Uma janela sobre o mundo bíblico

Eu vi uma reportagem no history falando que as primeiras traduções foram feitas por reis e eles colocavam o que lhes interessavam . Quero saber se a tradução é o que está na Bíblia ou pode haver distorções por interesse próprio?



  • Pergunta de Simone Gelio da Silva, Iturama, MG
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  • 16/01/2016
Luiz da Rosa

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Você faz muito bem em desconfiar do que vê na televisão, em documentários dos quais nem sempre se sabe a competência de seus autores. Ver esses documentários enriquece muito, mas saiba que nem sempre transmitem toda a verdade.

Não conheço o documentário que você menciona e, por isso, não falo dele em si, mas daquilo que você cita.

As primeiras traduções da Bíblia foram traduções que nada tinham a ver com reis. A primeira, em absoluto, foi a assim dita Setenta, a tradução do Antigo Testamento, do hebraico ao grego, feita cerca de 200 anos antes de Cristo para os judeus que viviam no Egito, que já não sabiam mais hebraico e queriam o texto sagrado na língua que usavam normalmente. Depois desta tradução, vem o Targum, que é uma tradução (e também paráfrase) do texto hebraico do Antigo Testamento para o Aramaico, falado no tempo de Cristo. Em seguida poderíamos citar a Peshitta, tradução do Antigo Testamento para o siríaco.

Em relação à bíblia cristã, Antigo e Novo Testamento, a primeira tradução é aquela de Jerônimo, feita em Belém, para o latim. É conhecida como Vulgata, que esteve em vigor até há pouco tempo no âmbito litúrgico da igreja católica. Não entramos em detalhes em relação à Vulgata, pois a história é bem complexa e deveríamos falar de "vetus latina" e também de "Nova Vulgata", mas você pode ver os links indicados.

Até algum tempo atrás, muitas traduções eram feitas diretamente da Vulgata de Jerônimo, mas com o desenvolvimento das ciências bíblicas, essa prática foi abandonada e hoje as traduções são feitas diretamente dos originais bíblicos, usando fontes críticas dos textos originais em hebraico, aramaico e grego.

 

Pode haver erros nas traduções?

Um ditado muito ouvido é que todo tradutor é um traidor. Embora não verdadeiro - pois conheço tradutores que se dedicam toda sua vida a serem o mais fieis possível ao texto - esse provérbio mostra que há um perigo na tradução: traduzir significa verter na própria língua uma frase de outra língua. Nesse processo, o tradutor é influenciado pela sua cultura, pela sua identidade, pela sua crença. Por isso ele pode muito bem usar um vocábulo invés de outro. Por exemplo, como traduzir a palavra "agape" de 1Cortíntios 13, "caridade" ou "amor"? Qual é a tradução correta? Muitos escolhem "caridade", como já fez Jerônimo na Vulgata, e outros "amor". A escolha de cada um dos tradutores é influenciada pelo seu background. É um erro a sua escolha?

 

Mistérios em relação ao texto bíblico?

Não existe nenhum mistério! O texto foi bem transmitido e não foram perdidos pedaços. Há muitos testemunhos, espalhados pelo mundoa afora e, confrontando-os, conincidem quase perfeitamente. As variações são insignificantes e não consistem em dados importantes. Portanto, não se deixe surpreender por certa imprensa sensasionalista que bombardeia as ideias com matérias sem fundamento. Todos os casos difícieis são estudados pela crítica textual e as conclusões são disponíveis nas publicações dessa disciplina científica. Não há casos espetaculares, mas pequenas questões que, muitas vezes envolvem, por exemplo a presença ou ausência de um "e" ou outra expressão sem importância para o sentido do texto.

 

Reis influenciaram a tradução da Bíblia?

Não consigo ligar essa preocupação com fatos históricos concretos. Talvez a questão é ligada ao imperador Constantino, que foi a pessoa através da qual o cristianismo se tornou religião reconhecida pelo estado. Todavia, pelo que sei, não há nenhuma determinação desse imperador em relação à Bíblia. Jerônimo fez a sua tradução mais de 100 anos depois da morte de Constantino e nenhuma relação existe entre os dois.

Mais tarde, por exemplo depois do Concílio de Trento, época de Lutero, o Vaticano pediu uma revisão da Vulgata, mas trata-se sempre de revisão, pois o texto já era de domínio público e não podia mais ser modificado.

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