Uma janela sobre o mundo bíblico

Aonde podemos ter certeza que existe céu e inferno? Será mesmo que o inferno é um lago de fogo?



  • Pergunta de Renata, Maceió
  • 41225
  • 07/11/2010
Luiz da Rosa

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Embora a Bíblia fale claramente de Céu e Inferno, para onde vamos depois da morte é um mistério. Não mistério no sentido de coisa escondida, mas mistério como algo compreensível somente no âmbito da fé. Sabemos que temos uma “moradia” preparada para nós e que somos destinados à vida eterna, mas não como isso acontecerá. Graças, também a influências de obras literárias, como a Divina Comédia de Dante, pensamos sempre em Céu, inferno e Purgatório (este último para os católicos), como 3 ‘locais’ para onde eventualmente iríamos depois da morte. O céu reservado aos justos, o inferno àqueles condenados e o purgatório, como se deduz do nome, àqueles que devem purificar-se de seus pecados, mas que não são definitivamente condenados ao inferno.

Céu
A palavra mais importante para designar essa realidade no Antigo Testamento é shamayim (um plural, mais exatamente um dual – “céus”). Objetivamente o vocábulo designa aquilo que não é nem terra nem mar. Até mesmo o ar é indicado com essa palavra, pois em hebraico bíblico não existe um termo para nomeá-lo. Essa palavra aparece 458 vezes no Antigo Testamento. Invés se usa raqia pra indicar o firmamento, obra criada por Deus durante a criação. Essa palavra aparece 19 vezes no A.T. Usa-se também marom (alturas) e shehaqim (nuvens).
O Novo Testamento usa, no lugar de shamayim, ouranos, seguindo a tradução grega dos LXX do A.T.. O vocábulo aparece 284 vezes no Novo Testamento. Se no Antigo Testamento não existia o conceito plural de céu, com a cultura grega isso começou a aparecer e daí derivou a concepção topográfica do céu como um lugar. De fato, no A.T. existem apenas algumas insinuações sobre uma possível “viagem” ao céu (Jó 38,22-24; Salmos 139,8; Provérbios 30,4). Talvez essa “viagem” é mais evidente nos personagens Enoch e Elias, levados ao céu, e também nas visões de Ezequiel.

Aquilo que faz relacionar a vida depois da morte com o céu é a afirmação bíblica que Deus mora no céu (Deuteronômio 4,39; Isaías 63,15; Salmos 2,4; 89,12, etc.). Para o cristão, a própria morte é unita à morte de Jesus e se ele ressuscitou, nós também vamos ao seu encontro, entramos na vida eterna. E através da Bíblia temos consciência que, depois da morte, será dado a cada um, em relação às obras e à fé, a retribuição imediata. Essa realidade se demonstra claramente na parábola do pobre Lázaro e também na palavra dita por Cristo na cruz ao bom ladrão, além de outros textos (2Coríntios 5,8; Filipenses 1,23; Hebreus 9,27; 12,23). Céu, portanto, deve ser entendido simplesmente como morada de Deus.

Inferno
No Novo Testamento, existem duas palavras relacionadas com o inferno: hades (reino dos mortos) e geenna.
Hades
Aparece 10 vezes no Novo Testamento (4 vezes no Apocalipse, 2 vezes em Mateus, Lucas e Atos). Normalmente é a tradução da palavra hebraica Sheol. Na representação do mundo antigo e oriental o reino dos mortos é uma parte dos abismos, do mundo subterrâneo. É uma palavra que indica simplesmente o mundo dos mortos, sem uma referência à condenação. Para a teologia cristã, trata-se de um um local temporâneo (veja Apocalipse 20,13 seguintes). De fato, Cristo vencendo a morte, venceu o hades (Atos dos Apóstolos 2,27.31).

Geenna
Transcreve de forma mais plástica a nossa idéia de inferno, ligada sobretudo ao fogo. Esse nome tem origem numa localidade, parte da cidade de Jerusalém: “Vale de Hinnom” (em hebraico ge-hinnom – Josué 15,8). É um vale que se encontra ao sul de Jerusalém, o atual vale de Wadi er-rababi. Neste local, na época de Achaz e Manassés, se realizavam sacrifícios de crianças (2Reis 16,3). Josias purificou o local (2Reis 23,10), mas o profeta Jeremias imortaliza o local chamando-o de Vale do Massacre (7,32). É a literatura apocalíptica antes de Cristo a usar aquele local como destino dos ímpios no dia da purificação (Henoc, 4Esdras). Nesse sentido, também o Novo Testamento, em 12 passagens, designa o lugar do eterno fogo purificador como geenna (11 vezes nos evangelhos e em Tiago 3,6). Enquanto o Hades é uma passagem temporânea, a Geenna é um suplício eterno dos ímpios depois do juízo.

Embora se diga que no inferno, na Geena, se encontra um fogo que nunda se apaga (Marcos 9,45) e que no Apocalipse se sublinhe como se trata de um lago de fogo, que arde com enxofre (19,20 – Veja também Apocalipse 20,10.14; 21,8), a intenção dos textos da Bíblia não é de fornecer detalhes sobre a realidade do estado daqueles condenados eternamente, mas de motivar o justo comportamento dos cristãos, imbutindo um tipo de medo. Isso é evidente no texto de Mateus 5,22 onde se diz: Todo aquele que lhe (ao seu irmão) chamar “renegado” terá de responder na geena de fogo. Essa frase indica que a Geena representa já agora uma ameaça para nós cristãos e não significa apenas uma realidade depois da morte (veja também Mateus 23,15; Tiago 3,6).

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