tema nos dão outras indicações e interpretações que parecem ser verdadeiras. Mas no final da resposta vamos ver que permanece a dúvida, será que um dia teremos uma resposta que possa provar que foi verdadeiramente o canto de um galo?

A expressão “canto do galo” que é o assunto da reposta encontramos, com ligeiras variações, nos quatro Evangelhos (Mateus, Marcos, Lucas e João . A partir destes textos buscaremos o significado e a natureza de tal expressão “canto do galo”. Comecemos com os relatos dos

Evangelho de Mateus 26,34:

“Jesus declarou: Em verdade te digo que esta noite, antes que o galo cante, me negarás três vezes! (Evangelho de Mateus 26,34) Bíblia de Jerusalém.

evangelho de Marcos 14,30

“Disse-lhe Jesus: Em verdade te digo que hoje, esta noite, antes que o galo cante duas vezes,  me negarás três vezes”(Evangelho de Marcos 14,30) Bíblia de Jerusalém.

Evangelho de Lucas 22,34

“Mas ele disse: Pedro eu te digo, (o) galo não cantará hoje sem que por três vezes tenhas negado conhecer-me.” (Evangelho de Lucas 22,34) Bíblia de Jerusalém.

Evangelho de João 13,38

“Jesus lhe responde: Darás a tua vida por mim? Em verdade, em verdade te digo: o galo não cantará sem que me renegues três vezes.”(Evangelho de João 13,38) Bíblia de Jerusalém.

 

Considerações para a questão do Lugar – centro de Jerusalém.

É importante argumentar com respeito ao “lugar” onde Pedro se encontrava quando efetivamente negou a Jesus. Os textos bíblicos que falam do ocorrido e fornecem informações são: Mt 26,69-75; Mc 14,66-72; Lc 22,54-62 e Jo 18,5-18.

Onde estava Pedro no momento em que negou a Jesus três vezes? Jesus foi “levado” para a casa do sumo sacerdote (Mateus 26,57; Marcos 14,53; Lucas 22,54). O Tribuno Romano entregou Jesus às autoridades judaicas esperando a manhã seguinte para o julgamento. Jesus foi levado ao palácio do sumo sacerdote onde se encontravam os principais sacerdotes e anciãos de Israel reunidos. Esta informação é importante, pois a “a casa do Sumo Sacerdote estava no centro de Jerusalém. E certamente não haveria um galinheiro no centro da cidade”. (mesmo por que a cidade de Jerusalém não comportava animais de pequeno porte, pois era considerada, uma cidade sagrada. A partir deste fato vem a pergunta , será que verdadeiramente houve um “galo para cantar”.

Possivelmente a interpretação do “canto do galo” deva ser entendida metaforicamente

Depois de muitas leituras através de autores que escreveram considerações sobre o fato, é de se admitir que a melhor forma de entender fosse metaforicamente. As seguintes razões colaboram para isto.

Primeira consideração:

Os quatro Evangelhos empregam o verbo grego (fonéo), que, como “ressoar” (em vez de “cantar”) e, portanto, pode se referir aos sons emitidos por qualquer instrumento musical, como a trombeta romana, por exemplo, muito empregada pelas legiões romanas. Para disciplinar a vida militar. E na cidade de Jerusalém existia uma guarnição romana a serviço do procurador e de sua defesa,

Segunda consideração:

O Evangelho Marcos, o primeiro ser escrito é dirigido aos romanos (escrito em Roma) encontramos vários latinismos ao longo do texto, utilizando, inclusive, o termo grego composto (alektorofonías), significando o “canto do galo” (Mc 13,35 e encontramos correspondência no termo latino gallicinium (“canto do galo”), vocábulo este que era bem conhecido naquela época e que fazia alusão ao “toque da trombeta” durante a troca das guardas romanas que estavam presentes.

Terceira consideração:

Marcos sendo o primeiro evangelho escrito é tido como o único dos evangelistas a nos fornecer o importante detalhe de que a tripla negação de Pedro ocorreria antes de o galo ressoar “duas vezes”. Essa menção feita ao duplo ressoar do galo (“toque da trombeta”) parece estar aludindo aos dois “toques de trombeta” existentes após a meia-noite, os quais eram emitidos da fortaleza Antonia (atual início da Via Dolorosa, cidade velha de Jerusalém). Um primum gallicinium (“primeiro canto do galo”) entre às 0:00h e às 3:00h da madrugada e, depois dele, o secundum gallicinium (“segundo canto do galo”) que era tocado entre às 3:00h e às 6:00h da manhã, quando outro dia começava a despontar no horizonte. Este fato coincide com o texto bíblico de Marcos: “Disse-lhe Jesus: Em verdade te digo que hoje, esta noite, antes que o galo cante duas vezes, me negarás três vezes”. (Mc 14,30).

Quarta consideração:

Em quarto lugar, lembramos novamente que os Evangelhos de Marcos (Mc 1,66), Lucas (Lc 22,54) e João (Jo 18,15-17) o fato da negação de Pedro a Jesus, ele estava na “casa do sumo sacerdote”, a qual ficava no centro de Jerusalém. É difícil imaginar que houvesse criação de galinhas em alguma casa do centro cidade. Aliás, iria mais longe e acrescentaria: “é difícil imaginar que houvesse um galo bem debaixo do nariz do sumo sacerdote!”.

Quinta consideração:

A ausência de galos em Jerusalém na época do Novo Testamento, parte do conceito da cidade de Jerusalém considerada sagrada, habitação de Deus, e que nos escritos da Mishna e no tratado de Baba Kama 7.7 prescreve orientações de pureza da cidade. A Mishná, em sua divisão Nezikin (“Danos”), e no tratado Baba Kama 7.7 nos transmite as seguintes orientações sobre o galo: “Eles não podem criar gado miúdo na Terra de Israel, mas eles podem criá-los na Síria ou nos desertos que existem na Terra de Israel. Eles não podem criar galos em Jerusalém por causa das Coisas Santas, nem os sacerdotes podem criá-los [em qualquer lugar] na Terra de Israel por Terra de Israel por causa de [as leis concernentes a] alimentos puros. Ninguém pode criar porco em qualquer lugar. Um homem não pode criar um cão a menos que seja mantido ligado por uma corrente. Eles não podem criar armadilhas para os pombos a menos que seja de trinta ris de um lugar habitado.23”

Concluindo:

Esperamos que este episódio da negação de Pedro, em que um “galo cantou” junto à casa do sumo sacerdote ou imaginar que poderia ser o ressoar de uma “trombeta ressoou” na fortaleza Antônia,  poderemos encontrar  uma resposta verdadeira para a questão.

 

Pintura: Santuário do Galicantu, Monte Sião, Jerusalém. Uma das pinturas na igreja inferior: A negação de São Pedro, Jesus algemado e o galo. Em Lucas 22, 57: "Ele porém negava, Mulher eu não o conheço"

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Imagem - Foto do episódio de Pedro, com escrava, no pátio da casa do Sumo sacerdote e o "canto do galo", Santuário do Galicantu, Monte Sião, Jerusalém.

 

 

 

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