Uma janela sobre o mundo bíblico

Cidades Bíblicas: Nazaré



  • Estudo
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  • 04/07/2014
Ellen Zagarese

Trabalhos do Curso de Especialização Estudos Bíblicos da Faculdade Católica de Santa Catarina (FACASC), sob a orientação da Professora Silvia Togneri.


Nazaré (Natsrat, em hebraico) é a “flor da Galileia”*, como declarou São Jerônimo - tradutor da Bíblia para o Latim -, pois foi o berço do Cristianismo, o chão onde o pequeno Jesus aprendeu a caminhar e a falar; cresceu e foi educado; aprendeu a viver em sociedade e frequentou a Sinagoga. Era conhecido como um homem local e ali viveu com a Sua família até, aproximadamente, trinta anos de idade, quando deu início ao Seu ministério (Lc 3, 23).

A cidade está localizada numa colina da Galileia Baixa, no centro de um vale rodeado por montes altos, que formam a parte mais ao sul da cadeia de montanhas do Líbano. Está a 350m acima do nível do Mar Mediterrâneo, a cerca de 25 km do Mar da Galileia, nove à oeste do Monte Tabor, e a 115 km de Jerusalém. E ao sul da cidade, entre o Mar da Galileia e o litoral do Mar Mediterrâneo, fica a Planície de Esdrelon (ou Vale de Jezreel), que é muito importante para a economia de Israel.

Nazaré é a capital econômica-administrativa e a maior cidade do Distrito Norte de Israel, e também funciona como a capital árabe para os cidadãos árabes de Israel, que constituem a imensa maioria da população. Embora seja a cidade com a maior população cristã de Israel (40%), a grande maioria dos seus habitantes é muçulmana. De acordo com a última estatística oficial, a cidade tem 65.000 habitantes, sendo 68,7% de muçulmanos e 31,3 de cristãos. E se considerada a grande área metropolitana, formada pela junção com os diferentes Conselhos locais (ao norte, com a cidade adjacente de Nazaré Illit, onde reside a maior parte dos judeus; ao sul; à leste e à oeste), são 185.000 habitantes, dos quais mais de 145.000 são árabes.

Além daquelas diferenças étnicas e religiosas, entre os próprios cristãos  existem importantes distinções em Nazaré, haja vista a situação da custódia dos grandes Santuários, distribuída entre os Católicos Romanos e os Ortodoxos.

É a cidade onde o sagrado convive com o cotidiano. O lugar onde os mistérios e as riquezas da fé cristã são guardadas; onde Deus é adorado nos Altares do Seu Santo Sacrifício; onde as celebrações e o respeito são fundamentais; onde Imagens e recordações são veneradas; onde a história e a fé caminham juntas; o silêncio é possível no meio da multidão; as bocas se calam para dar vez aos olhos e aos ouvidos; as orações e os rituais são especialmente dedicados e motivados pela ambientação; o antigo se mistura com o novo; e a iluminação combina com o aroma.

Há poucas fontes escritas e por isso são muitas as especulações e controvérsias sobre a história da pequena Nazaré, porém, é sabido que no século I d.C. era uma pequena aldeia judaica, localizada dentro de um vale, rodeado de olivais e vinhedos, que desciam pelas encostas dos montes. Era um vilarejo sem importância social, cultural, política ou econômica, com aproximadamente 20 a 30 famílias, que moravam em casas baixas e aglomeradas, na maior parte encravadas nas encostas dos morros, para dentro dos quais ficavam os cômodos interiores.   

Tais características nos revelam que, mesmo para a época, eram casas muito rústicas, escuras e mal ventiladas, mas, por outro lado, frescas no verão e bem protegidas no inverno.

            Para alguns pesquisadores, como para o arqueólogo americano James Strange, que inicialmente chegou a acreditar que o número de habitantes naquela época poderia chegar até dois mil, e depois, numa publicação subsequente, aposta em um número máximo de 480 pessoas.

O fato é que não se pode saber com certeza qual o destaque que Nazaré tinha no primeiro século e qual o número de seus habitantes, porém, o entendimento mais comum entre os historiadores é que antes dos acontecimentos do Novo Testamento era uma insignificante comunidade, que vivia da agricultura e do trabalho dos artífices e carpinteiros, que atendiam principalmente às necessidades dos viajantes.

Alguns historiadores e arqueólogos, que fazem a reconstrução da vida em Nazaré nos primeiros séculos da nossa Era, acreditam que as caravanas poderiam vir de Damasco ou de Jerusalém, buscando os poços de água e os albergues que o lugarejo possuía.

Embora Nazaré, no tempo de Jesus, oferecesse hospitalidade, isso nem sempre resultava na melhor fama para a aldeia, que muitas vezes era tida como um lugar mal frequentado. É o que concluem muitos estudiosos e comentaristas a respeito das palavras de Natanael, no Evangelho de São João 1,46: “Pode, porventura, vir coisa boa de Nazaré?”.

