Primeiramente apresentaremos as noções gerais sobre o sentido de “Palavra” segundo a mentalidade do povo hebreu do Antigo Testamento da Bíblia. Sem, no entanto, pretender abarcar toda a densidade e complexidade que tal reflexão poderia propiciar, é mister considerar essa contribuição, a fim de melhor compreendermos o sentido do termo “Palavra” no contexto do Quarto Evangelho. O intuito do trabalho é apresentar orientações possíveis para fundamentar as bases da pesquisa. Tais orientações se construirão ao longo da narrativa que faremos acerca do “Logos”, no Prólogo do Quarto Evangelho canônico, assim como na realidade da comunidade joanina na qual se insere o escrito tradicionalmente atribuído ao Evangelista São João.

Queremos percorrer o caminho de fé feito pelo Povo de Israel no Antigo Oriente, pois foi nesse caminhar que o povo compreendeu, dentro de um contexto, a Palavra de Deus. Aquilo que podemos denominar como Palavra-ação de Deus, que foi recebida por tradição pelo povo no contexto neotestamentário, serviu como suporte para a evolução do pensamento teológico até culminar na elaboração e utilização da palavra “logos” da comunidade joanina “E o Verbo se fez carne”, como lemos em Jo 1,14, a realizar-se em plenitude na auto-comunicação de Deus.

A “palavra” para o oriental exprime a própria pessoa e apresenta o sentido profundo e a razão de sua existência. Para o semita, algo sem nome, sem palavra é como se não tivesse vida. Algo que não tem sentido e razão. Quando no relato do Gênesis 1,5.8.10 Deus coloca nome às coisas, elas passam a existir e se tornam boas. Saber o nome da coisa ou pessoa é ter posse sobre, ter o domínio de. Com o nome a pessoa recebe uma missão, por exemplo Moisés significa “salvo das águas” e Joaquim, quer dizer “o elevado de Deus”.

No vocábulo dabar a coisa ou a palavra ganha sua inteligibilidade e transparência, pois sem essas propriedades, seriam opacas e não teriam clara definição. Enfim, seria o caos.

Além do sentido de “Palavra” como falar divino, o termo tem também o sentido de acontecimento se referindo a uma ação, a um movimento, pois Deus fala agindo. Nesse sentido, temos a Palavra de Deus como uma realidade de fé, pois em Deus, palavra e ação são a mesma coisa.

Em seguida, poderiam ser trabalhadas e refletidos alguns temas fundamentais que poderiam ser desenvolvidos, como a Palavra e Torah; Palavra e Aliança; Palavra e espírito; a Palavra como promessa; a Palavra que nos convida ao diálogo; a “Palavra” profética; a “Palavra” criadora, salvadora e portadora da comunicação divina.

Os sentidos do termo “Palavra” no ambiente neotestamentário, em que os textos são escritos a partir da fé no Cristo Ressuscitado, podemos encontrar diversos termos “Palavra de Deus”, na sua ação e realidade concreta, segundo os Evangelistas Mt 15,6 e Lc 1,37-45; 3,2.

No Novo Testamento a Palavra criadora e salvadora ganha uma nova roupagem, porque a própria Palavra de Deus habita agora no meio de nós. Para as comunidades, essa “Palavra” tem nome, é Jesus Cristo, a expressão máxima da Palavra revelada. Podemos constatar com fé nos textos de Hb 1, 2-4; 11, 3; Cl 1,16; Jo 1,3 que, Deus deu “nome” a todas as coisas criando-as através de Seu Filho Jesus Cristo, o centro de todo Mistério da Palavra de Deus.

O próprio Jesus Cristo é a Boa Nova, é a Dabar do Universo, não apenas intelectualmente para compreensão, mas como é de fato, bem real. Em Cristo está toda a plenitude da força do Espírito. Assim, por gratuidade, Deus quis enviar definitivamente aos homens uma nova revelação da dabar, que se apresenta na Pessoa e Palavra de Cristo, como Salvador e Libertador.

A Palavra de Deus começa a fazer parte da história humana, primeiramente através da dabar de Javé. Agora, após a espera messiânica anunciada pelos profetas, esta mesma Palavra em sua essência, manifesta-se plena e definitivamente na vida dos homens na forma verdadeiramente Humana e verdadeiramente Divina. Encontramos a radical auto-comunicação e manifestação da Palavra de Deus no próprio homem histórico Jesus de Nazaré.

Podemos refletir neste momento em aspectos gerais sobre a estrutura e a teologia do “Logos” no Prólogo do Quarto Evangelho (Jo 1, 1-18).

