Uma janela sobre o mundo bíblico

Pesquisando na internet encontrei uma considerável lista de tradutores bíblicos. Particularmente destaco Jerônimo, Lutero, Almeida e a King James. Considerando a evolução da ciência da crítica textual, gostaria de saber se os modernos biblistas da atualidade encontraram alguma divergência importante entre as traduções, capaz de mudar algum conceito teológico ou dogmático?



  • Pergunta de Paulo Favero, Ponta Grossa
  • 1634
  • 12/06/2013
Luiz da Rosa

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Excelente pergunta. A maioria dos leitores não se dá conta que o texto que tem nas mãos é uma tradução e para ele aquilo ali é a Bíblia. Se o tradutor errou, a mensagem passa como verdadeira. O costume, em algumas igrejas, de se aconselhar o uso da mesma edição não ajuda a desmascarar as versões tendenciosas. Se no meio da assembleia existissem diferentes versões, as pessoas começariam a criar uma visão crítica, buscando versões mais bem feitas.

Quem traduz está continuamente diante de um dilema: precisa ser fiel, ao mesmo tempo, ao texto original e à língua para a qual verte o texto. Esse é o problema maior. O meu professor de hebraico, quando nos interrogava, exordiava sempre dizendo: “como você traduziria essa frase para a sua mãe”. Com isso ele queria nos motivar a render o texto hebraico claro para quem leria a tradução. Mas não é fácil, pois os conceitos mudaram e aí o tradutor precisa tomar uma decisão sobre o termo que usará, se simplesmente traduzir a palavra ou ‘explicar’. E daí surge a questão: essa eventual ‘explicação’ é Palavra de Deus ou palavra do tradutor?

Todas as traduções são corretas?

Há traduções clássicas e traduções modernas. As clássicas são a LXX (A.T. do hebraico para o grego), a Vulgada - Jerônimo (para o latim), King James (para o inglês), Reina-Valera (para o espanhol), Almeida (para o português). Essas traduções 'personalizam' a história da transmissão do texto bíblico até nós. Durante muito tempo foram usadas como texto de referência para outras traduções. Hoje ainda existem, em versões modernas e atualizadas, confrontadas com os conhecimentos hodiernos, sobretudo inerentes à crítica textual. Um caso típico é o processo pelo qual, atualmente, está passando a Almeida, que está sendo revisada, em vista de uma nova edição.

Hoje nasceram muitas outras traduções modernas, fruto de um trabalho árduo de equipes de espertos, seja nas línguas originais (hebraico, aramico e grego) que na língua vernácula. O resultado são traduções bem feitas, atentas a diversos aspectos levantados pela crítica textual e pela linguagem atual. Em português podemos citar a Edição Pastoral, a Bíblia de Jerusalém, a Vozes, a TEB, a Nova Tradução na Linguagem de Hoje, etc.

A verdade é que é muito difícil ser imparcial, prescindir de certas ideologias. Quem traduz corre um sério risco de ser um traidor. Podem existir, por exemplo traduções tendenciosas, feitas por grupos que tendem a sublinhar uma certa ideologia em detrimento da objetividade do texto. Nesses casos o texto pode ser adulterado de propósito, seja por questões ideológicas ou por questões de ignorância – como pode ser o caso da palavra "espiritismo" denunciado nesse link. Mas poderíamos pensar também em problemas modernos, como é, por exemplo, a questão do gênero. No texto sobre a criação, em Gênesis 1,27 lemos, literalmente: “Deus criou o homem (em hebraico “adam”) à sua imagem, à imagem de Deus ele o criou, homem e mulher ele os criou”. Depois de toda a conquista das mulheres na sua luta contra a prepotência masculina, é correto traduzir usando ainda a palavra “homem”? Ou seria melhor usar “ser humano”, como fazem algumas versões? O uso de uma ou de outra palavra, com certeza, condiziona o leitor, mesmo inconscientemente. O tradutor não pode ficar em cima do muro; tem de fazer uma escolha. Essa é a coisa mais complicada para ele.

Erros teológicos

Você pergunta se há erros clássicos derivados das traduções da Bíblia. Sinceramente não tenho um estudo que responda objetivamente a esta questão. Seria uma investigação interessante e curiosa. Me veem em mente alguns casos, que menciono abaixo, mas antes queria colocar uma questão de interpretação do processo de tradução: a tradução não faria parte do processo evolutivo do texto? A transformação do texto, na verdade, poderia estar acontecendo ainda hoje, à medida que é lido. Não é verdade que diante de um livro antigo nos perguntamos qual era a mensagem que o autor queria nos transmitir? A nossa interpretação “desvela” a mensagem do autor, revestindo o texto com as nossas palavras. Ler, no fundo, é modificar o texto: é tomar posse dele, fazendo com que diga algo para nós hoje, que transforme a nossa vida. Quando se fala de Bíblia, essa ‘modificação’ é baseada na fé e um dos protagonistas nisso é o tradutor, um leitor previlegiado.

Menciono dois casos que envolvem a tradução e que podem ter reflexos teológicos, mas não são erros derivados das traduções antigas, apenas situações que denunciam a dificuldade da tradução e suas consequências. Um primeiro exemplo pode ser a dificuldade, que poucos conhecem, em traduzir a frase do Pai-Nosso: “não nos deixeis cair em tentação”, sobretudo se nos apoiamos no texto da Vulgata. O texto dessa versão da Bíblia diz: “et ne nos indúcas in tentatiónem”. Em italiano, que é a minha língua de cada dia, dizemos “non ci indurre in tentazione” (não nos conduzir à tentação), tradução que respeita perfeitamente o latim de Jerônimo (a Almeida Revista Fiel traduz: "E não nos induzas à tentação"). Então quer dizer que Deus “nos induz em tentação”? Na verdade o verbo original em grego (eisfero) pode ter dois sentidos: um causativo (não conduzir) e outro permissivo (não permitir que). A questão não é fácil de resolver, pois se seguimos a versão que atualmente usamos é como se Deus tivesse que intervir para mudar a nossa vontade e, invés, se usamos aquela de Jerônimo, também temos problemas, pois parece que a tentação vem de Deus e ele pode nos livrar dela. Mas a liberdade não significa agir paradoxalmente também contra a vontade de Deus?

Há um caso clássico na liturgia. Na terceira oração eucarística (oração usada pelos católicos durante a missa) há um texto que diz, em português, “não cessais de reunir o vosso povo, para que vos ofereça em toda parte, do nascer ao pôr-do-sol, um sacrifício perfeito.” Essa tradução respeita o texto original em latim. Mas quando fizeram a tradução para o italiano, no missal italiano traduziram assim (tradução minha para o português): “continuas reunindo em torno a ti um povo que de um confim até o outro da terra ofereça em teu nome um sacrifício perfeito”. As traduções, que se apoiam ambas no original latino, são muito diferentes. A tradução em português, fiel ao original, respeita a ideia teológica do cristão oferecendo um sacrifício contínuo, que perpassa a vida do fiel. A tradução italiana, invés, reflete uma concepção que visa propagar o cristianismo em toda a parte do mundo, uma visão proselitista do cristianismo.

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