Uma janela sobre o mundo bíblico

Cidades bíblicas: Siquém



  • Estudo
  • 20637
  • 02/07/2014
Ivenes Pacheco Rodrigues

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Trabalhos do Curso de Especialização Estudos Bíblicos da Faculdade Católica de Santa Catarina (FACASC), sob a orientação da Professora Silvia Togneri.


Ao iniciar o trabalho e os estudos solicitados na matéria “Arqueologia e Geografia Bíblicas”, optei por pesquisar sobre a cidade de Siquém. Não porque conhecia muitas informações sobre ela. Pelo contrário, conheci um pouco de Siquém através desta pesquisa. Tive algumas dificuldades, porque, apesar de sua grande importância no mundo bíblico, as bibliografias que consegui pesquisar me pareceram pouco profundas ao discorrerem sobre esta cidade.

 

1. Introdução

A cidade de Siquém faz parte da história do povo da Bíblia de uma maneira muito peculiar, e porque não dizer: muito importante. Grandes personagens bíblicos transitaram em suas “andanças” por esta cidade.

A antiga Siquém, em aramaico sicara, ou a atual aldeia de Askar, fica aos pés do monte Ebal, a uns mil metros do “poço de Jacó”. Situada a 65 kms ao norte de Jerusalém, está a leste do Rio Jordão e a Oeste do Mar Mediterrâneo. Possui uma temperatura média anual em torno de 24º C. Estava situada num planalto entre os montes Ebal e Garizim.

Siquém aparece nos livros da 1ª Aliança muitas vezes, onde personagens bíblicos de extrema relevância por ali caminharam: Abraão, Jacó, José do Egito, Josué. Jesus, em sua época, também caminhou por ali. Assim, ora para tomar posse, ora para lutarem, ora para enterrarem seus ossos, ora para que alguma personalidade falasse ao povo, ora para se reunirem em tribos, ora para tomar água em seus poços, Siquém foi construindo sua história junto dos povos da Bíblia.

 

2. História

Segundo METZGER, 2002, p.306, Siquém foi uma:

“Importante cidade Cananéia, posteriormente israelita, na região montanhosa de Efraim. Esta cidade aparece pela primeira vez na história registrada como inimiga do Egito, num texto de execração e numa estela do séc. XIX a.C. Durante o período Amarna (séc. XIV a.C.), Siquém sob seu soberano Labyu, e os filhos dele, afirmou-se contra as demais cidades-estado cananéias e, por conseguinte, contra a hegemonia egípcia em Canaã, que estava se enfraquecendo”

Interessante que a cidade de Siquém no séc. XIV a.C. alia-se aos hapirus contra o domínio egípcio. Não é à toa que “Siquém se tornará a primeira capital do Reino do Norte, sob Roboão” (PEREGO, 2001, p.32), mesmo que por pouco tempo.

Já o Dicionário da Bíblia, p. 306 afirma: “Foi a Siquém que Jeroboão se dirigiu para ser coroado primeiro rei de Israel, e ela serviu como primeira capital”. O que parece certo é que Siquém foi no seu início, por causa de sua posição geográfica, um importante centro econômico desde a época dos Patriarcas.

De acordo com o METZGER, p. 306, “Siquém situava-se no sítio de Tell Balatah, guardando o desfiladeiro entre o Monte Ebal ao norte e o Monte Garazim ao sul, perto da Nablus moderna”. 

Assim como outras cidades cananéias, depois israelita, percebi que, de acordo com as leituras, Siquém foi construída e destruída inúmeras vezes, seja pelos faraós egípcios no séc. XVIII a.C., seja por Abimelec no séc. XII a.C., seja pelos Assírios em sua campanha de conquista do Reino do Norte de Israel (724 – 722 a.C.). A cidade foi finalmente destruída em 107 a.C. pelo asmoneu João Hircano.  

 

3. Siquem na Bíblia

Siquém aparece inúmeras vezes nos relatos bíblicos. Foi rota de passagem de Patriarcas, foi ponto de reunião das tribos, foi lugar de cisma entre os judeus, separação dos Reinos do norte e do Sul. Vejamos algumas passagens escritas que retratam a Siquém bíblica.

3.1. Abraão

Quando YHWH diz para Abrão “Sai da tua terra” (Gn 12, 1), com todas as promessas à casa dele, é em Siquém que Abrão ergue um altar e ali ouve de YAWH: “é à tua posteridade que eu darei esta terra” (12, 6-7).

3.2. Jacó

Jacó também fez uma viagem e, no caminho, já próximo a Siquém, tendo lutado “contra” Deus, recebeu o nome de Israel. Chegando a Siquém, Jacó adquiriu seus direitos (Gn 33, 18-20). E em Siquém ergueu um altar para El, Deus de Israel.

3.3. José do Egito

Outro episódio bíblico que chama a atenção para a importância de Siquém para o povo israelita, é que foi nesta localidade que os ossos de José foram depositados. Acompanhemos o relato conforme Js 24, 32: “Os ossos de José, que os filhos de Israel trouxeram do Egito, foram sepultados em Siquém, na parte do campo que Jacó havia comprado dos filhos de Hemor, pai de Siquém, por cem peças de prata e que veio a ser propriedade dos filhos de José.”

3.4. Josué

Foi em Siquém que Josué, já idoso, reuniu os israelitas para orientar que seguissem a Deus sobre todas as coisas (Js 24). Foi a grande assembleia de Siquém. A Bíblia de Jerusalém, ao comentar o Gn 24, 1, nota de roda-pé, diz que Siquém era, pela sua posição central, um lugar favorável à reunião das tribos. Foi nesta cidade que Josué ensinou os israelitas a manterem entre si suas tradições, para que sua cultura não morresse.

3.5. Jesus

É na região de Siquém que a comunidade Joanina narra uma das mais belas passagens da vida de Jesus: um encontro entre dois povos ali representados: Samaritanos e Judeus. Jesus e a samaritana (Jo 4, 1-28).

 

Conclusão

Conforme pudemos observar, Siquém teve seu lugar de importância no tempo de formação da Bíblia e do povo hebreu. Nos dias atuais, a antiga Siquém é agora lugar de conflitos. O túmulo onde se acredita estarem os ossos de José do Egito foi depredado por árabes em outubro de 2000. Somente em 2007 os judeus puderam voltar ao monumento, e tentam restaurá-lo desde então.       


Referências

  • A BÍBLIA DE JERUSALÉM. Tradução do texto em língua portuguesa diretamente dos originais: publicado sob a direção da “École Biblique de Jérusalem”. São Paulo / SP. Ed. PAULUS 1973.
  • PEREGO, Giacomo. Atlas Bíblico Interdisciplinar: escritura, história, geografia, arqueologia, teologia: analise comparativa. 2. ed. São Paulo / SP: Paulus, 2001.
  • METZGER, Bruce M., COOGAN, Michael D. Dicionário da Bíblia: as pessoas e os lugares. Traduzido por Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro / RJ: Jorge Zahgar Editora, 2002.

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