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Escritura Judaica e Novo Testamento



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  • 26/03/2014
Ivete Holthmam

 Escritura Judaica e Novo Testamento

É sua origem histórica que liga a comunidade dos cristãos ao povo judeu, Jesus de Nazaré é um filho desse povo; tais são os doze que ele escolheu para que permanecessem com ele a fim de que ele os enviasse a anunciar a Boa Nova (Mc 3,14). O cristianismo nasceu no interior do Judaísmo do primeiro século. O Novo Testamento, até mesmo reconhece os judeus uma prioridade, porque o Evangelho é uma força salvadora de Deus para todo aquele que crê primeiro para o judeu, mas também para o grego (Rm 1,16).

Uma manifestação sempre atual desse vínculo originário consiste na aceitação por parte dos cristãos, das Sagradas Escrituras do povo judeu como Palavra de Deus dirigida também a eles. A Igreja acolheu como inspirados por Deus todos os escritos contidos tanto na Bíblia hebraica como na Bíblia grega.

O título Novo-Testamento provém por sua vez de um oráculo de Jeremias que anunciava o projeto de Deus de estabelecer uma “nova aliança” (Jr 31,31). A fé cristã, com a instituição da Eucaristia, vê esta promessa realizada no mistério de Jesus Cristo (1Cor 11,25; Hb 9,15).

Os escritos do Novo Testamento se mostram radicados na longa experiência religiosa do povo de Israel, experiência registrada em alguns livros sagrados que constituem as Escrituras (Torá) do povo judeu. O novo Testamento reconhece a esses livros uma autoridade divina.

O grego do Novo Testamento depende estritamente do grego dos Setenta, seja em se tratando de construções gramaticais influenciadas pelo hebraico seja no vocabulário religioso.

Essa afinidade linguística estende-se a numerosas expressões que o Novo Testamento toma emprestado das Escrituras do povo judeu.

Nas suas argumentações doutrinais, o apóstolo Paulo baseia-se constantemente nas Escrituras do seu povo.

Paulo faz uma clara distinção entre as argumentações escriturísticas e os raciocínios feitos à maneira humana. Para ele as Escrituras hebraicas têm igualmente um valor sempre atual para guiar a vida espiritual dos cristãos. "Tudo quanto, outrora, foi escrito para o nosso ensino foi escrito, a fim de que, pela paciência e pela consolação das Escrituras, tenhamos esperança" (Rom 15,4).

No Evangelho de João Jesus declara que a Escritura não pode ser abolida (Jo 10,35) o seu valor  deriva do fato de ser “Palavra de Deus”. Em 2Tm 3,15 se afirma: “Toda Escritura é inspirada por Deus e é útil para ensinar, para argumentar, para corrigir, para educar conforme a justiça. Assim a pessoa que é de Deus estará capacitada e bem preparada para toda boa obra” (2Tm 3,16-17). Em 2Pd 1,20-21, Pedro afirma que nenhuma profecia da Escritura foi proferida por vontade humana mas sim sob o impulso do Espírito Santo. Estes dois textos não se limitam a afirmar a autoridade das Escrituras do povo judeu, mas indicam na inspiração divina o fundamento dessa autoridade.

Uma dupla convicção é manifestada em outros textos: de um lado aquilo que foi escrito nas Escrituras do povo judeu deve cumprir-se porque revela o desígnio de Deus que não pode deixar de se realizar, e de outro a vida, a morte e a ressurreição de Cristo correspondem plenamente ao que se encontra essas Escrituras.

A expressão mais clara de primeira convicção está nas palavras dirigidas por Jesus ressuscitado aos seus discípulos, no Evangelho de Lucas. “São estas as palavras que eu vos falei quando ainda estava convosco: era preciso que se cumprisse tudo o que está escrito sobre mim na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos” (Lc 22,44). Essa asserção revela o fundamento do mistério pascal de Jesus ensinado em passagens dos Evangelhos.

“E começou a ensinar-lhes que era preciso o Filho do Homem sofrer muito e depois de três dias ressuscitar”; é preciso que se cumpra em mim as Escrituras porque é preciso que se cumpra absolutamente o que está escrito no Antigo Testamento.

Essa expressão usada pelos evangelistas proferida por Jesus para que se cumpram as Escrituras do povo judeu na pregação cristã primitiva resume-se na fórmula querigmática transmitida por Paulo. “De fato, eu vos transmiti, antes de tudo o que eu mesmo tinha recebido, a saber: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, foi sepultado e no terceiro dia foi ressuscitado” (1Cor 15,3-5) e Paulo acrescenta “é isso que tanto eu como eles temos pregado e essa a fé que abraçastes” (1Cor 15,3-5). A fé cristã não está baseada somente em eventos mas na conformidade desses eventos com a revelação contida nas Escrituras do povo judeu.

Paulo em seu discurso aos judeus de Antioquia da Psídia, recorda esses eventos dizendo que os “habitantes de Jerusalém e seus chefes não reconheceram Jesus e ao condena-lo cumpriram as profecias que se leem todos os sábados (At 13,27).

No evangelho de Mateus uma frase de Jesus reivindica uma perfeita continuidade entre a Torá e a fé dos cristãos: “Não penseis que vim abolir a Lei e os Profetas. Não vim para abolir mas para cumprir” (Mt 5,17).

Ela entra em tensão com a relativização da observância do sábado (Mt 12,8-12) e da pureza ritual (Mt 15,11) em outros expressões do Senhor.

No evangelho de Lucas, o ministério de Jesus começa com um episódio no qual, para definir a própria missão, Jesus recorre a um oráculo do livro de Isaías (Lc 4,17-21; Is 61,1-2).

No evangelho de João, Jesus atribui aos escritos de Moisés ... uma autoridade preliminar ... das suas próprias palavras, quando diz aos seus adversários: “Mas, se não acreditais nos seus escritos como podereis crer nas minhas palavras?” (Jo 5,47). Ainda neste evangelho Jesus afirma que as suas palavras são “espírito e vida”, uma frase como essa confere a Tora uma importância primordial.

Nos Atos dos Apóstolos os discursos de Pedro, Filipe, Paulo e Barnabé Tiago colocam em perfeita continuidade com as Escrituras do povo judeu os eventos da Paixão, da Ressurreição, de Pentecostes e do Envio Missionário da Igreja.

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