O Prólogo exerce um fascínio sobre aqueles que se debruçam sobre o texto, seja para pesquisa, leitura litúrgica, formativa e principalmente espiritual. Muitos questionamentos foram levantados ao longo da história e, principalmente por aqueles que intentaram sobre o desvendamento de seu real sentido e fundamental objetivo.

O Prólogo é mais do que uma recapitulação das idéias do Evangelho. É diferente de uma meditação feita posterior ao Evangelho ou uma introdução para se chegar a outro contexto ou leitor.

Percebemos que a temática central apresentada pelo Evangelista é o Logos de Deus em suas diferentes dimensões, ou seja, o preexistente, encarnado, rejeitado, o revelador da autêntica filiação aos homens como participação na natureza do Logos de Deus. Há três termos chave que o Prólogo apresenta: a ca,rij (cháris – graça), o plh,roma (pléroma – plenitude) e o Logoj (Logos – Palavra).

O Prólogo segue um desenvolvimento literário ao modo de “escada”, se aportando no esquema helênico que apresenta o verbete principal no início e no final de cada versículo. Sendo assim, a construção literária do Prólogo não é encontrada em nenhum outro Livro do Novo Testamento.

prólogo de João

A organização estrutural do Prólogo do Quarto Evangelho em forma de quiasmo pode ser analisada também, a partir do contexto da História da Salvação, propondo uma divisão tripartida do Prólogo.
• Aspectos relacionados à criação (vv. 1-5);
• A história universal e de Israel (vv. 6-13);
• A Encarnação e comunidade cristã (vv. 14-18).

Com isso, a intenção do Evangelista não é apresentar um Logos como preexistente, depois um Logos encarnado, como se fossem distintos entre si. Da mesma forma como podemos conhecer melhor uma pessoa observando as diversas atividades que exerce, seja familiar, educação, social, de modo semelhante o Evangelista apresenta o Logos à luz de seus diferentes papéis ou atividades, ou seja, o momento da preexistência, da Encarnação e o momento posterior à Encarnação.

A fim de introduzir a estrutura poética do Hino ao Logos na reflexão, o objetivo teológico do Evangelista mostrar à humanidade que o Logos, o próprio Deus, por meio de Sua Palavra Eterna e Criadora, se torna carne. Num gesto de infinito amor e misericórdia se torna um ser humano assumindo todas as dimensões humanas, exceto o pecado, pois descaracterizaria sua divindade.

A teologia do Prólogo não é de um estilo racionalmente dialético, mas contempla a verdade sob diversos aspectos. Ela se apóia no jeito de ser do semita, na qual a figura semita expressa de maneira incisiva os elementos da autoridade (Logos) e a presença do testemunho (João Batista).

O estilo literário produzido é todo próprio, reflete a profundidade e unidade de alguém que soube inspirar-se e assimilar-se seu ideal a Jesus Cristo, Caminho, Verdade e Vida, na citação de Jo 14,6. O Prólogo desenvolve uma íntima relação entre o seu autor e aquele de quem está falando, de forma que é difícil distinguir a narrativa de um ou outro. Tem como estilo literal a dramaticidade, na qual toda a narrativa se desenvolve com movimentação e expressiva vivacidade.

O Evangelista diante da Encarnação de Deus feito homem, trabalha sob as duas dimensões ou naturezas de Jesus. O Homem verdadeiramente Deus e Deus verdadeiramente Homem. Neste ínterim, nossa reflexão teológica tem como suporte indispensável os olhos da fé.

Em suma, tratamos do sentido dos termos empregados pelo Evangelista, bem como a teologia que envolve o seu contexto. Algumas questões podem ser claramente tidas como abertas, embora seja possível ter uma noção geral de toda a complexidade que envolve essa questão, vista de modo profundo.

O Evangelista procura fazer uma viagem bíblica, de modo expositivo. Parte do primeiro gesto revelador que é a criação, enquanto o Logos existia na eternidade junto de Deus. Ao percorrer em estilo poético e circular, apresenta a auto-comunicação de Deus, na categoria do Logos (projeto-Palavra-ação). O Logos se encarna concretamente a fim de revelar que a busca do ser humano deve estar situada no encontro com a Graça sobrenatural, que é a resposta ao chamado de Deus à participação filial.



PS: O texto apresentado é uma síntese compactada sobre o trabalho desenvolvido como pesquisa científica, na Faculdade João Paulo II, Marília-SP, em 2007. Qualquer questão a respeito deste tema favor entrar em contato [email protected].