Uma janela sobre o mundo bíblico

Os primeiros capítulos do Gênesis: a Bíblia diz a verdade?



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  • 11/06/2016
Luiz da Rosa

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Vendo as inúmeras perguntas que os nossos leitores colocam no site, deparei-me com várias inerentes à criação, sobretudo à história de Adão e Eva contada nos primeiros capítulos da Bíblia. Muitas perguntas são deixadas para trás por que já existem respostas no site que abordam as questões que suscitam. Esse é o caso da criação, tema ao qual já dedicamos muitas linhas. Você pode ver aqui todas as respostas dadas sobre o assunto.

Mas o fato do número de perguntas presentes me fez retomar o argumento. Cito as últimas perguntas que encontrei:

* Quem foi a esposa de Caim?
* Adão e Eva so tiveram Caim e Abel. Aonde Caim achou uma mulher?
* Como caim fugiu para outra cidade se só havia 4 pessoas no mundo: Adão, Eva, Caim e Abel?
* Adão e Eva tiveram Caim e Abel. Então como foi a procriação a partir dai?
* Ainda existe o Jardim do Éden e aonde está localizado?
* Os filhos de Adão e Eva eram iguais?
* Como Caim conheceu sua esposa se na época só havia Eva de mulher?

Resumidamente, repito o que dissemos já nas respostas presentes no site:

Os primeiros capítulos da Palavra de Deus não são textos históricos e, portanto, não devem ser lidos como narração de fatos acontecidos. Por trás da história narrada existem elementos mitológicos, que o povo de Deus tomou emprestado das civilizações vizinhas para transmitir a própria compreensão da natureza e da criação, que era distinta daquela dessas civilizações. A mensagem central, presente no texto sagrado, é que tudo foi criado por Deus, que colocou o ser humano como centro da sua obra, reservando a ele um destino precioso. Através da sua palavra, deu ao ser humano instruções que garantiam a sua felicidade (o paraíso), mas, ao mesmo tempo, o deixou livre. Graças à liberdade, grande dom divino, houve o pecado, que levou o ser humano ao homicídio e a todas os outras formas de afastamento de Deus.
Com palavras secas e duras, poderíamos afirmar que historicamente Adão e Eva, com os filhos Caim, Abel e Set não existiram.

Essa é a teologia/teoria comum entre os biblistas e não se perde muito tempo em discussões contrárias a ela, pois certamente privadas de fundamentação. Todavia sei que suscita muita discussão entre nossos leitores e os comentários abundam quando se trata desse tema e, às vezes, beiram à ofensa contra o autor. Sei que fomos ensinados e crescemos pensando que o homem foi criado do barro e não é fácil mudar essa compreensão, mas é necessários crescermos na fé, numa fé que busca entender.

Os comentários que aparecem no site e que refutam a interpretação apresentada acima encontram argumentos para contrapor a nossa mensagem. Alguns, por exemplo, dizem que houveram duas criações e que na segunda (Gênesis 2) foram criadas outras pessoas. Outros defendem que Caim teria se casado com uma das suas irmãs, pois de fato a Bíblia diz que Adão teve outros filhos e sublinham que no início o incesto não era um problema. Outros tentam dar flexibilidade explorando a questão dos inúmeros anos que as primeiras pessoas viviam, dizendo que em centenas de anos muitas coisas aconteciam e a humanidade crescia. Outros sugerem simplesmente “ser crentes” e esperar na revelação futura de Deus. Há ainda quem chama a atenção para o capítulo 5 da carta de Paulo aos Romanos onde ele diz que “por meio de um só homem o pecado entrou no mundo”. Outros quase ameaçam, dizendo que não crer na veracidade bíblica é perigoso. E, por fim, tem aqueles que literalmente dizem: “Se o que tá escrito na Bíblia for uma mentira que traz esperança, eu prefiro acreditar numa mentira...”

Graças a Deus há vários comentários sábios, que tentam meditar a questão e tantos outros que revelam pessoas que não têm nenhuma dificuldade em aceitar a interpretação comum entre os biblistas, que relativiza o criacionismo.

Não quero agora acirrar os ânimos e simplesmente provocar as pessoas que preferem ler literalmente os primeiros capítulos do Gênesis, como fatos verdadeiramente acontecidos. Mas não posso deixar passar essa oportunidade para recordar, em modo suscinto, dois argumentos principais que fundam a leitura não fundamentalista da criação contada na Bíblia.

1. A intenção dos primeiros capítulos da Bíblia não é aquela de descrever um quadro geral material de como foi o início da vida na terra.

Isso é evidente já através do próprio texto, através do fato que temos dois relatos da criação, um no primeiro capítulo e outro no segundo (a partir do versículo 4) do livro do Gênesis. Significa que Deus criou tudo duas vezes? Obviamente se trata de dois contos diferentes, escritos por pessoas diferentes, com perspectivas diversas. Na "primeira criação" o homem é criado "a imagem e semelhança" e nada é dito do barro. É somente no segundo conto que aparece a questão da criação do ser humano do barro. Se tudo fosse "história", segundo a nossa concepção, qual dos dois contos estaria correto? Deveríamos eliminar um dos dois?

2. A verdade da criação

Continuando focalizados no texto, você já prestou atenção naquilo que o Gênesis diz em relação à criação das estrelas, do sol e da lua, criados no quarto dia da criação (1,14-19)? Quando o texto fala de sol e lua, os chama de "ma'or", que em hebraico significa "fonte de luz" ou "lâmpada" (as nossas traduções traduzem como "luzeiro"). Mas nós hoje sabemos muito bem que a lua não é nenhuma fonte de luz, mas simplesmente reflete a luz do sol. Se quiséssemos defender que o autor da Bíblia sabe tudo, por que fez esse erro assim grande? É óbvio que a narração é limitada pela experiência de fé do autor sagrado e não um conto histórico daquilo que aconteceu. Não há nenhum erro na Bíblia, pois a Bíblia não traz simplesmente verdades materiais, mas princípios que transcendem a realidade e a iluminam. Por isso a história dos primeiros capítulos do Gênesis não é simplesmente história de dois homens que deram início à humanidade, mas transmissão de uma grande verdade: a vida vem de Deus e nós somos suas criaturas.

A propósito da "verdade", creio fazer bem recordar a reflexão sugerida por Etienne Charpentier sobre a verdade na Bíblia, no seu livrinho de introdução ao Antigo Testamento: Quando se pergunta se o que está na Bíblia é verdadeiro, se um milagre é verdadeiro, antes é necessário nos perguntar sobre o que se entende pela palavra "verdadeiro". Há vários sentidos para essa palavra. Diz-se, por exemplo, "esta história é veradeira", "esse romance é verdadeiro", "esta poesia é verdadeira". Em um romance, embora tudo seja inventado, se pode dizer que ele é 'verdadeiro'. E isso se diz quando ele reproduz bem a realidade humana: nada nele é exato e/ou histórico, mas é verdadeiro. Exato seria o que historicamente aconteceu. Verdairo, invés, é o que reproduz bem o sentido da vida. Portanto, a Bíblia é verdadeira nesse sentido: encontramos nela coisas não exatas; o modo de contar os fatos ou de referir as palavras não é exato, mas é verdadeiro, pois inclue o sentido que nela se descobriu.

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