Uma janela sobre o mundo bíblico

Se Jesus lavou na cruz os nossos pecados, por que temos que pedir perdão?



  • Pergunta de Ademir, Sao Paulo
  • 10640
  • 21/06/2009
Luiz da Rosa

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A questão que você põe é muito eloquente e causa de grande debate entre o mundo católico e protestante, sobretudo aquele luterano. O tema é conhecido como “doutrina da justificação”. Essa questão teológica teve importância central para a Reforma luterana do século XVI. A voz expressiva sobre esse argumento é o apóstolo Paulo (Romanos 1; 3; Filipenses 3; Gálatas 5; etc), embora um estudo mais complexo não possa ignorar várias outras passagens bíblicas. Paulo diz que Deus transforma em justo o ser humano por meio duma ação sobrenatural e eficaz; nenhum cristão pode contar com suas obras religiosas como se fossem um crédito diante de Deus. La transformação do homem velho em homem novo é consequência única da ação gratuita de Deus por meio de Cristo.

Contudo, apesar desse dado objetivo da graça divina presente em nós, a justificação do ser humano, a morte de Jesus na cruz, não exclui que exista nas pessoas a possibilidade de ir contra a vontade de Deus. Existe um contexto onde se desenvolvem todas as ‘energias’ divinas transmitidas ao ser humano graças à justificação. Esse contexto é a nossa vida, na qual podemos dar ampla vasão da justificação, da nossa afiliação divina ou nos afastar da vontade de Deus.

Percorrendo a história, nos damos conta dos problemas que envolvem essa temática. No início do cristianismo temos Pelágio, que dizia que o ser humano, criatura divina, não podia ter nascido longe de Deus, manchado com o pecado original. Era a vontade individual a conduzir o ser humano ao pecado. Por isso ele podia muito bem, graças ao livre arbítrio, sem intervento da graça divina, alcançar a salvação, conservando-se puro, ajudado pelas orações e boas obras. Não existe para Pelágio uma graça inerente ao ser humano, que Agostinho, contestanto Pelágio, chama de “inspiração de amor, que nos conduz a fazer com santo amor aquilo que conhecemos”. Essa graça descrita por Agostinho e negada por Pelágio, para a teologia tradicional é a condição necessária para a salvação. Em síntese, Pelágio diz que o homem não depende de Deus, seja para ter virtudes seja para pecar. Ele é autônomo e no fim da vida Deus premia ou condana, conforme o uso da própria liberdade.

Outro capítulo histório importante encontramos no período de Lutero. Lutero é influenciado por um pessimismo muito grande em relação ao ser humano. Para o protagonista da Reforma, o ser humano é “o perdoado”, a quem é atribuida a justiça de Cristo. Portanto, nesse caso, o ‘homem novo’, a vida nova que o ser humano vive como consequência da salvação trazido por Cristo não vem também da resposta da pessoa, que não proporciona nenhum mérito.

Em contraposição com Lutero, o Concílio de Trento, que estabelece a doutrina católica sobre esse tema, diz que a justificação não consiste somente no perdão do pecado. Ela, de fato libera o homem do pecado original e também daquele individual, mas doa, ao mesmo tempo, um novo princípio vital: a presença do Espírito Santo na vida do ser humano, que faz com que haja uma vida nova, filho de Deus, predestinado à vida eterna com Deus, encarregado, contudo, de atividade apostólica onde coloca em prática esse dom que recebe. As obras que o cristão realiza podem obter méritos, mesmo se a medida da retribuição divina pelos méritos daqueles que crêem supera o próprio mérito.

Sugiro que seja lida a Declaração Conjunta sobre a doutrina da justificação feita pela Comissão Mista católica romana/evangélica luterana internacional, em 31 de outubro de 1999

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