Uma janela sobre o mundo bíblico

Tese de doutoramento sobre a bíblia de João Ferreira d'Almeida



Luiz da Rosa

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Acaba de ser publicada uma tese de doutoramento em Sagrada Escritura cujo tema é A Bíblia de João Ferreira Annes d’Almeida, «o primeiro projecto organizado para uma tradução da Bíblia em língua portuguesa». O autor é Fr. Herculano Alves, um franciscano capuchinho, professor na Universidade Católica do Porto. A tese foi apresentada n Universidade Pontifícia de Salamanca, em 2005. O Os editores são a Sociedade Bíblica de Portugal, a Sociedade Bíblica do Brasil e a Difusora Bíblica, de Portugal.

Motivos e felizes coincidências

Almeida, um calvinista português do séc. XVII, nasceu em Mangualde em 1628 e faleceu em Batávia em 1691. Foi «o escritor de língua portuguesa mais editado» por causa desta Bíblia, que teve uma tiragem superior a cento e dez milhões de exemplares.

É de notar que frei Herculano Alves tenha optado pela vida e obra de um protestante para tema da sua tese. E fê-lo por três motivos. Antes de mais, «a opção fundamental feita pelos Franciscanos Capuchinhos em Portugal, que celebraram em 2005 o 50º aniversário do seu Movimento Bíblico», juntamente com o 40º aniversário da Dei Verbum, do Concílio Vaticano II.

E «porquê o estudo de uma Bíblia protestante?», pergunta o autor, que diz: para responder à insistência do Concílio «num trabalho ecumênico a aprofundar cada vez mais. Ora, houve sempre entre o Movimento Bíblico dos Capuchinhos e a Sociedade Bíblica de Portugal – que desde sempre editou a Bíblia de Almeida – estreitas e ecumênicas relações, tanto ao nível editorial, como ao nível pastoral, sobretudo nas Semanas Bíblicas Nacionais, que os Capuchinhos organizam, desde há 29 anos a esta parte». E finalmente, porque «a Bíblia de Almeida é o primeiro projeto organizado para uma tradução da Bíblia em língua portuguesa. Este é um fato literário da maior importância na cultura portuguesa. Se não houvesse outros motivos, bastaria este» (p. 13).

A isto, acrescente-se a observação que Os Editores fazem na Abertura: de que esta obra aparece «precisamente no ano em que se celebra o 325º aniversário da editio princeps do Novo Testamento traduzido por João Ferreira de Almeida e publicado em Amsterdão em 1681» (p. 5). Obra de que se encontra um exemplar na Biblioteca Nacional de Lisboa, cujo frontispício é reproduzido na página 256 deste livro.

Conteúdo da Obra
Para fazer este trabalho, com exactamente 900 páginas impressas, bastante densas em dados históricos, análise crítica e reflexão teológica, Herculano Alves deslocou-se às principais Bibliotecas da Europa, do Brasil e dos Estados Unidos. Nomeadamente: Biblioteca Nacional de Lisboa, Biblioteca Nacional de Copenhaga, Biblioteca Nacional de Haia, Leiden, Biblioteca Nacional de Paris, British Library, Bodleian de Oxford, Biblioteca da Universidade de Cambridge, Biblioteca Nacional de Madrid, a Biblioteca de Salamanca, várias do Rio de Janeiro e S. Paulo, e as de Nova Iorque, Washington e Boston.

O estudo é desenvolvido em 5 capítulos:
I. RECENSÃO CRÍTICA DAS “FONTES” DA BÍBLIA DE JOÃO FERREIRA D’ALMEIDA (pp. 17-74): Fontes Estrangeiras; Obras de J. F. d’Almeida como Fontes Biográficas; Fontes Portuguesas.
II. NOTAS PARA UMA BIOGRAFIA DE JOÃO FERREIRA D’ALMEIDA (pp.75-170): Grande Desconhecido; O Homem; O Escritor; Questões Discutidas.

III. CONTEXTO HISTÓRICO, CULTURAL E RELIGIOSO DA BÍBLIA DE JOÃO FERREIRA D’ALMEIDA (pp. 171-256): Motivação Religiosa dos Descobrimentos Portugueses; Declínio do Império Português no Oriente; Movimento Bíblico, Reforma e Concílio de Trento.

IV. JOÃO FERREIRA D’ALMEIDA, TRADUTOR DA BÍBLIA (pp. 257-448): Como nasceu a Bíblia de Almeida: Etapas Históricas; Novo Testamento de Batávia e de Tranquebar; Edições do Antigo Testamento (Batávia e Tranquebar); Editio princeps da Bíblia Completa de Almeida: Londres, 1819; Revisores da Bíblia de Almeida; Grandes Editoras Modernas que Publicam Almeida; Edições de Almeida em Publicação; Para uma História da Bíblia de Almeida – Catálogo das suas Obras; Visão Sinóptica das Edições de Almeida.

V. FONTES DO TEXTO PORTUGUÊS DA BÍBLIA DE ALMEIDA (pp. 449-534). Que Estudos fez Almeida?; Que Línguas sabia Almeida?; Almeida, Único Tradutor? Relação Tradutor-Revisores; Método de Tradução usado por Almeida; A Linguagem de Almeida: Que Tipo de Português?; Estudo Comparativo de Vários Textos Bíblicos; Implicações Teológicas da Bíblia de Almeida (Um calvinismo económico; Um calvinismo bíblico).