Aquelas palavras bíblicas podem significar que Nazaré era menosprezada até mesmo pelos judeus, que consideravam aqueles habitantes de etnia mesclada, impuros e rústicos, além de pouco fiéis às leis e aos ritos judaicos. Por isso, quando Jesus começou a ser conhecido como um poderoso rabi, os judeus escarneciam, dizendo: “Pode vir um profeta de um povoado tão pequeno e de fama tão duvidosa?!” Razão pela qual o próprio Jesus dizia, por ocasião das suas visitas a Nazaré: “Um profeta só não é respeitado em seu próprio país, entre a sua própria gente e em seu próprio lar”. E pela falta de fé do seu povo, que O viu crescer como um simples homem local e filho de um carpinteiro, Jesus não realizou grandes milagres ali. Os nazarenos até mesmo tentaram matar Jesus jogando-O de um penhasco, como podemos ler em todos os Evangelhos (Lc 4,16-30; Mt 13, 53-58; Mc 6, 1-6; e Jo 4, 44 . 7, 5).

Nazaré hoje

Hoje, Nazaré é um centro bem urbanizado, atrativo e importante, para Israel  e para toda a humanidade, acolhendo durante todo o ano uma intensa peregrinação, tanto de fiéis e devotos cristãos, procurando experiências espirituais, como de cientistas e pesquisadores, especialmente arqueólogos, que buscam evidências materiais das histórias narradas nos Livros Sagrados.

Os visitantes também desejam contemplar as paisagens e as belezas naturais da cidade, assim como os traços culturais que ali foram preservados ao longo dos séculos, em contraste com as modernidades dos novos tempos, que dão a condição para receber o imenso fluxo de turistas.        

Outro motivo que desperta a curiosidade e o interesse de sociólogos, com relação à atual cidade de Nazaré, é a pacífica convivência entre as diferentes etnias e religiões, ainda que dentro de uma região conhecida por tantos conflitos étnicos, religiosos e territoriais. Assim pondera o professor e sociólogo, Chad Emmet, no  livro intitulado “Além da Basílica: cristãos e muçulmanos em Nazaré” (pp. 103-105). 

É importante ressaltar que o que faz de Nazaré um dos principais centros de peregrinação do mundo é a sua relação com a Bíblia, desde quando foi citada e identificada no Novo Testamento como o local onde o Anjo Gabriel visitou a Virgem Maria, nascida e criada naquela pequena aldeia, para anunciar-lhe o nascimento de Jesus, o Filho de Deus (cf Lc 1, 26-38).

Os principais e mais atrativos pontos de visitação em Nazaré, que celebram eventos bíblicos, são:

-   Santuário da Anunciação, o maior do Oriente Médio, que é de Tradição Católica Apostólica Romana e marca o local onde o Anjo Gabriel anunciou o nascimento de Jesus à Virgem Maria;

-   Igreja Ortodoxa de São Gabriel, construída pelos ortodoxos, que consideram uma outral possibilidade de lugar aonde se deu a Anunciação;

-   Igreja Sinagoga, Greco-Católica Melquita, que, de acordo com a Tradição, foi o local da pregação de Jesus;

-   Igreja da Carpintaria de São José, que ocupa o lugal onde a Tradição diz que funcionava a oficina de José;

-   Igreja Mensa Christi, gerida pela Ordem Religiosa dos Franciscanos, celebra o lugar onde Jesus fez sua refeição com os Apóstolos, após a Ressurreição;

-   Basílica de Jesus Adolescente, da Ordem Religiosa dos Salesianos, que está em um morro próximo à cidade.

Pesquisas sobre Nazaré

A moderna Basílica da Anunciação fica no centro de Nazaré e foi construída em 1969, em cima das ruínas de três Igrejas anteriores. É a mais antiga atribuída ao período Bizantino do século IV d.C. Existe uma caverna no seu interior, à qual a Tradição Católica Romana credita ter sido a casa da família de Jesus.

Contudo, ainda existem dúvidas e opiniões divergentes por parte de alguns pesquisadores, sobre as Tradições celebradas em Nazaré e sobre a interpretação dada àquelas citações bíblicas, do ponto de vista histórico-científico, chegando, até mesmo, ao questionamento sobre a existência da antiga Nazaré, ou sobre a sua idade, já que alguns historiadores mais antigos do primeiro século, como Josefo, e algumas antigas fontes judaicas, de antes do século III, não mencionaram a aldeia nos seus relatos. Porém, isso apenas reflete a falta de proeminência da aldeia, tanto na Galileia como na Judeia. Da mesma forma, também deixaram de citar muitos outros povoados da Galileia. Assim como a Bíblia também não menciona a cidade de Séforis, vizinha de Nazaré, embora fosse uma importante e fortificada cidade da época do Novo Testamento. E por essa razão, diversos eruditos questionam se uma importante rota comercial de passava por Séforis ou, mais abaixo, por Nazaré. Não obstante, sem consideração do tamanho ou do destaque dado a Nazaré,  ela era convenientemente localizada para rotas de comércio, o que favorecia a sua relação com outras comunidades vizinhas e o acesso às informações e notícias da redondeza.

