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Os últimos dias de Jesus



  • Estudo
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  • 25/03/2016
Luiz da Rosa

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Lendo a narração evangélica sobre os últimos dias de Jesus aparece claramente uma contradição em relação aos dias em que os fatos aconteceram, principalmente em relação ao dia da última ceia e da morte. Na verdade, os 4 evangelhos dizem que ele morreu na sexta-feira (Mateus 27,62; Marcos 15,42; Lucas 23,54; João 19,31.42), mas a confusão está em relação à natureza daquela sexta-feira. Os sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) não concordam com João.

 

Diferença entre os Sinóticos e João

Segundo os sinóticos, a sexta-feira em que Jesus morreu era o dia da páscoa hebraica, que era celebrada (e ainda hoje o é) no dia 15 do mês de Nisan (corresponde a março e abril), conforme indicado pela Bíblia. Na véspera da festa, os judeus fazem uma janta especial, com regras especiais (seder, isto é “ordem”), como recordação da libertação da escravidão no Egito.

Os três primeiros evangelhos apresentam a última ceia de Jesus como uma janta pascal. De fato, segundo Marcos 14,12-16 e paralelos, Jesus pede aos discípulos que “preparem a Páscoa”. Lucas até mesmo começa a sua narração com as seguintes palavras de Jesus: “desejei ardentemente comer esta páscoa convosco” (22,15).

Se a Última Ceia foi uma janta pascal, a sua morte, no dia seguinte, teria sido no dia da páscoa, 15 de Nisan.

João, porém, diz claramente que aquela sexta-feira era o dia da Parasceve (João 19,14), isto é, dia que antecedia a Páscoa, dia em que os judeus se preparavam para comer a Ceia Pascal.

 

Qual data seguir?

Quais das duas versões temos que seguir? Aquela dos sinóticos que diz que Jesus morreu no dia da páscoa, 15 de Nisan, ou aquela de João, segundo a qual ele teria morrido dia 14 de Nisan?

Não existe uma solução para essa questão. Há várias hipóteses. Uma delas foi defendida pela francesa Annie Jaubert. Ela, estudando os manuscritos de Qumran, sublinha a existência no tempo de Cristo de dois calendários. Em Jerusalém, no Templo, se usava o calendário controlado pelo Sinédrio, calendário lunar, enquanto que em Qumran seria usado um calendário solar.

O calendário lunar era de 12 meses, de 29 0u 30 dias, conforme o ciclo da lua. O ano tinha 354 dias. Por causa dos dias que ficavam para trás, em relação ao ciclo do sol, a cada dois ou três anos se acrescentava um mês ao calendário, para recuperar os dias perdidos. A lua cheia marcava o início do mês, era o primeiro dia do mês.

O calendário solar que seria usado em Qumran e em outros lugares tinha 364 dias. O primeiro dia de cada mês caía sempre na quarta-feira, que segundo a tradição era o dia em que foram criados os astros que regulam o tempo. A mesma coisa para o dia 15 de cada mês, para o dia da Páscoa celebrado pelos membros de Qumran. Isto é, em Qumran a Páscoa era celebrada sempre na quarta-feira.

Se esses dois calendários eram usados contemporaneamente em Israel, aquilo que para a maioria dos judeus era o dia da Páscoa, para outros podia ser um dia normal.

Annie Jaubert, considerando essa possibilidade, diz que Jesus teria podido celebrar a última ceia segundo o calendário antigo solar, na noite entre a terça e a quarta-feira (conforme dito pelos sinóticos) e teria morrido dois dias mais tarde, na sexta-feira, preparação para a Páscoa, segundo o calendário oficial do Templo (conforme dito por João).

Dessa maneira poderíamos reter como verdadeiras tanto as informações dadas pelos sinóticos quanto aquela transmitida por João.

Considerando quanto dito, temos diante de nós três soluções:

  • Os Sinóticos e João têm diante de si dois calendários diferentes, tendo os sinóticos condensado em um único dia coisas acontecidas em três
  • Os sinóticos interpretam a Última Ceia como uma janta pascal, coisa que João não faz
  • João interpreta a morte de Jesus como um sacrifício pascal, colocando-a no dia da preparação da Páscoa, quando era sacrificado o cordeiro pelos judeus.

 

E Paulo?

Normalmente não se toma em consideração quanto dito por Paulo. Na verdade, ele escreveu muito antes dos Evangelhos e, por isso, as suas cartas poderiam ser fontes muito mais confiáveis do que os Evangelhos. Todavia ele não nos ajuda muito. De fato, Paulo não fala diretamente, como um cronista, dos episódios vividos por Cristo. Fala da Última Ceia em 1Coríntios 11,23-26, mas simplesmente diz que ela aconteceu “no dia em que nos foi entregue”. Paulo não a mostra como uma janta pascal. Por outro lado, em 1Coríntios 5,7 fala de “Cristo, nossa Páscoa”, interpretando, como João, a morte de Jesus como sacrifício pascal.

Portanto, tão pouco Paulo nos ajuda a resolver a questão. 

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