Depois de um Apêndice com as Datas Importantes da Vida e Obra de Almeida (519-526), de uma Conclusão Geral (pp. 527-534) e da Bibliografia Fundamental (535-552), a obra inclui ainda dois Apêndices importantes:
1. Fontes Holandesas (pp. 555-672) e
2. Catálogo das Obras Bíblicas de João Ferreira Annes d’Almeida (pp. 675-889). Este último quase poderia ser considerado, por si mesmo, um livro diferente, não fosse ele o grande reservatório de informação para o qual o conjunto do livro remete constantemente.

O escritor de língua portuguesa mais editado

Num Posfácio com que termina este segundo Apêndice, o autor contabiliza 1.796 edições e mais de 11 milhões de exemplares editados, distribuídos assim pelas várias obras e as respectivas edições e exemplares: Bíblia Completa: 8.69 e 43.524.547; Antigo Testamento: 130 e 1.193.000; Novo Testamento: 369 e 15.835.900; Evangelhos (Mt, Mc, Lc e Jo): 321 e 44.599.000; Evangelhos e Actos: 38 e 2.380.194; Cartas de Paulo: 27 e 2.700.000; Cartas Católicas e Apocalipse: 24 e 585.000; Outras Edições: 18 e 900.000.

E reconhece: «É certo que foram editados muitos mais exemplares, como propalam sobretudo as editoras brasileiras de Almeida. Estes foram aqueles a que tivemos acesso directo ou indirecto» (p. 890). Para concluir: «Este número de exemplares da Bíblia de Almeida impressos – superior a cento e dez milhões – fazem dele o escritor de língua portuguesa mais editado em toda a história da língua de Camões. Se tivéssemos em conta os números que as editoras referem na generalidade – sem nos apresentarem a que edição se referem – o número seria, pelo menos, de 2.000 edições e de 150.000.000 de exemplares impressos. E confesso que, pelos cálculos feitos, este número não deve ser nada exagerado» (p.891).

Para se saber mesmo qual o tipo de Português e a grafia da tradução original de Almeida, basta ver este texto transcrito no verso da página de rosto do livro:
«E tende por falvaçaõ a longanimidade de noffo Senhor: como também nosso irmaõ Paulo vos efcreveu segundo a fabedoria que lhe foi dada: entre as quaes há alguãs difficeis de entender que os indoctos e inconstantes [homens] como também as de mais Efcrituras, pera sua própria perdiçaõ. Portanto vosoutros, o amados, [isso] fabendo d’antes, guardaevos que pelo engano dos abominaveis homens vos naõ deixeis com elles juntamente arrebatar, e affi de vossa firmeza caiaes. Antes ide crecendo em a graça, e conhecimento de noffo Senhor, e salvador Jefu Chrifto. A elle feja a gloria, e agora, e n’o dia da eternidade. Ámen.»
(Segunda Carta de Pedro, 3,15-18; tradução do Novo Testamento de João Ferreira d’Almeida, 1681).

Observações

Diga-se, entretanto, que «faltam à tradução de Almeida os últimos versículos do capítulo 48 de Ezequiel, o Profeta Daniel e os Profetas Menores, para alem dos Dêutero-canónicos, que não são admitidos como inspirados pelos Reformadores» (p. 12-nota).

Além disso, a sua tradução foi adulterada, desde os primeiros revisores até hoje. Daí a 11ª das Conclusões gerais do autor, que julgo digna de nota: «Observação necessária a uma Bíblia traduzida há mais de três séculos, e que continua a ser publicada aos milhões sobretudo no Brasil é o facto, normal, aliás, de ter sido de tal modo transformada, que o original de Almeida quase não se identifica com as edições actuais, todas elas atribuídas a ele. Além dos avatares normais de uma obra como esta, que sofreu necessárias revisões e correcções ao longo de todo este tempo, sabemos também que esta Bíblia, ainda durante a vida de Almeida, foi vítima de “maus-tratos”, por parte dos revisores holandeses.

Depois de todas as revisões e correcções e, na falta de encontrar o seu manuscrito, ficamos sem saber onde encontrar o texto legítimo de Almeida, pois possuímos apenas o “Almeida corrigido” muitas vezes. Este facto inegável leva-nos a questionar, se não a legitimidade, pelo menos a oportunidade de continuar a editar um texto que tem uma história inigualável, mas que julgamos ter chegado ao fim. Explicamos: Se não sabemos, hoje, o que resta do texto legítimo de Almeida – depois de tantas revisões e adaptações – não será altura de as editoras que tradicionalmente o editam procurarem outro texto? Isto não desdiz nada da importância que teve a sua tradução e a sua pessoa» (pp. 532-533).

Perante isto, pergunto eu, como entender que duas editoras portuguesas estejam a lançar uma Bíblia ilustrada, com o texto de Almeida pretensamente “fixado” a partir de um versão pretensamente credível, e orquestrada como um grande projecto cultural?! E que pensar do facto de terem sido utilizadas, nessa obra, informações originais da tese do frei Herculano, mas o seu autor – a pessoa que mais sabe sobre a Bíblia de Almeida – ter sido marginalizado? A Bíblia está em alta no nosso país, sobretudo graças ao Apostolado Bíblico muitas vezes feito contra a corrente. Mas, o respeito pela Palavra de Deus e pela boa fé dos leitores obriga-nos a dizer que não vale tudo.

LOPES MORGADO
www.difusorabilica.com


Editores: Sociedade Bíblica de Portugal, Sociedade Bíblica do Brasil, Difusora Bíblica

Parceria: Universidade Católica Portuguesa

Coord. editorial e rev. gráfica: Herculano Alves

PEDIDOS
Directamente à www.difusorabilica.com
ou ao autor: frei Herculano Alves

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