Independente dos questionamentos e controvérsias de alguns, mesmo diante das revelações e descobertas científicas já existentes, a Arqueologia segue encontrando evidências extremamente importantes e decisivas, que cada vez mais fundamentam e dão razões à fé (embora a fé dispense a atividade científica), e comprovam os textos bíblicos. Para exemplificar, as pesquisas arqueológicas encontraram restos humanos, a cerca de duas milhas de Nazaré, que sugerem um centro funerário e religioso, datado de milênios, além de muitos túmulos da época de Jesus. Também muitos poços e cisternas de armazenamento, alguns dos quais remontam ao primeiro período romano, foram encontrados no complexo do Santuário da Anunciação.           

No árduo trabalho de escavação, um grande muro foi exposto, datando do período mameluco (século XV d.C.), que foi construído em cima de uma parede de um edifício anterior. Nesse antigo edifício tinham dois quartos e um pátio com uma cisterna escavada na rocha, na qual a água da chuva era recolhida. Os artefatos recuperados dentro do prédio foram poucos e a maior parte são fragmentos de vasos de cerâmica da primeira época romana (séculos I e II da nossa Era). Além desses, vários fragmentos de vasos Chalk foram encontrados, que provavelmente eram utilizados em ritos judaicos, porque não ficavam impuros.

A entrada de um poço de água escavado na rocha, aparentemente camuflada, sugere um abrigo do período romano posterior, no qual também  foram encontradas algumas cerâmicas. Sobre esse poço, a arqueóloga Yardenna Alexandre diz: “Com base em outras escavações que realizei em outras aldeias da região, o poço foi provavelmente construído como parte dos preparativos dos judeus para proteção durante a Grande Revolta contra os romanos, em 67 d.C.” Disse também que em algumas outras escavações foram encontradas diversas cavernas de sepulcros, próximas de zonas habitadas, que datam do período romano posterior.

O pesquisador Chad Emmet afirma que as escavações arqueológicas na vizinhança da atual Basílica da Anunciação e da Igreja de São José revelaram pedaços de cerâmica da Idade do Bronze (2200 a 1500 a.C.) e artefatos, silos e moinhos da Idade do Ferro (1500 a 586 a.C.). Relata também que casas e sepulturas em pedras, construídas na rocha, foram encontradas e datam da Era Romana, de 63 a.C. a 324 d.C..

Bugatti, o principal arqueólogo nos sítios venerados em Nazaré, desenterrou grandes quantidades de artefatos do final do período romano e do bizantino, que asseguram a indiscutível presença humana ali, do século II em diante.

Yardenna Alexandre, diretora de escavação, em nome da Autoridade de Antiguidades de Israel, relatou uma importante descoberta, que, pela primeira vez,    mostrou uma casa da aldeia judaica de Nazaré, a qual pode dar luzes sobre o modo

de vida no tempo de Jesus. E assim ela detalhou: “O edifício encontrado é pequeno e modesto, e é muito típico das habitações do mesmo período em Nazaré”. Contudo, na opinião de outros arqueólogos, ainda não há certeza quanto à data daquela edificação, se é do período de Jesus ou não.

Na metade do ano de 1990, um lojista, chamado Elias Shama, descobriu túneis sob sua loja, situada próxima ao Poço de Maria. Os túneis foram identificados como sendo o hipocausto (forno) de uma terma. O sítio ao redor foi escavado nos anos de 1997/98 e os restos arqueológicos expostos foram datados dos períodos romanos, cruzados, mamelucos e otomanos.

Finalmente, Jack Finnegan descreve provas arqueológicas relacionadas ao povoamento da região de Nazaré durante as Idades do Bronze e do Ferro, e acrescenta que Nazaré era um povoado fortemente judaico no período romano. Para ele, a questão crítica agora, sob o ponto de vista do debate acadêmico, é de quando, no período romano, Nazaré veio a existir, ou seja, se os assentamentos começaram antes ou depois do ano 70 d.C., com a Primeira Guerra Judaica.

As pesquisas e as buscas das respostas continuam e, enquanto isso, o fiel peregrino consegue fazer toda a reconstrução da antiga cidade de Nazaré, mais do que nunca viva na sua mente e no seu coração, porque ele vai ali com os olhos de quem crê e de quem é guiado pelo Espírito de Deus, que tudo fala, explica e satisfaz! E, por isso, ele pode desfrutar do que a cidade tem para oferecer, do divino ao humano.

Fontes e Referências:

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Pesquisa realizada por Ellen Zagarese, aluna do Curso de Pós-Graduação em Estudos Bíblicos/ Especialização, na FACASC / Florianópolis, em 22/11/2013.

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