Uma janela sobre o mundo bíblico

Qual a diferença entre lei e mandamento? E devemos saber os dois para seguir Jesus?



  • Pergunta de Alcides dos Reis, Rio de janeiro
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  • 06/01/2016
Luiz da Rosa

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É uma pergunta bem feita e tem uma resposta complicada. Ela chama a atenção para diversos aspectos da nossa fé cristã, para a importância da Bíblia em nossoas vidas e para a visão necessária em relação ao Antigo Testamento.

 

A Lei (Torah)

Os judeus usam a palavra Torah para significar o que chamamos de Lei, com letra maiúscula. O seu significado é amplo. Em linhas gerais, a Torah é o princípio básico da vida dos judeus e inclui toda a narração da história da salvação: a escolha por parte de Deus, os sofrimentos, a aliança divina que implica um modo de vida regulamentado por uma série de obrigações morais e religiosas. Pode ser entendida também como os 5 primeiros livros da Bíblia (Pentateuco), assim como todos os ensinamentos orais que explicam quanto escrito nos livros bíblicos. Portanto, temos a Torah escrita e a Torah oral.

Etimologicamente, Torah não significa "lei", como tantas vezes é traduzida, mas "ensinamento". E esse é o sentido: ensinamento de Deus para o seu povo.

 

Mandamentos

Os mandamentos normalmente são entendidos como as "10 palavras" (assim chamados pelos judeus) contidas nas tábuas da lei entregues por Deus a Moisés sobre o Monte Sinai. Temos dois textos dessas "10 palavras", em Êxodo 20 e Deuteronômio 5 (veja uma tabela aqui).

Por outro lado, precisamos dizer também que na tradição do judaísmo, os mandamentos (mitzvot) não são exclusivamente as "10 palavras", mas inúmeras outras regras presentes em outros textos bíblicos e também na tradição oral (veja aqui).

 

E nós cristãos?

Além da necessidade de entender didaticamente a diferença entre Torah e Mandamento, nós cristãos nos perguntamos frequentemente que sentido, que valor eles têm para nós, que seguimos a "lei de Cristo". A verdade é que a lei de Cristo é aquela do Antigo Testamento. E com isso coloca as bases para a minha resposta.

Se lemos Mateus 5,17-18 isso se torna muito claro: 

Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas. Não vim revogá-los, mas dar-lhes pleno cumprimento, porque em verdade vos digo que, até que passem o céu e a terra, não será omitido nem um só i, uma só vírgula da Lei, sem que tudo seja realizado.

Jesus não revoga a Torah, mas a leva a realizar-se, a cumprir-se. É por isso que não podemos dizer que a Torah não tem nenhum valor para nós cristãos. Por outro lado é incompleta, pois em Jesus encontramos o seu verdadeiro sentido.

Há vários exemplos nos evangelhos como Jesus trata cada singular mandamento. Alguns aprova e confirma, como o amor ao próximo, outros, invés, releva profundamento o seu significado, como por exemplo "não matar", onde diz que o seu verdadeiro sentido era uma lei contra o ódio (veja Mateus 5,21-26). E outros exemplos existem para cada situação.

Quando lemos os preceitos do Antigo Testamento, principalmente aqueles éticos, devem ser considerados cada vez de maneira separada, refletindo em que modo a vinda de Jesus revela o verdadeiro sentido de tal instrução.

Muitas leis da primeira aliança tem a ver com elementos do culto da religião judaica: sacerdotes, templo, sacrifícios, dízimos. Nesses casos Jesus lhes dá pleno cumprimento. Aquelas leis não eram erradas e não precisavam ser abolidas, mas insinavam para o povo coisas sobre Deus e como se aproximar dEle. Agora, para nós, Jesus é o Sumo Sacerdote, o verdadeiro templo de Deus, o perfeito sacrifício. Para esse aspecto da lei, é importante uma leitura da Carta aos Hebreus.

Uma pergunta que pode ter ficado ainda sem resposta é se precisamos ou não observar os preceitos do Antigo Testamento para sermos salvos. Não precisamos! Na verdade, nem mesmo no Antigo Testamento a observância da Lei levava à salvação, pois foi a graça de Deus que eventualmente trouxe a salvação aos judeus. A Lei permite à humanidade descobrir-se pecodora e faz ver a nós a necessidade de conversão e não traz, em si, a salvação. Veja o que diz Romanos 5,20:

A Lei veio para que o pecado crescesse. Mas onde cresceu o pecado, a graça cresceu muito mais.

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