Uma janela sobre o mundo bíblico

Cidades bíblicas: Caná e Cafarnaum



  • Estudo
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  • 08/06/2014
Marcio Murilo Martins

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Trabalhos do Curso de Especialização Estudos Bíblicos da Faculdade Católica de Santa Catarina (FACASC), sob a orientação da Professora Silvia Togneri.

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Aluno: Marcio Murilo Martins

1. Justificativa

A livre escolha da pesquisa bíblico-arqueológica em torno das cidades subseqüentes, dentro das opções apresentadas, deveu-se à simpatia deste acadêmico pelos “lugares teológicos” significativos das mesmas. Primeiramente, Caná da Galiléia: o ambiente do “princípio dos sinais” de Jesus de Nazaré, segundo os escritos do “discípulo amado”, e uma das poucas cenas manifestadas por aquele narrador evangélico, na qual a sua mãe, Maria, mediou o auxílio do Mestre para que, mesmo não tendo chegada a sua “hora”, “manifestasse-lhes a sua glória”. Uma segunda escolha, Cafarnaum: segundo os escritores sinóticos, prioritariamente, a cidade sede da ação ministerial e evangelizadora de Jesus Cristo, em que firmara a sua residência após sair de Nazaré, e de onde promovera e defendera a vida. Cafarnaum é o lugar da manifestação, da experiência, da misericórdia, da vitória e do poder de Deus.

2. Caná da Galiléia

“No terceiro dia, houve um casamento em Caná da Galiléia, e a mãe de Jesus estava lá... Este início dos sinais, Jesus o realizou em Cana da Galiléia. Manifestou-se sua glória, e os seus discípulos creram nele.” (Jo 2,1.11)

O primeiro sinal de Jesus Cristo, conforme o relato evangélico da comunidade do “discípulo amado”, a quem a tradição cristã associa como sendo o Apóstolo São João, inicia-se numa festa de casamento na cidade de Caná da Galiléia, na província norte da Palestina neo-testamentária.

Poucas referências históricas e arqueológicas têm-se de Caná, muitas das quais imprecisas. Esta cidade não está mencionada nos livros do Primeiro Testamento. No Segundo Testamento, além da ocorrência do “primeiro sinal” de Jesus de Nazaré (cf. Jo 2,1-11), é citada uma segunda vez quando de uma revisita do próprio Jesus ao lugarejo (cf. Jo 4,46) e numa referência a Natanael, um dos Doze, natural de Caná, no episódio da aparição do Ressuscitado aos seus Apóstolos às margens do Mar de Tiberíades (cf. Jo 21,2). Somente os relatos evangélicos joaninos referem-se à Caná galileia.

A localização geográfica de Caná não é muito segura. A tradição bíblica a situa em Kefr Kenna, aproximadamente a 8 Km na direção nordeste de Nazaré, na Baixa Galiléia, encravada na borda de ricos vales. Entretanto, outros estudiosos associam-na a Khirbet Qanah, a uns 14 Km ao norte de Nazaré.

Recentes expedições arqueológicas, principalmente do grupo “Autoridade das Antiguidades de Israel”, atestam que Caná era uma vila judaica que perdurou por 700 anos durante os domínios dos impérios helenista, romano e bizantino. A arqueóloga Yardna Alexander associa tal vila judaica como sendo a cidade na qual acontecera a festa de casamento mencionada no referido escrito joanino. As escavações arqueológicas encontraram algumas edificações com paredes rochosas de até 1 metro e meio de altura. Nas casas e construções foram achadas pedras para moer o trigo e no preparo de azeite. Outra descoberta interessante foi a de uma piscina batismal com a dimensão de 4 metros e meio de comprimento, 2 metros de largura e 2 metros de profundidade. Justifica-se esta piscina para o uso da “purificação” judaica.

