Uma janela sobre o mundo bíblico

O Pedro que o apóstolo Paulo repreende em Gálatas 2 é o mesmo discípulo de Jesus?



  • Pergunta de Elizabeth Aparecida de Assis, Barbacena
  • 4715
  • 16/01/2017
Luiz da Rosa

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E continua a consideração da pergunta:

Se for, por que ele teve essa atitude de se afastar dos gentios temendo os que eram da circuncisão, sendo que Pedro já teria entendido que Deus queria salvar também os gentios quando, em Atos dos Apóstolos, o impeliu a pregar para Cornélio e toda a sua família? 

A sua é uma pergunta muito inteligente. Ela sublinha dois aspectos importantes para a interpretação bíblica: a história da igreja primitiva e a história dos textos bíblicos.

A resposta, de forma direta, é que se trata do mesmo Pedro, apóstolo de Cristo.

 

O destinatário da mensagem de Cristo segundo a comunidade cristã primitiva

Do ponto de vista histórico, como você mesmo recorda, no início da igreja houve alguma tensão entre os cristãos que vinham do judaísmo, como Jesus, e os cristãos que vinham do paganismo, que não tinham relação com a religião hebraica. Pedro era um judeu praticante e não era uma pessoa cosmopolita; era um pescador da Galileia e a sua percepção religiosa podia ser bastante radical: Jesus era judeu e veio para os judeus. Ele, como os outros apóstolos e grande parte da comunidade primitiva, passou por um processo de "conversão" que o conduziu a concluir que a mensagem de Cristo era dirigida também àqueles que não eram judeus, aos gentios.

Paulo, por outro lado, era um judeu cosmopolita. Nasceu fora da Terra Santa e cresceu em ambiente pagão, embora tenha feito seus estudos religiosos em Jerusalém. Para ele foi muito mais fácil entender que a mensagem de Cristo não era limitada aos judeus, mas destinada a todas as gentes.

Há fatos históricos que mostram essa tensão e o processo vivido pela comunidade cristã primitiva em relação aos judeus e gentios:

  • Paulo se converte e se torna “um instrumento para levar o nome de Jesus dinate das nações gentílica, dos reis e dos israelitas” (Atos 9,15).
  • Pedro vai à casa de um centurião romano (Atos 10)
  • A Boa Nova anunciada aos pagãos em Antioquia (Paulo, Barnabé e João - Atos 11 - 12)
  • Alguns cristãos ensinavam aos pagãos: “se não vos circuncidardes, não podereis salvar-vos”. Realiza-se o “Concílio de Jerusalém” que decide não pedir a circuncisão como condição para ser cristão (Atos 15).

No meio desses fatos históricos é necessário colocar o evento que Paulo conta em Gálatas 2, a repreensão de Pedro por parte de Paulo sobre a relação com os gentios. Através de Atos dos Apóstolos, não sabemos de uma visita de Pedro a Antioquia, que segundo conta Paulo, na carta aos Gálatas, teria acontecido depois do “Concílio de Jerusalém”. É presumível que isso tenha acontecido, pois Paulo não tem razão para dizer uma coisa infundada. O fato de isso não aparecer em Atos não significa que não tenha acontecido, pois Atos foi escrito por Lucas cerca de 20 anos depois da Carta de Paulo e é muito apologético tanto em relação a Pedro que a Paulo e não seria muito frutífero mostrar um conflito entre os dois.

Paulo não está criticando a posição de Pedro em relação aos gentios. Ele confirma as informações dadas por Lucas em Atos de que Pedro havia aceitado o anuncio do Evangelho aos gentios, sem a exigência que eles se tornassem “judeus”. O que Paulo critica é a pouca firmeza de Pedro diante dos judaizantes, a facilidade com que Pedro renunciava aos seus princípios. Critica, digamos, a “hipocresia” de Pedro.

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