Uma janela sobre o mundo bíblico

Pixel e solventes para salvar os manuscritos de Qumran



Luiz da Rosa

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Está sendo realizada uma grande obra de restauração dos textos de Qumran. A primeira fase, analítica, foi concluída. Agora se está estudando que procedimentos realizar, visto que toda intervenção de conservação e restauração dos preciosos manuscritos segue um procedimento muito cuidadoso, definido há 20 anos por um grupo internacional. O problema é que depois de 20 anos apareceram novos problemas, como por exemplo, alguns pensam que pode ser que a tinta usada nos manuscritos esteja estragando o material sobre o qual foram escritos os textos. Por isso o procedimento decidido há vários anos deve ser mudado.

Encontrados entre os anos 1947 e 1956 em 11 grutas, na zona de Qumran, às margens norte do Mar Morto, os manuscritos contém mais de 900 textos em hebraico e também em aramaico e grego, que foram escritos entre o século III antes de Cristo e o Século I depois de Cristo. Entre esses textos estão os textos mais antigos existentes do Antigo Testamento, pedaços de todos os livros da Bíblia Hebraica, exceto Ester. Além dos textos bíblicos há numerosos textos não canônicos, não bíblicos.

Os manuscritos não representam somente uma importante meta cultural e religiosa, mas também científica, visto os problemas relacionados com a sua conservação. Exceto alguns textos bem conservados, a maior parte deste patrimônio é formada por 15 mil fragmentos de pergaminho e papiro, com diferentes estágios de decomposição. O clima seco da região do deserto da Judéia ajudou a conservá-los, mas a partir do momento que foram tirados das grutas, os materiais se estragaram, às vezes, em modo irreversível, seja pela umidade e temperatura, seja pela exposição à luz e pela manipulação errada.

Os primeiros que manipularam os textos foram os estudiosos. O objetivo daquele tempo era decifrar a escritura. Por isso não tiveram escrúpulos e usaram, por exemplo, fita adesiva para unir os diferentes fragmentos. Além disso, umedeciam os rótulos e os colocavam sob vidros. Foi isso que provocou os maiores danos ao material.

Em 1991 os responsáveis de Israel colocaram todo o material num local climatizado, que reproduz as condições ambientais das grutas em que foram encontrados e chiara também um laboratório especial para a sua conservação. Um dos responsáveis comenta o trabalho feito: “Abrimos centenas de lastras, extraindo, quando era possível, os fragment0s. Depois cobrimos o lado com o texto com papel japonês e trabalhamos o lado avesso. Os restos de adesivos desintegram os pergaminhos. Por isso precisamos removê-los, usando solventes. No fim da limpeza, revestimos as bordas e enchemos lacunas, para, em seguida, colocar os fragmentos sob recipientes compatíveis, como o papelão não ácido”. Cada fragmento pede um procedimento diferente e por isso, as operações são lentas e caras. O processo de envelhecimento não pode ser evitado. Em alguns casos o material é tão mal conservado que não se consegue mais individuar os caracteres da escritura.

Desde a descoberta, somente os estudiosos tiveram acesso aos manuscritos. Contudo, em 2001, a editora da Universidade de Oxford terminou a publicação da “Discoveries in the Judean Desert”, que reúne todos os textos. Esse trabalho foi realizado graças à colaboração de 88 expertos judeus, cristãos e muçulmanos. A obra, composta de 39 volumes, permitiu a difusão e o acesso aos textos. Existe, porém, um projeto mais ambicioso, ou seja, a digitalização e a difusão via internet. Isso vai permitir que todos tenham acesso aos textos, acompanhados de transcrição, tradução e interpretação

O projeto começou a ser realizado em agosto de 2008, com a colaboração de Gregory Bearman, ex cientista da Nasa. O processamento dos dados è coordenado por Simon Tanner do Kings College de Londres. Já foram tiradas 4 mil fotos, utilizando uma camêra digital com 39 megapixel, que garante a excelente resolução das fotos. Em alguns casos são utilizadas também câmeras com infra-vermelho e outra multi-espectral, que mostra a tinta, revelando detalhes invisíveis a olho nu.

A perspectiva é que o projeto seja concluído em 5 anos e vai custar 5 milhões de dólares.


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