No ano 70 da era cristã, com a destruição do Templo de Jerusalém, centro político-religioso de Israel, e a conseqüente expulsão dos judeus da “cidade santa”, diversas famílias sacerdotais judaicas foram refugiar-se em cidades da Galiléia, ao norte da Palestina, inclusive em Caná. Aceita-se, também, que 100 anos após o evento das bodas em Caná e do primeiro sinal de Jesus de Nazaré, a vila tornou-se a sede da linhagem sacerdotal de Eliashiv. Em duas ocasiões, a cidade é mencionada fora do contexto bíblico: numa descrição do século II d.C. (Eleazar Kleir) e numa inscrição romana encontrada em Cesaréia.

3. Cafarnaum

“... Jesus retirou-se para a Galiléia. Deixou Nazaré e foi morar em Cafarnaum, às margens do mar da Galiléia, no território de Zabulon e de Neftali, para cumprir-se o que foi dito pelo profeta Isaías...” (Mt 4,12b-14).

Cafarnaum tornou-se a cidade centro da atividade evangelizadora de Jesus de Nazaré, na qual estabelecera a sua residência. Cafarnaum é a “cidade de Jesus”: “Entrando num barco, Jesus passou para a outra margem do lago e foi para a sua cidade” (Mt 9,1).

Diferentemente de Caná da Galiléia, tem-se de Cafarnaum melhores referências históricas, geográficas e bíblicas.

Cafarnaum, de palavra semítica (aramaica), para alguns autores significa “cidade ou aldeia ou vila de Naum”. Está citada apenas no Segundo Testamento. Por isso, torna-se difícil relacioná-la a Naum, o profeta. Provavelmente o seu nome está associado ao tipo de solo sobre o qual está edificada: basalto negro. Situa-se na margem norte do Lago ou Mar da Galiléia (cf. Mt 4,13.18; 9,1) ou Lago de Genesaré (cf. Mt 14,34; Lc 5,1) ou Mar de Tiberíades (cf. Jo 6,1; 21,1), no noroeste da Palestina, a uns 5 Km a oeste da foz do Rio Jordão e a 35 Km da aldeia de Nazaré. Com determinada segurança, afirma-se que, na atualidade, a Cafarnaum galileia é Tell Hum, cujas coordenadas geográficas são: latitude: 32° 52' 52" Norte, e longitude: 35° 34' 30" Oeste.

  Como já fora mencionado, em Cafarnaum Jesus fixara sua residência com seus discípulos e iniciara o seu ministério público. Alguns de seus apóstolos já moravam anteriormente na cidade e, portanto, foram ali chamados ao seu seguimento: os pescadores Pedro e seu irmão André, Tiago e João, filhos de Zebedeu (cf. Mc 1,16.19), e Levi-Mateus,  filho de Alfeu, um cobrador de impostos (cf. Mc 2,13-14).

Muitos prodígios Jesus realizara em Cafarnaum, mesmo que em algumas passagens evangélicas, em especial as sinóticas, o nome da cidade não estivesse declarado. Contudo, diversas citações poderão ter suas ocorrências verificadas em Cafarnaum: ensinara na sinagoga aos sábados (cf. Mc 1,21; Lc 4,31; Jo 6,59); curara um criado do centurião romano (cf. Mt 8,5-13) e um paralítico apresentado a Jesus numa abertura no teto em que se encontrava (cf. Mc 2,1-12); expulsara o espírito impuro (demônio) de um homem na sinagoga (cf. Lc 4,33-37); discutira com os cobradores de impostos sobre o pagamento dos tributos devidos ao Templo (cf. Mt 17,24-27); presenciara a discussão dos Doze sobre quem seria o maior dentre eles (cf. Mc 9,33-37); amaldiçoara a cidade, entre outras, devido à sua incredulidade e à sua recusa ao arrependimento (cf. Mt 11,23; Lc 10,15); curara o filho de um funcionário do rei (cf. Jo 4,46-54); pregara o discurso sobre o “pão da vida”, escandalizando muitos de seus discípulos (cf. Jo 6,59-66).

No tempo de Jesus, Cafarnaum era o principal centro comercial e social da região. Apesar de ser uma modesta aldeia de pescadores e de possuir uma estrutura precária, era um centro coletor de impostos de alfândega e detinha uma guarnição romana. Segundo Sotelo1, o vilarejo era um próspero centro comercial, que servira de entreposto para as regiões norte e leste da Galiléia.

O historiador dos primórdios da era comum, Flávio Josefo mencionara que Cafarnaum envolvera-se na primeira revolta contra o império romano. Fontes do “talmude”, a doutrina e jurisprudência da lei mosaica, registram que uma comunidade cristã certamente existira na aldeia por volta do século II d.C. No final do século IV d.C., Egeria, uma peregrina cristã, incluíra paradas na cidade durante suas viagens à Terra Santa. No século VII fora destruída, mais precisamente em 746, por um grande terremoto, do qual não mais se restaurara. E no século XII um escritor anônimo refere-se à Cafarnaum como “um lugar de pescadores pobres que viviam com suas famílias”.

Avaliando o seu contexto social, a partir das recentes descobertas, Kaefer2 afirma que Cafarnaum não possuía muralha, portão de entrada, construções greco-romanas, edifícios públicos, hipódromo, teatro ou ruas pavimentadas, à semelhança de sua cidade vizinha Tiberíades, a uns 15 Km ao sul. As escavações arqueológicas não encontraram templos, nem inscrições públicas tão comuns naquelas cidades da época. Suas casas eram simples e rudes: construções de madeira, barro e palha. Portanto, a sua população era de empobrecidos, doentes e pescadores, sensíveis à mensagem de Jesus Cristo.

Seu comércio era informal e feito ao ar livre. No cotidiano, os homens dedicavam-se à pesca e ao conserto das redes e dos barcos, e as mulheres, à moenda de grãos e à venda de produtos do campo (frutas). Havia algumas pequenas fábricas de cerâmica, de tinturaria, curtume, moinhos movidos por mulas e prensas de oliva. E nada escapava do imposto romano!

Em 1838, Cafarnaum foi alvo das primeiras investigações arqueológicas. O geógrafo Edward Robinson fez escavações nas ruínas da aldeia, a partir de um antigo conjunto arquitetônico, concluindo tratar-se de uma sinagoga. Em 1866, o inglês Charles Wilson retomou as pesquisas, identificando o local como sendo realmente Cafarnaum, e definindo que a sinagoga encontrada anteriormente fora construída por um centurião romano, mencionada pelo evangelista Lucas (cf. Lc 7,5) e freqüentada por Jesus (cf. Mc 1,21). Em 1881, as pesquisas de H. H. Kitchner alavancou a procura de peças de valor arqueológico, vendidas no mercado de antiguidades, fazendo sofrer a conservação daquele patrimônio histórico. Tanto que, a partir de 1894, a ordem franciscana adquiriu o local, mantendo a sua conservação e impedindo o desrespeito à herança arqueológica. Após diversas tentativas positivas de retomada do estudo das ruínas, em 1968, com os franciscanos Virgílio Corbo e Stanislao Loffreda, as pesquisas ganharam um novo impulso, permitindo consideráveis descobertas.

Quanto àquela sinagoga, muitos argumentos são favoráveis de que a sua construção é do século IV, a partir do encontro de moedas e de cerâmica no seu piso, e construída sobre o mesmo lugar daquela sinagoga freqüentada por Jesus de Nazaré. Em 1926, fora reconstruída parcialmente, sobressaindo-se dos demais edifícios de Cafarnaum do século IV, devido às pedras brancas e cinzas de caliça das paredes, colunas e pavimento. Interessantes são duas inscrições dos seus benfeitores encontradas em duas colunas: uma em aramaico: “Halfu, filho de Zebida”; e outra em grego: “Herodes, de Monimos, e Justo filho, com seus filhos, erigiram esta coluna”.

Na segunda metade do século XX, arqueólogos franciscanos escavaram no lado sul da sinagoga, encontrando ruínas de uma igreja octogonal do século V. Tal construção fora feita sobre três estratos (camadas), o que indica que uma primeira construção do século I teria sido a casa de Pedro e André, apóstolos (cf. Mc 1,29). A peregrina Egeria, em 381, testemunhara que a casa do “príncipe dos apóstolos” fora transformada em igreja, mantendo-se suas paredes originais. Em 570, o peregrino Piacenza descrevera que “A casa de Pedro é agora uma basílica”, o que se verifica no segundo estrato das ruínas do século IV. Em 636, na invasão árabe, a sinagoga e a igreja-casa, já tinham sido destruídas, devido aos confrontos entre judeus e cristãos nos primeiros séculos. Contudo, a maior destruição ocorreria em 746 pelo terremoto. A igreja atual fora construída recentemente, em 1990, sobre as antigas ruínas, preservando-se sua estrutura octogonal e centralizada na casa de Pedro.
Nesta mesma estrutura, encontraram-se em torno de 100 grafites, gravados por peregrinos. Alguns estão escritos em grego, aramaico, siríaco, hebraico e latim. Referem-se a Jesus como “Senhor” ou “Cristo”. Pedro é mencionado duas vezes, mas não se confirma que o nome seja referido ao apóstolo, dono da casa.

Nas escavações em Cafarnaum, encontrou-se um “ostracon” triangular (fragmento de cerâmica com uma inscrição), de 4x5 cm de medida, cuja datação aproximada está entre o período romano e bizantino, por volta de 200 a 400 d.C. A inscrição em aramaico deste fragmento cerâmico é de um valor significativo para as escavações na Palestina: “Purificai a escória do vinho, seu sangue, oh! Senhor”. O arqueólogo Corbo (1968) sugeriu que este fragmento é de um vaso utilizado na celebração eucarística. Entretanto, J. F. Strange ofereceu uma outra interpretação, reportando-se ao fabricante da peça, sem as implicações de culto. São interpretações que somente poderão ser definidas a partir das possibilidades da datação precisa da peça.

Em 1986, dois irmãos do kibutz (cooperativa judaica) Ginossar encontraram um pequeno barco, medindo 26 pés por 8 pés (cerca de 7,90 m de comprimento por 2,40 m de largura). Com técnicas especiais, retirou-se a embarcação sem danificá-la. Com o auxílio do carbono 14, comprovou-se, a partir de uma lamparina e de um pote de cerâmica nele encontrados, a sua datação no século I d.C. O barco se encontra atualmente no museu Ygal Allon, no kibuts Ginossar.


Bibliografia

ALEXANDER, David e Pat (Org). O mundo da Bíblia. 2.ed. São Paulo: Edições Paulinas, 1986
CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). Bíblia Sagrada, 6.ed. Brasília: Edições CNBB, 2007
HORSLEY, Richard A. Arqueologia, história e sociedade na Galiléia – O contexto social de Jesus e dos rabis. São Paulo: Paulus, 2000
KAEFER, José Ademar. Arqueologia das terras da Bíblia. São Paulo: Paulus, 2012
MACKENZIE, John L. Dicionário bíblico. São Paulo: Edições Paulinas, 1983
SBB (Sociedade Bíblica do Brasil). Chave bíblica. Brasília, 1970
SOTELO, Daniel. Arqueologia bíblica – Uma introdução aos conceitos e técnicas. São Paulo: Editora Cristã Novo Século, 2003
VAN DEN BORN, A. (Redator) Dicionário enciclopédico da Bíblia. Porto Alegre: Vozes, 1983

Outros


1 SOTELO, Daniel. Arqueologia bíblica, pg. 75-93

2 KAEFER, José Ademar. Arqueologia das terras da Bíblia, pg. 69-76

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